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domingo, 21 de março de 2010

A morte de Glauco e a hipocrisia narcótico-religiosa

O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas e de seu filho, Raoni, no último dia 12 chocou o país. Mas pouca gente parece preocupada com o fato de que a morte de Glauco é mais uma de uma série histórica de assassinatos em nome de deus.  Carlos Eduardo Sundfeld Nunes (Cadu), o assassino, era um fanático toxicômano que se considerava Jesus Cristo e queria provar sua cristandade para a mãe. Ainda que o homicida possa ter cometido o crime sobre efeito de drogas — talvez até a ayahuasca do Santo Daime — isso não tira a religião da história. E a mistura de religião com drogas legais e ilegais é polêmica, mas a religião, mesmo quando usa drogas, é sempre protegida.


Para mim, pelo menos, foi uma surpresa saber que o criador do Geraldão “vida-loka” fosse o líder paulistano daquela que talvez seja a mais fundamentalista das seitas brasileiras, o Santo Daime. Glauco fundou a igreja Céu de Maria para ganhar dinheiro e influenciar pessoas após o que considerou ter sido uma visão, ou melhor, uma alucinação induzida pelo chá de daime.

Glauco não foi morto por um simples viciado numa tentativa de assalto durante uma crise de abstinência. Foi morto por ser o líder de uma igreja que negou-se a reconhecer Jesus em um de seus fiéis. Embora todas as evidências apontem para um crime com motivações religiosas até agora apenas o homicida foi tachado de louco, fanático. Os daimistas culparam seus vícios, que seriam mais fortes que sua fé e blá-blá-blá...

“SANTO BEQUE”
Já fiéis daimistas, que fazem uso regular de uma droga alucinógena tão perigosa quanto as que Cadu usava, são deixados em paz, livres, leves e soltos. Só por que usam drogas por razões religiosas. E se daqui a pouco os traficantes dos morros cariocas, por exemplo, resolverem fundar uma religião que transformaria viciados em fiéis, traficantem em pastore e faria uso “apenas cerimonial” não só de maconha, mas também de cocaína e crack?

Certamente surgiria uma penca de religiosos indignados, dizendo que aquilo não tem tradição, advogados diriam que os criminosos estariam aproveitando uma brecha legal e os folcloristas-ufanistas diriam que aquilo não seria cultura popular, que não seria nativo do país e blá-blá-blá… Só que a ayahuasca usada pelos daimistas nem é nativa do Brasil. A planta vem do Peru.

O problema não é a droga; é o uso que se faz dela e o motivo hipócrita pelo qual se permite esse uso, quando se permite. Se os daimistas podem, por que ninguém mais pode? Só por que os noiados não têm rituais? Por que não invocam o nome de deus e de cristo antes de tomarem suas drogas, sejam quais forem? Por que não andam uniformizados e não separam homens e mulheres? Por que não se separam em pastores e fiéis? Por que as alucinações são chamadas de “good trip” ou “high” em vez de “iluminações” e “revelações”?

HIPOCRISIAS
Não, senhores, a ayahuasca só é permitida por causa de uma religião. Mas quantos dentre os fiéis não são, na verdade, gente que se aproveita para se drogar legalmente? Certamente não são poucos. Porque os cânticos ruins e as roupas bregas são um preço muito baixo comparado ao risco de subir o morro, se meter com traficantes e, ou morrer durante um tiroteio, ou acabar na cadeia.

Carlos Eduardo só conheceu a Céu de Maria por causa do tratamento que fazia para se livrar do vício em drogas ilegais. Mas como pode uma religião — que reconhecidamente faz uso de drogas — tratar pessoas viciadas? Será que apenas não substituem um vício ilegal por outro legal (até mesmo aos olhos de deus)? Aliás, como as autoridades permitem isso?

Imaginem um moleque, filho de daimistas, que descobre o beque. Seus pais, se descobrissem, é claro, certamente proibiriam o moleque de dar um tapa na pantera. Só que eles próprios bebem o “espírito do vegetal”. Que diferença há aqui? Só por que uma é fumada — e faz uma fumaça difícil de esconder — e outra é um chazinho aparentemente inofensivo? Ou só por que o daime já era conhecido (e usado) pelos incas. Mas a maconha já era conhecida (e usada) há muito mais tempo pelos egípcios.

Não há, portanto, argumento que sustente o uso de drogas apenas por razões religiosas. Ou libera geral ou fica proibidão pra todo mundo. O que não dá, por razões lógicas, é manter meias medidas hipócritas.

4 comentários:

  1. Concordo contigo "em gênero, número e grau".

    Tuas idéias confluem com minhas impressões a respeito da droga ayahuasca e da seita Santo Daime.

    É uma hipocrisia aceitar o uso de um alucinógeno com um discurso religioso por um lado e rejeitar um segundo por este não estar associado à uma religião.

    "Ou libera geral ou fica proibidão pra todo mundo".


    Mas quais seriam as consequências de um "liberar geral"? Uma possível resposta pode ser observada na Holanda, ainda que a Holanda seja um país completamente diferente do nosso, e dispõem de recursos que nos faltam...

    Possivelmente o número de viciados iria aumentar, mas iria diminuir (acho) o poder de traficantes e do crime organizado ao redor destes, uma vez que a distribuição passaria ao Estado ou seria por ele vigiada. Ainda que o Estado em questão é o Brasil...

    Será que valeria a pena? Será que realmente diminuiria o poder do crime organizado?

    Qual a tua opinião a respeito? Liberar geral seria uma opção válida?

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  2. Fábio Pires Bento (fpbento@yahoo.com)22 de mar de 2010 10:02:00

    Olha, sob o risco desse blog ser uma piada de mau gosto e eu estar aqui espernando (tipo aquele site dos gatos num pote de vidro), eu tenho que me manifeststar mais uma vez.

    O artigo realmente acusa um cartunista famoso e crítico como o glauco de ter fundado a religião do daime PRA GANHAR DINHEIRO! De onde saiu essa informação? tô com uma pena enorme do glauco: o cara tenta ajudar um toxicômano, morre, perde o filho de 25 anos, tem a sua religião achacada por desinformados como esse blogueiro e a VEJA, e ainda acusam o cara de mercenário ao criar a religião.
    é o fim do mundo, velho. o último a sair apaga a luz.

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  3. @ Alexandre
    Liberar geral poderia até ser possível, mas será que os traficantes iam ficar quietos e mudar de ramo? Porque, se fosse como na Holanda, as drogas seriam vendidas em pequenas porções em farmácias e cafés.

    E se eles mudarem de ramo e continuarem no crime? Podem passar a fazer assaltos, sequestros e o diabo-a-quatro!

    Mesmo se fosse liberado e houvesse algum tipo de negociação para transformar traficantes fora-da-lei em comerciantes, haveria ainda a questão da possível sobrecarga do Sistema de Saúde (que já não é dos melhores). Eu acho que, nesse caso, doenças ou sequelas decorrentes do consumo de drogas não deveriam ser cobertas pelo SUS e nem pelos planos de saúde.

    Agora, se os traficantes virassem comerciantes pagadores de impostos (impostos sobre as drogas, como já tem sobre o cigarro e o álcool), aí até poderia haver instituições públicas (e laicas) para a reabilitação dos toxicômanos.

    Ou seja, liberar geral é difícil, mas não impossível.

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  4. @ Fábio Pires

    A iniciativa de Glauco, o trabalho voluntário dele com viciados seria irrepreensível se não fosse contraditória.

    Mas não é muito estranho que como o criador de um personagem como o Geraldão, profundamente viciado (em álcool e cigarros), possa se habilitar como tratador de toxicômanos ao mesmo tempo em que atua como líder religioso de uma seita fanática que faz uso de psicoativos?

    Fábio, a sua indignação com a possibilidade de Glauco ganhar dinheiro com o Céu de Maria é hipócrita; é a mesma hipocrisia que considera a religião um assunto indiscutível e fecha os olhos para o fato de que associações religiosas são, injustamente, livres de impostos, mesmo quando movimentam dinheiro. A igreja de Glauco usava dinheiro, como todas usam. Ou como você acha que o Glauco mantinha os viciados em tratamento? Será que agora dinheiro cai do céu e só eu não estou sabendo?

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