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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Profundidade Superficial (ou Superficialidade Profunda)

Esfera de Ouro (e urna funerária) de Nikola Tesla

Quando você toca uma bola de ouro, toca a superfície de uma esfera e toca ouro. Parece razoável concluir que a superfície é feita de ouro. Mas o cientista da computação Antony Galton, da Universidade de Exeter, lembra que uma superfície é bidimensional e, não tendo espessura ou profundidade, não pode conter qualquer quantidade de ouro (ou qualquer outra coisa).

Então, o que acontece quando você põe o dedo em uma bola dourada? Não se pode dizer que você toca a camada mais exterior dos átomos de ouro, pois isso nos deixaria com duas superfícies (a da esfera e a da matéria que a forma). Por outro lado, não se pode afirmar que a superfície da esfera é uma coisa abstrata, sem existência física — muito menos quando se pode vê-la e pegá-la. Então, o que é uma superfície?

Como se esses questionamentos não fossem bastante superficialmente profundos (e idealmente esféricos), o filósofo e linguísta britânico J. L. Austin (1911-1960) ainda se perguntou: “Onde e o quê é exatamente a superfície de um gato?” Agora tente pensar na superfície de um gato arrepiado...

domingo, 14 de agosto de 2011

O Mistério da Cegueira Homérica


Em 1858, William Ewart Gladstone percebeu algo peculiar em Homero: as cores relatadas em suas obras parecem estranhas demais. Tanto o gado quanto o mar, por exemplo, são descritos como tendo a cor do vinho. As ovelhas são “violetas”, o mel é “verde” e, embora seja descrito como estrelado, amplo, grande, de ferro e de cobre, o céu nunca é azul. Gladstone conjecturou que “o órgão da cor e suas impressões eram apenas parcialmente desenvolvidos entre os gregos do período homérico”.

É uma hipótese bastante interessante, mas é igualmente improvável — afinal, como provar que uma população, quiçá a humanidade inteira foi daltônica em certa época? William Gladstone (1809-1898) pode ter sido facilmente enganado pela noção da Terra jovem, i.e., a teoria de que o planeta (e tudo que nele existe) tem mais ou menos seis mil anos. Mesmo que não fosse criacionista, o futuro premiê do Reino Unido por quatro vezes deve ter pensado que os homens de poucos milênios atrás eram tão primitivos que mal distinguiriam as cores.

sábado, 12 de março de 2011

Você está dentro da Matrix?

matrix tanque

Embora se diga muitas vezes que Matrix é apenas uma releitura high-tech de um antigo pensamento de Platão — o mito da caverna —, a inspiração pode ter sido bem mais recente. Nos anos 70 do século passado, o filósofo libertário Robert Nozick (1938-2002) propôs uma “máquina de experiências”:
Suponha que houvesse uma máquina de experiências que lhe daria qualquer experiência que você desejasse. Superduper neuropsicólogos poderiam estimular seu cérebro de tal forma que você pensaria e se sentiria escrevendo um grande romance, ou fazendo amigos ou lendo um livro interessante. Durante todo aquele tempo, você estaria flutuando em um tanque, com eletrodos ligados ao seu cérebro. Você deveria se plugar nessa máquina pelo resto da vida, reprogramando constantemente suas experiências? Se você teme perder experiências igualmente desejáveis, nós supomos que as empresas desse ramo pesquisaram exaustivamente a vida de muitos indivíduos [antes de fazer suas ofertas]. Você pode apontar e escolher diante de uma ampla biblioteca ou bufê de tais experiências, selecionando suas experiências para, digamos, seus próximos dois anos de vida. Depois de dois anos você terá de dez minutos a dez horas fora do tanque, para selecionar as experiências para os dois anos seguintes. É claro que, enquanto você está dentro do tanque, você não sabe que está lá. Você vai pensar que está realmente acontecendo. [...] Você se plugaria?
— Robert Nozick, Anarchy, State and Utopia [Anarquia, Estado e Utopia], 1974
É incrivelmente semelhante ao filme e talvez até mais assustador, já que sugere, implicitamente, que você pagaria para entrar na máquina e ter suas experiências. Quando Matrix chegou às telonas, surgiram questionamentos bastante fortes contra a recém-criada “realidade virtual”. Havia temores de controle mental do tipo sugerido por Nozick e de que isso arruinaria completamente nossa liberdade, anulando nosso poder de escolha.

Mas me parece que esse tipo de máquina de experiências não precisa ser necessariamente uma tecnologia super-avançada. Na verdade, talvez não precise ser nem uma máquina. A própria vida é bastante parecida: você vive fazendo escolhas e depois passa a se questionar se não está perdendo outras experiências ou oportunidades igualmente interessantes. Então você sempre acaba caindo sob controle de suas relações sociais (primeiro são os seus pais e os seus parentes; depois vêm os seus amigos e os seus amores), as quais te convencem de que você deve fazer algo por que outros já o fazem ou fizeram. Em última instância, você não escolhe nada sozinho, embora goste de acreditar nisso.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Papagaio dos Atures

Em 1800, o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) explorava o Alto Orinoco na Amazônia venezuelana. Foi quando ouviu falar de uma tribo extinta recentemente, os Atures. A língua morrera com o último falante, mas Humboldt ainda pôde ouvi-la: “Naquela parte de nossa viagem, um velho papagaio nos foi apresentado em Maypures [...] e um fato digno de nota é que ‘eles não conseguiam entender o que ele dizia, por que ele falava a língua dos Atures.’”

Maipures, Venezuela

Humboldt tentou, na medida do possível, registrar foneticamente o que pareciam ser 40 palavras faladas pelo papagaio. Quase dois séculos mais tarde, em 1997, a língua Ature teria sido ouvida novamente. A artista Rachel Berwick alega ter ensinado dois papagaios da Amazônia a falar o que Humboldt havia registrado.

Mas há vários motivos para duvidar dessa história. Quando o naturalista alemão fez seu registro, não havia um alfabeto fonético internacional. Mesmo que os papagaios tenham sido treinados de acordo com os escritos de Humboldt, o “vocabulário” que ele registrou pode não ser muito fiel à suposta língua Ature.

Digo suposta língua por que o papagaio apresentado ao cientista alemão pode ter sido simplesmente um truque, uma forma de chamar a atenção e talvez até de obter dinheiro de forasteiros. Humboldt era um grande cientista, mas como ninguém é perfeito, ele pode ter sido enganado.

Para quem quer tirar as próprias conclusões, há uma gravação dos papagaios de Rachel Berwick aqui, mas não me parece muito convincente. 

sábado, 30 de outubro de 2010

Isso é escolha?

Nunca antes na história deste país tivemos uma eleição tão baixa. Ambos os lados acusam-se mutuamente, culpando um ao outro pela baixaria. Parecem incapazes de raciocinar e perceber que isso é que é baixaria. Muito se tem escrito, dentro e até fora do país, sobre o amadurecimento da democracia brasileira. Eu já disse antes do primeiro turno que discordo disso. A voracidade e a pseudo-polarização desta campanha demonstram justamente o contrário. Pois a oposição nunca soube se comportar como tal e o governo nunca deixou de ser politicamente violento, mesmo diante de uma oposição dúbia.

Quando PT e PSDB tiveram que assumir os papéis que lhes cabiam nesse pleito, ambos exageraram na dose, como um ator que não é capaz de mergulhar no personagem. Petistas e tucanos só fizeram mímicas e agiram literalmente como palhaços.

De um lado, volta o discurso da “herança maldita”, da História ignorada e reescrita a cada discurso: “Nunca antes na história deste país...”; que fala dos milhões que tirou da pobreza, mas nada diz sobre os milhões desviados para acabar com a própria pobreza e ainda comprar apoio — tudo em nome da “governabilidade”, coisa que nem os militares inventaram. De outro, uma oposição sempre indecisa e dividida, que ora tenta colar sua imagem na de Lulla, ora parte para o ataque que nunca fez à corrupção institucionalizada desde 2005; que cometeu erros políticos claros ao se fechar em si mesma e ao conduzir um duvidoso processo de escolha dos candidatos à presidência e, principalmente, à vice-presidência.

No meio de tudo isso, surge do nada a questão do aborto, tratada da mesma forma que as demais pelos dois candidatos (que de cândidos não têm nada). Em vez de assumir suas verdadeiras posturas — ambos foram, em diferentes momentos e em maior ou menor grau, favoráveis ao aborto do ponto de vista da saúde pública — e apresentar seus verdadeiros programas de governo, Serra e Dilma passaram a se acusar mutuamente e a correr atrás das bênçãos (e dos votos) de bispos evangélicos e/ou católicos. E quando até o papa se mete na marmelada, eles dizem cinicamente que cada um pensa o que quer, que os bispos não podem se meter na política por que o Brasil é um Estado laico...

Serra e Dilma são tão iguais que precisam insuflar a velha militância violenta e intolerante para se diferenciar. Felizmente, a artilharia não passou de rolos de fita adesiva e balões de água. Mas não seria difícil armar uma guerra civil num país que tem MST, tráfico-Estado e milícias para-militares. Se eles compram até parlamentares, como é que não podem comprar esses criminosos?

Novamente, a democracia brasileira não está amadurecida; está em plena adolescência traumática, ameaçada pelos hormônios do radicalismo e da ignorância política (e até religiosa). Os dois presidenciáveis querem apenas gerenciar por que acham difícil ser estadista e se colocar acima dos próprios partidos e ouvir críticas da oposição. Seja Serra ou Dilma, teremos um Lulla III. Isso é escolha?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Paradoxo da Etiqueta

Este paradoxo foi o @MolaMolera que me apresentou, logo após uma experiência que ele teve na cantina da Faculdade. A situação pela qual ele passou demonstra perfeitamente como as regras de etiqueta não respeitam nenhuma lógica e não são nem mesmo auto-consistentes. O problema é o seguinte: Se você está comendo enquanto o seu suco é servido, você deve agradecer?

Suponha que exatamente no momento em que seu suco é servido, você já está mastigando seu salgado. Nesse caso, como você pode manter a etiqueta? Se você quiser ser gentil, vai ter que dizer "Obrigado" de boca cheia; se quiser ser educado, vai passar por mal-educado, pois não vai abrir a boca para agradecer.

Ok, é uma situação um tanto improvável, já que na maioria dos casos ou o suco e a refeição chegam juntos ou o suco é servido primeiro. Mas ainda assim, é uma situação perfeitamente possível. O salgado já estava pronto e você pediu um suco natural, não um daqueles de garrafinha. A saída mais correta, do ponto de vista social, parece ser falar de boca cheia mesmo. De que adianta manter a pose se isso pode te fazer parecer o oposto do que você deseja?

domingo, 5 de setembro de 2010

Cadê a maturidade democrática que estava aqui?


Esquecendo-se de que a Guerra Fria já acabou e tentando mostrar que há disputa política numa eleição marcada pelo continuísmo, PT e PSDB agem de forma imatura e apelam para o jogo da arapongagem mútua.

domingo, 25 de julho de 2010

Alá é para lá

Decreto fez muçulmanos rezarem virados para lado errado na Indonésia
Ulemás mandaram fiéis rezarem virados para a África por engano. Clérigo afirmou que, apesar do erro geográfico, Alá ouviu orações.
A principal entidade islâmica da Indonésia, o Conselho dos Ulemás, anunciou nesta semana que cometeu um erro em março afirmando que a cidade sagrada de Meca estava a oeste do país.
Isso levou os fieis da maior nação islâmica do país [sic] a orar durante meses virados para o lado errado -olhando em direção à África, não a Meca.
O conselho pediu aos fiéis que mudem de direção em suas preces diárias.
Outro clérigo importante disse que os indonésios não precisam ficar preocupados, pois o erro de cálculo não afeta a habilidade de Alá de ouvir as orações.
Notem que nenhum ulemá reconheceu sua condição humana, admitiu o erro e pediu desculpas. Implicitamente, porém, eles deixaram claro uma heresia na qual todo “infiel” ocidental crê: não faz diferença para onde você ora. Não surpreende que um erro tão grande tenha acontecido. Afinal, líderes religiosos são sempre as pessoas mais desorientadas da sociedade.
Garoto issshperto!

Quando é importante voltar-se para certa direção geográfica, eles não sabem ao certo onde fica e, em vez de admitir isso humildemente, de estudar e encontrar respostas (ou de simplesmente usar o Google), eles apontam uma direção qualquer — e o rebanho vira-se para lá cegamente, certo  de que o líder é infalível (e de que suas cinco orações diárias serão ouvidas). Se eles mal sabem se orientar no sentido físico e concreto da palavra, como podem orientar a vida das pessoas? Que autoridade os ulemás têm, por exemplo, para declarar as mulheres como seres de segunda categoria ou a poligamia como algo aceitável (mas apenas para homens)?

Outras perguntas que todo muçulmano capaz de pensar deveria se fazer depois dessa lição de fé: Se é assim mesmo, se não fez muita diferença orar para o lado errado durante alguns meses, por que não se pode orar para qualquer lado sempre? Por que é que agora os clérigos muçulmanos pedem que seus fiéis mudem de direção na hora de rezar? Se Alá pode ouvir orações de qualquer lugar, por que raios os muçulmanos têm sempre que se voltar para Meca como se a cidade sagrada do mundo islâmico fosse apenas um microfone?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Paradoxo da Chuva de Amanhã


Mas como podemos perceber a mudança da "indefinição" para a "verdade"? Ela é súbita ou gradual? Em que momento a afirmação "vai chover amanhã" começa a ser verdade? Quando a primeira gota cai no solo? E supondo que não chova, quando a afirmação passará a ser falsa? Somente no fim do dia, à meia-noite em ponto? [...] Não sabemos como responder a essas questões. Isso não se deve a nenhuma ignorância em particular ou à estupidez de nossa parte, mas ao fato de que algo dá errado com o modo de uso das palavras "verdade" e "mentira" que são aplicadas aqui.
— F. Waissmann, "Como eu vejo a filosofia", in H.D. Lewis (editor), Contemporary British Philosophy [Filosofia Britânica Contemporânea], 1956.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Paradoxo do Livro sobre a Mesa

Temos aqui um livro sobre a mesa. Abra-o. Observe a primeira página; meça sua espessura. É, aliás, bastante espessa para uma única folha de papel - meia polegada [pouco mais de 1 cm] de espessura. Agora, vá para a segunda página do livro. Quão espessa é essa segunda folha de papel? Um quarto de polegada. E a terceira página, quão espessa será essa terceira folha de papel? Um oitavo de polegada, etc., ad infinitum. Nós devemos supor não apenas que cada página do livro é seguida por um sucessor imediato com metade de sua espessura, mas também — e isso não é irrelevante — que cada página é separada da página 1 por um número finito de outras páginas. Essas duas condições são logicamente compatíveis; não há contradição verificável em sua afirmação conjunta. Mas ambas implicam, mutuamente, que o livro não tem a última página. Feche o livro. Vire-o de cabeça para baixo, apoiando a primeira capa na mesa. Agora, lentamente, levante a quarta capa do livro, e procure expor à vista a pilha de páginas que há sob a capa. Não há nada para ver. Pois não há nenhuma última página no livro para alcançar nossa vista.

— Patrick Hughes e George Brecht, Vicious Circles and Infinity [Ciclos Viciosos e Infinidade], 1978

Ei, se o livro não tem a última página, como pode ter a penúltima? E a antepenúltima? E também, assim por diante, ad infinitum, não sobraria nenhuma página. Será mesmo um livro ou só uma capa solta?

Talvez o erro deste paradoxo seja assumir que as condições iniciais sempre se repetem ad infinitum. Mesmo assim, é o paradoxo mais contraditório que encontrei até agora.

domingo, 21 de março de 2010

A morte de Glauco e a hipocrisia narcótico-religiosa

O assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas e de seu filho, Raoni, no último dia 12 chocou o país. Mas pouca gente parece preocupada com o fato de que a morte de Glauco é mais uma de uma série histórica de assassinatos em nome de deus.  Carlos Eduardo Sundfeld Nunes (Cadu), o assassino, era um fanático toxicômano que se considerava Jesus Cristo e queria provar sua cristandade para a mãe. Ainda que o homicida possa ter cometido o crime sobre efeito de drogas — talvez até a ayahuasca do Santo Daime — isso não tira a religião da história. E a mistura de religião com drogas legais e ilegais é polêmica, mas a religião, mesmo quando usa drogas, é sempre protegida.

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