Misterioso Nada! Como hei-de mostrar
Vosso infome, infundado, ilocável vazio?
Nem forma, nem cor, nem som, nem tamanho traz.
Nem palavras ou dedos podem expressar vosso vozerio.
Mas embora não possamos vos comparar a algures,
Um milhar de coisas a vós podem se assemelhar.
E embora vós não estais com ninguém em nenhures,
Ainda assim, metade da Humanidade está a vos adorar.
Quantos volumes vossa história contém!
Quantas cabeças perseguem vossos poderosos ímpetos!
Quantas mãos laboriosas apenas uma porção de vós retém!
Quantos corpos se ocupam apenas com vossos projetos!
Os grandes, os orgulhosos, os vertiginosos, nada há-de dominar
E tudo — como meu soneto — em nada vai terminar.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Soneto ao Nada
Poema de Richard Porson, publicado na edição de 4 de março de 1814 do Morning Chronicle:
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Literatura Médica
Quando o médico escocês John Armstrong (1709-1779) disse aos amigos que tinha planos de escrever um livro sobre A Arte de Preservar a Saúde todos devem ter achado uma boa ideia. O que ninguém esperava é que ele o escrevesse em versos brancos (a divisão dos versos foi mantida tal qual o original):
O lânguido estômago amaldiçoa até mesmo
A deliciosa gordura e todas as raças de óleo
Pois quanto mais oleoso, o alimento relaxa
Seu débil tônus. E a voraz linfa
(Doida para se incorporar em tudo que encontra)
Recatadamente ele mistura. E evita com escorregadias artimanhas
O cortejado abraço. Esse insolúvel óleo
Tão gentil, lento e lisonjeiro, em fluxos
De bile rançosa se esparrama: Quanto tumulto causa,
Quantos horrores levanta são nauseante para relatar.
Escolhei mantimentos enxutos, ó vós de jovial feitio!
Publicado em 1744, o poema continua assim, nessa toada, por 128 páginas dividas em quatro livros. O resultado é floreado demais para ser útil e ao mesmo tempo nauseabundo demais para ser inspirador. O Dr. Armstrong ainda insistiu mais um pouco em sua poesia mediocremente médica, mas não teve sucesso. Mas para ganhar a vida, ele teve que voltar a escrever apenas receitas: em 1760 ele foi contratado como médico pelo exército britânico que estava na Alemanha.
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domingo, 17 de julho de 2011
A última canção
Enquanto está sendo desativado (ou morto) em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o computador HAL começa a cantar “Daisy Bell”. É uma cena clássica:
A letra da música é singela:
Daisy, Daisy, give me your answer do,
I’m half crazy, all for the love of you.
It won’t be a stylish marriage–
I can’t afford a carriage–
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle built for two.
De certo modo, isso é uma ironia poética. Durante uma visita ao Bell Labs em 1961, o autor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) havia testemunhado uma apresentação do primeiro computador a cantar. O físico John Kelly (1923-1965) havia programado um IBM 704 para cantar através de um sintetizador de voz. O nome da canção era “Daisy Bell”.
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sexta-feira, 15 de julho de 2011
Oração do Lobisomem
Segundo Sabine Baring-Gould, em seu Book of Werewolfes [Livro dos Licantropos] (1865), os versos que seguem são, segundo o folclore russo, uma invocação de lobisomens:
Aquele que deseja se tornar um oboroten, deve procurar na floresta uma árvore cortada. Deve apunhalá-la com uma pequena faca de cobre e andar ao redor da árvore, repetindo o seguinte encantamento:
No mar, no oceano, na ilha, em Bujan,No pasto vazio cintila a lua, sobre um rebanhoque repousa em um verde bosque, em um obscuro valeEm direção ao rebanho desvia-se um lobo desgrenhadoOs cornos do gado procuram suas brancas e afiadas presasMas o lobo não se volta para a florestaNem desce ao sobrio valeLua, lua, lua de chifres de ouroCega o voo das balas, parte as facas dos caçadoresQuebra a clava do pastorLança um medo pânico sobre todo o gadoSobre os homens, todas as coisas mais aterrorizantesQue eles não possam capturar o lobo cinza,Que eles não possam rasgar sua pele quente!Minha palavra é irresistível, mais irresistível que o sono,Mais comprometedora que a promessa de um herói!
Então ele pula três vezes sobre a árvore e corre para a floresta, transformado em um lobo.
Pensando bem, isso mais parece uma oração, não é mesmo? Pagã, talvez, mas ainda tem uma estrutura muito similar à uma oração: começa com um relato, aparece um problema e clama-se a uma divindade (nesse caso, a “lua de chifres de ouro”) uma proteção invencível e uma transformação mágica em troca de uma fidelidade igualmente invencível (“mais comprometedora que a promessa de um herói”). Amém.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Silogismos de Carroll
Os silogismos a seguir são parte de um livro-texto de Lewis Carroll sobre lógica. Como Carroll era um cara à frente de seu tempo, eles mais se parecem com peças de arte surrealista do que exemplos sérios de lógica.
1. Bebês são ilógicos;
2. Quem é desprezado não pode controlar um crocodilo;
3. Pessoas ilógicas são desprezadas.
Portanto, Bebês não podem controlar crocodilos.
Na verdade, o que Carroll queria mesmo era demonstrar o ponto fraco da lógica aristotélica: dadas quaisquer premissas, a conclusão será igualmente aleatória.
1. Nenhum poema interessante é impopular entre pessoas de bom-gosto;
2. Nenhuma poesia moderna é livre de afetações;
3. Todos os seus poemas são sobre bolhas de sabão;
4. Nenhuma poesia afetada é popular entre pessoas de bom-gosto;
5. Apenas um poema moderno poderia tratar de bolhas de sabão.
Portanto, todos os seus poemas são desinteressantes.
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domingo, 13 de março de 2011
Black Bart, o assaltante-poeta
Para um fora-da-lei do Velho Oeste, Black Bart era um bocado sensível. Bart, também conhecido como Charles Bolton, foi veterano da Guerra Civil (1861-1865). Seu verdadeiro nome era Charles Earl Bowles (1829-1888?); ele nasceu em Norfolk, na Inglaterra e aos dois anos migrou para os Estados Unidos com a família (os pais e mais 3 irmãs e 7 irmãos).
Depois de se casar, ter quatro filhos, abandonar a família e tentar a vida como minerador durante a Febre do Ouro e participar da Guerra Civil, Bart passou a roubar milhares de dólares das diligências nos anos 1870 e 1880. Suas primeiras vítimas o descreviam por sua polidez — ele evitava palavras de baixo calão e pedia tranquilamente ao cocheiro: “Por favor, desça da boléia.”
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Cruz na Porta da Tabacaria
Não posso dizer se é verdade ou não (não encontrei nada sobre o tal Tom Klaes), mas assim que eu encontrei a estória a seguir, me lembrei imediatamente do poema de Álvaro de Campos:
O maior fumante da Europa morreu em Roterdã e deixou um testamento dos mais curiosos. Ele deixou expresso seu desejo de que todos os fumantes do país deveriam ser convidados para suas exéquias, e que eles fumariam durante todo o cortejo fúnebre. Ele pede que seu corpo seja posto em um caixão montado com madeira tirada de velhas caixas de charutos Havana. Aos seus pés, devem ser depositados tabaco, cigarro e fósforos. E o epitáfio que ele escolheu para ser posto sobre seu túmulo é o seguinte:
Aqui JazTOM KLAES,O Maior Fumante da EuropaEle bateu seu cachimbo4 de julho de 1872Chorado por sua família etodos os mercadores de tabacoESTRANHO, FUMAI POR ELE!– Charles Bombaugh, Facts and Fancies for the Curious From the Harvest-Fields of Literature [Fatos e Firulas para os Curiosos, dos Campos Cultivados da Literatura], 1905
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sábado, 5 de fevereiro de 2011
Ode ao... ao... sujeito cujo nome nunca me lembro
Uma vez — não importa quando,
Nem onde — Viveu um homem,
Um homem chamado — lembrando
agora isso me some.
Ele, bem, ele havia nascido
e vivia com afinco.
Sua idade — eu não sou preciso —
Era alguma coisa e cinco.
Ele viveu — por quanto tempo
Não consigo te dizer;
Mas um fato aparece sem contratempo:
Ele viveu até morrer.
Ele morreu, te digo
Você pode não acreditar,
Mas que ele está num jazigo
Isso eu não posso inventar
Ele teve um filho, juro!
Ouvi falar de uma mulher,
Talvez até outra, te asseguro
Mas, ó vida, não sei dizer!
Fosse ele rico
Ou fosse ele pobre
Ou gato ou rato ou mico
Não consigo dizer, não me cobre!
Não me lembro de seu nome
Nem como era sua aparência
Por favor, tenha paciência!
Vamos nos servir de seu renome.
E assim é que eu me perco
Falando desse homem desconhecido.
Eu derrubaria um cerco
Para salvar esse esquecido
Das sombras do esquecer
E achar alguma lei
Mas... Ah! eu não sei
O quem, o onde, o quando, o que — ou o porquê
MORAL:
Um epílogo vamos ter,
Uma moral devemos encontrar
Mas qual devia ser
Acaba de me escapar!
– William T. Dobson, Literary Frivolities, Fancies, Follies and Frolics [Frivolidades, Fantasias, Tolices e Firulas Literárias], 1880
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