Ao longo do século XIX, vários autores anunciaram, cheios de confiança, que haviam encontrado um valor certo e exato de piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii pi. Infelizmente, houve bastante divergência, pois cada um deu a sua resposta. Buscando resolver de uma vez por todas o problema de π, DUDLEY (1977), matemático da DePauw University, resolveu procurar um consenso através da análise de uma seleção de 50 valores de π ordenados pelo ano do anúncio:
É mais ou menos por aí: 3,04862 < π < 3,200000
Surpreendentemente, Underwood Dudley descobriu uma tendência preocupante: o valor de π está diminuindo. Para encontrar o valor de pi para cada ano, Dudley usou a fórmula πt = 4,59183 – 0,000773t, onde t é o ano do cálculo do valor exato de pi. Fazendo as continhas, verifica-se que 1876 foi o ano com o pico do pi, co’ pi mais exato: 3,145926535. Desde então — admitindo-se um ritmo constante, é claro — o valor de π vem declinando.
Para ser bem claro, isso pode ter consequências estrogonoficamente catastróficas:
Quando πt for igual a 1, [alerta Dudley] a circunferência de um círculo será igual ao seu diâmetro. Assim, todos os círculos vão entrar em colapso. O mesmo ocorrerá com as esferas (uma vez que elas têm secções circulares), entre elas a Terra e o Sol. Será, de fato, o fim do mundo, que vai acontecer em 9 de agosto de 4646, exatos 3 minutos em 27 segundos antes das 9 da manhã.
Entretanto, há uma boa notícia (pelo menos para os seus netos): “Será particularmente fácil calcular circunferências de círculos em 2059, quando πt= 3”. A cotação de π para 2011 é π 2011= 3,032737.
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Bibliografia
DUDLEY, Underwood. “πt”, artigo publicado em Journal of Recreational Mathematics 9:3, março de 1977, p. 178
O pólo norte não é o único. Tampouco o pólo sul. O planeta Terra tem, na verdade, quatro pólos em cada hemisfério. E causa uma bagunça...
Quando se fala em Pólo Norte, a primeira coisa em que você pensa é no lugar onde, segundo a tradição, mora o Papai Noel. Felizmente, para ele, e infelizmente para nós, não existe apenas um único lugar, um único ponto da Terra que possa ser chamado de Pólo Norte.
Ah, o tempo passa, os nomes mudam, mas algumas coisas continuam sempre iguais. Como a fé, o medo do fim-do-mundo e a facécia (a.k.a trollagem):
Um terror pânico do fim do mundo assaltou o bom povo de Leeds e das vizinhanças no ano de 1806, após as seguintes circunstâncias. Uma galinha, em uma vila próxima, botou ovos nos quais estavam inscritas as palavras “Cristo está vindo.” Muitos foram os que visitaram o local e, ao examinar esses ovos maravilhosos, se convenceram de que o dia do julgamento estava ao alcance das mãos. Como marinheiros numa tempestade, à espera do naufrágio, os crentes subitamente tornaram-se religiosos, oravam violentamente, e confessavam-se arrependidos de suas maldades. Mas um mexerico jogou um balde de água fria naquela religiosidade toda. Alguns gentlemen, ao ouvirem a história, saíram numa bela manhã e pegaram a pobre galinha pondo um de seus ovos milagrosos. Eles logo perceberam que, sem sombra de dúvida, os ovos haviam sido inscritos com tinta corrosiva e cruelmente forçados de volta para dentro do corpo da galinha. Com essa explicação, aqueles que oravam agora riam e o mundo continuou balançando tão alegremente quanto nos dias de antanho.
– Edmund Fillingham King, Ten Thousand Wonderful Things [Dez mil maravilhas], 1860
UPDATE (07/02): Após mais uma dose de ceticismo e mais algumas investigações, descobri a identidade do autor dessa trollagem. Bem, na verdade é uma autora — e uma bruxa.
Durante essa semana, todo mundo sobreviveu e nem percebeu. Não, não se trata da sobrevivência pura e simples, aquela da luta diária. Foi uma sobrevivência especial, extraordinária e da qual poucas pessoas se deram conta, apesar das notícias.
Na terça-feira, 30 de março de 2010, nós fizemos uma (ainda pequena) réplica do Big-Bang no Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina do mundo. Às vésperas da páscoa, o renascimento para judeus e cristãos, nós acabamos de sobreviver à criação de um (ou até mais de um) míni-universo-paralelo.
É mais uma data marcada para o fim do mundo. Desta vez, porém, a data teria sido agendada pelo deus cristão através de um código numerológico escondido na bíblia. Pelo menos é o que diz o novo profeta do apocalipse, o pastor Harold Camping, de 88 anos. O sr. Camping declara ser um engenheiro profissional que estuda a bíblia há mais de 70 anos. Segundo ele, cada palavra, cada número da escritura tem um "significado espiritual".
O pastor-engenheiro diz que tem escrutinado a bíblia à procura da data final nos últimos 15 anos. Ao ser questionado por um repórter do San Francisco Chronicle, sobre 2012, a data (supostamente) apontada pelas profecias maias, o sr. Camping explicou: "essa data não tem nenhuma de autoridade bíblica pois é apenas um conto de fadas". Camping está nesse negócio de datas para o fim do mundo já há muito tempo (embora não tanto quanto os maias).
Mais um fim-do-mundo passou. No último dia 10 de setembro, quarta-feira, o LHC foi ligado e, apesar dos temores de muitos analfabetos científicos e misticóides o mundo não acabou [1] - de novo. É sempre a mesma velha história: algum movimento místico/religioso "escolhe" uma data para a chegada do tão aguardado fim-do-mundo. Criam-se expectativas. Parte da mídia, a inútil e semi-analfabeta imprensa marrom faz a festa, por assim dizer, e se aproveita dos mais crédulos. Isso, é claro, quando não criam uma imensa tempestade em copo d'água com algum experimento científico que a maioria simplesmente não compreende. Foi o que aconteceu com o Grande Colisor de Hádrons.
Agora as expectativas se voltam para 2012. Sim, eis o próximo fim-do-mundo! Por quê 2012? Por que foi escolhido pelos místicos, oras! Desta vez é o famoso movimento New Age que profetiza o fim dos tempos. Eles se baseiam agora no calendário de Contagem Longa dos maias. Ou melhor, se baseiam num suposto fim do calendário maia.
Os maias, na verdade, usavam três calendários, todos organizados como hierarquias de ciclos de dias com várias durações. A Contagem Longa era o principal calendário para fins históricos. O Haab era o calendário civil, e o Tzolkin, o religioso. Todos os calendários maias são baseados apenas na contagem serial de dias, ou seja, não são calendários sincronizados ao Sol ou à Lua. Apesar disso, tanto a Longa Contagem quanto o Haab contém ciclos de 360 e 365, respectivamente, valores muito próximos número de dias do ano solar. Por basear-se apenas na contagem dos dias, a Longa Contagem é muito parecida com o sistema de dias julianos e outras representações modernas de datas e tempo. Também é interessante notar que tal calendário conta a partir do zero. Os maias foram o primeiro povo a usar o zero.
Tabela 1 – hierarquias da Longa Contagem Maia
Ciclo
Equivale a
Total de Dias
Anos
(aproximação)
kin
-
1
-
uinal
20 kin
20
-
tun
18 uinal
360
0,986
katun
20 tun
7200
19,7
baktun
20 katun
144.000
394,3
pictun
20 baktun
2.880.000
7.885
calabtun
20 piktun
57.600.000
157.704
kinchiltun
20 calabtun
1.152.000.000
3.154.071
alautun
20 kinchiltun
23.040.000.000
63.081.429
A Longa Contagem é organizada de acordo com a hierarquia de ciclos mostrada na Tabela 1 (acima). Cada ciclo é composto de 20 unidades do ciclo anterior, com exceção do tun, que é composto de 18 uinal de 20 dias cada. Isso resulta num tun de 360 dias, o que é uma boa aproximação com o ano solar, tendo em vista que outros povos antigos, como os romanos, usavam um calendário exclusivamente baseado no ciclo solar, com 360 dias.
Na verdade, os maias acreditavam que ao fim de cada ciclo pictun, equivalente a 7.885 anos, o universo seria destruído e recriado. Esta é a verdadeira profecia maia. Para os que ainda acreditam nisso, tal ciclo só acabará em 12 de outubro de 4772 no calendário gregoriano utilizado atualmente – bastante distante de 2012, não é mesmo? Os místicos da New Age não iriam ganhar dinheiro se escrevessem livros sobre a verdadeira profecia maia – que, muito provavelmente não vai se realizar, assim com também já falharam as diversas previsões sobre os anos 202 (feita pelos cristãos), 500 (cristãos), 1000 (católicos), 1844 (adventistas), 1914 (testemunhas de Jeová), 1925 (testemunhas de Jeová), 1975 (testemunhas de Jeová), 1999 (Nostradamus) e 2000 (quase todo mundo).
Tabela 2 – hierarquias do Calendário Gregoriano
Ciclo
Equivale a
Total de Dias
Anos
dia
1 dia
1
0,0027
mês
28, 29, 30 ou 31 dias
de 28 a 31
0,0833
ano
12 meses
365,25
1
década
10 anos
3652,5
10
século
100 anos
36525
100
milênio
1000 anos
365250
1000
Por outro lado, 2012 vai ser mesmo um ano de mudança no calendário maia e é nisso que se baseiam as presentes previsões místicas. Para os místicos o fim do mundo chegará em 21 de dezembro de 2012. Mas na verdade, se convertermos esta data para o calendário maia de Longa Contagem, obteremos o seguinte resultado: 13.0.0.0.0. Isso significa que esse será apenas o início do 13º ciclo baktun. Se compararmos a hierarquia maia à nossa hierarquia gregoriana (Tabela 2), veremos que um baktun com 394,3 anos, é mais ou menos equivalente ao nosso século. Será apenas o início do século 13 para os maias, enquanto nós já estamos, de acordo com nossa contagem, no século 21. Isso tudo acontece apenas por que são meios diferentes de contar o tempo, que além disso começaram a ser contados em épocas distintas.
Mas, então, por quê 21 de dezembro de 2012 foi escolhido pelos místicos? A resposta é simples e óbvia: superstição. Como vimos, essa data corresponde a 13.0.0.0.0. O que está acontecendo com o pessoal da New Age é o velho medo do número 13. Só isso. E, pior, tem muito charlatão ganhando bastante dinheiro em cima disso[2], vendendo livros que são verdadeiros best-sellers e que nem mesmo se referem à verdadeira profecia maia! Não seja enganado! 2012 vai ser um ano como outro qualquer! Até lá!
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Notas: [1] Na verdade o LHC só foi "testado". Como é uma máquina nova ainda vai ser "amaciado" com novos testes em outubro e novembro. Só vai funcionar em potência máxima em meados de 2009. E já tem gente remarcando o fim do mundo para o ano que vem...
[2] Isso por que esse pessoal da New Age é completamente desapegado aos bem materiais... Imaginem se fossem materialistas...
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Leituras Recomendadas: 1) Sobre o LHC - Eu ia dedicar um post só para o LHC, mas já há um rico material sobre o assunto na internet (que foi criada no CERN):
Sobre os custos: o glúon apresenta uma comparação dos custos do LHC com as despesas de outras megaestruturas.
O quê, como, onde e por quê do LHC está no excelente 100 nexos.
E para aqueles que ainda acreditam que o LHC é a máquina do fim-do-mundo, é melhor passar a ter uma dúvida razoável.