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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

11111011010 já era!

O último post do ano não poderia ser diferente. É chato, é sinônimo de preguiça de quem faz, mas... todo mundo gosta de uma retrospectiva.

Antes, porém, uma dose de entusiasmo, por favor. Neste ano esse blog deslanchou, explodiu, inflacionou! Foram 278 postagens (um crescimento ultra-chinês: 237,93%), numa base quase diária. Mais ou menos como fizemos em nosso retrospecto do ano passado, aí vai um texto-resumo dos capítulos anteriores:

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A corrida pelo Z

Se você sempre detestou ser o último de uma lista ordenada em ordem alfabética graças à sua graça, saiba que isso pode ser um bom negócio quando se trata de listas telefônicas.

Em 1979, a Time fez uma reportagem na qual informava que Zachary Zzzra havia sido ultrapassado no último lugar da lista telefônica de São Francisco por Zelda Zzzwramp. Ele colocou mais um Z em seu sobrenome, mas aí sim, Zzzra foi surpreendido novamente por Vladmir Zzzzzzabakov.

Para garantir o último lugar na lista telefônica, Mr. Zzzzra foi radical: mudou seu nome para Zzzzzzzzzra.

Evidentemente, Zzzzzzzzzra era um pseudônimo. Mas o verdadeiro Zzzzzzzzzra não era um milionário excêntrico (ou um poeta concretista). Bill Holland era um simples pintor de paredes que dizia a seus clientes para procurar seu número no fim da lista. Intencional ou preguiçosa, a manobra publicitária funcionou, mas a conta telefônica de Holland, como seu nom-de-plume (e esta sentença), se tornou cada vez mais longa, muitas vezes passando dos US$ 400,00 (ou das três linhas, no caso desta sentença).

“Pessoas que fazem ligações ilegais nas cabines telefônicas procuram o último nome do livro e me ligam a cobrar.”, explicou Mr. Z., que não se preocupava nem um pouco com esse pequeno inconveniente: “Eu não pago nenhuma dessas porras.”

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Em uma palavra [33]

Memeroso
adj. 1. O que deve ser retido na memória; forma arcaica de memorável. [do Latim memerosus] 2. Cheio de memes, i.e., cheio de ideias que se espalham através da internet. [de meme, unidade básica de cultura, um r eufônico e -oso, sufixo de plenitude]
Em ambas as acepções, 2010 foi um ano memeroso.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Problema de Molyneaux

Em 1690, após publicar seu Ensaio acerca do Entendimento Humano, John Locke recebeu uma carta entusiasmada de um fã. Mas o autor da carta não era qualquer fã: seu nome era William Molyneux.

William_Molyneux
William Molyneaux (1656-1698): favor não confundir com Isaac Newton.

Apesar do sobrenome, Molyneaux era um renomado “filósofo natural” e político irlandês. Casado com uma mulher cega, o ilustre fã de Locke propôs em sua carta um curioso problema: um cego que recobresse a visão poderia diferenciar, visualmente, formas que só conhecia pelo tato? 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Diferença entre nerd e geek

equilibrium_nash
Clique para ampliar
O Dr. Nash é uma mente brilhante um nerd. O Feynman é geek. As garotas também.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Em uma palavra [32]

Contortuplicar
1. Dobrar-se ou enrolar-se em si mesmo, como um contorcionista; contorcer-se. 2. Por extensão, complicar ainda mais uma situação. "Diante da pressão pública, o acusado contortuplicava seus argumentos." "Para quê dificultar, se podemos contortuplicar?" Contortuplicação, subst. [do Latim Contortuplicatus, por sua vez derivado de contortus, contorcido e plicatus, dobrado]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Problema de base

Em 1996, o matemático do Merrimack College, Machael J. Bradley, estava treinando o time de baseball do seu caçula quando reparou em algo estranho no livro de regras:
A base principal (home base) deverá ser marcada por uma laje de borracha branca de cinco lados. Ela deverá ser um quadrado de 12 polegadas com dois cantos preenchidos, de modo que um dos lados tenha 17 polegadas de comprimento, dois tenham 8 1/2 polegadas e dois de 12 polegadas.
Como a bagunça do sistema de medidas imperial (que ironicamente continua a ser usado na maior “democracia” do mundo) não é o bastante, a linguagem do manual ainda é confusa. Felizmente, não era preciso pedir para desenhar, pois havia uma ilustração:
base

Mesmo assim, Bradley notou, a figura é impossível: “A figura implica a existência de um triângulo retângulo isósceles com lados 12, 12 e 17. Mas (12, 12, 17) não é (bem) uma tríade pitagórica: 122 + 122 = 288; 172 = 289.”

Isso talvez explique a aparente falta de lógica do baseball. É um problema de base.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Verdades Goebbelianas

GOEBBELS
Goebbels: apesar de poderoso, o número 2 da Alemanha Nazi nunca deve ter ido ao dentista.

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, costumava dizer  Joseph Goebbels (1901-1945), o poderoso ministro da Propaganda da Alemanha Nazista. Muita gente se lembra dessa frase, mas — com exceção das publicidades antijudaicas e anticomunistas — pouco se lembra dos absurdos que a propaganda nazista apresentava como verdade:

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Argumentos de Crocodilo

lógica réptil
Aqui está uma curiosa e velha estória que é algo como um puzzle: Um crocodilo rouba um bebê, “no tempo em que os animais falavam” e estava prestes a jantá-lo. A pobre mãe implorou apaixonadamente pela sua criança. “Diga-me uma verdade”, disse o crocodilo, “e tu terás teu bebê de volta”. A mãe pensou bastante e, enfim, disse: “Tu não vais devolvê-lo”. “É essa a verdade que tu queres dizer?”, perguntou o crocodilo. “Sim”, respondeu a mãe. “Então, pelo nosso acordo, eu vou ficar com ele.”, concluiu o crocodilo, acrescentando: “Pois se tu disseste a verdade, eu não vou devolvê-lo e se isso é uma falsidade, então, eu também ganhei.” Ela replicou: “Não, tu estás errado. Se eu disse a verdade, tu deverias cumprir tua promessa; e, se for uma falsidade, não será uma falsidade até depois de tu me dar minha criança.” Agora, perguntamos, quem ganhou?
Pennsylvania School Journal [Jornal Escolar da Pensilvânia], Março de 1887
Moral da História: Nunca discuta com um crocodilo. Especialmente se for por causa de uma criança.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Em uma palavra [31]

E após um considerável interregno, a série mais (in)útil deste blog (e a favorita deste que vos escreve) está de volta! Com mais uma da série: tipos de falantes.

Mendaciloquente
adj. Aquele que conta mentiras, que é habilidoso em mentir. sin. Falsário, cascateiro, patranheiro, ardiloso, trapaceiro, embusteiro. "Votem no Maluf e se ele não for um bom mendaciloquente nunca mais votem em mim!" [do latim mendacium, mentira e -loquente, que fala]

domingo, 12 de dezembro de 2010

A Voz de Shakespeare

Embora no começo do século XVII não existissem meios para gravar o áudio de peças de teatro, ainda hoje é possível ouvir as peças de Shakespeare tal e qual eram pronunciadas quando de sua estreia. A façanha é fruto de estudos do professor Paul Meier, da Universidade do Kansas, e seus alunos de artes cênicas.

Desde outubro, o Prof. Meier trabalha em parceria com o linguista David Crystal para reencenar as peças do bardo de Avon em OP (original pronounce, ou pronúncia original). Essa é a primeira montagem de Shakespeare em OP fora do Reino Unido.

A primeira vez que isso foi feito foi em Cambridge, nos anos 1950, em uma única e especial apresentação. Mais recentes são as duas montagens foram feitas pelo Globe Theather em Londres em 2005, também realizadas com consultoria de David Crystal, autor de Pronouncing Shakespeare.

A peça escolhida pelo professor Meier para ressuscitar o inglês seiscentista é A Midsummer’s Night Dream [Sonhos de uma noite de verão]. Um trecho da peça, em linguagem original e devidamente legendado em inglês, é apresentado no vídeo a seguir:

sábado, 11 de dezembro de 2010

Curriculum Christi

entrevista JC
E não adianta dizer que é “Filho do Dono”!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nomes (im)Próprios

Se você acha que apenas no Brasil poderiam surgir nomes ééééé, digamos, “criativos”, como Valdisnei, Usnavi, Maiquel Géquiçom, Erripóter, Letisgo, Brucili ou até mesmo Urrigrisson, lembre-se de que os americanos sempre podem conseguir fazer coisas melhores (ou piores):
O censo dos Estados Unidos, agora quase completado, trouxe à luz alguns espécimes curiosos de nomes próprios. Um homem de Illinois teve cinco filhos, batizados Imprimis, Finis, Appendix, Addendum e Erratum. Em Smythe Couty, na Virgínia, um certo Mr. Elmadoras Sprinkle deu aos seus dois filhos os nomes Myrtle Ellmore e Onyx Curwen e suas seis filhas são Memphis Tappan, Empress Vandalia, Tatnia Zain, Okeno Molette, Og Wilt e Wintosse Emmah. O grande número de pessoas tratadas por Sprinkle naquele condado se deve a esses extraordinários nomes.
Notes and Queries [Anotações e Consultas], 10 de dezembro de 1870
Sem contar que, como o inglês é uma das línguas que ignoram (quase) completamente as diferenças entre gêneros, não há distinção clara entre nomes masculinos e femininos. Muito menos entre nomes de lugares e de pessoas, o que nos dá resultados mais ou menos comuns como um cara chamado Dakota ou uma garota chamada Sydney! Nomes próprios comuns-de-dois-gêneros começam a ser considerados politicamente corretos por lá (como se todas as diferenças psico-físicas entre meninos e meninas fossem uma obscenidade).

Mas não podemos nos esquecer da verdadeira onda de nomes “exóticos” (por que querer ser “criativo” para aparecer é coisa de pobre) que as celebridades dão aos seus adotados-do-terceiro-mundo ou até mesmo aos próprios rebentos: Maddox Jolie-Pitt; Moon Unit, Diva Thin Muffin, Dweezil e Ahmet (todos do Frank Zappa); Kal-El, o menino do Nicholas Cage; Fifi Trixibelle (filha do Bob Geldof) e, last but not least, Apple Martin Paltrow (filha-fruta de Gwyneth Paltrow e Chris "Coldplay" Martin).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

É dando que se recebe!

Um Católico Romano tinha uma ficha tão longa que decidiu se confessar com o padre para obter uma absolvição. Ele entrou no apartamento do padre e disse: “Padre, eu tenho pecado.”

O padre fê-lo ajoelhar-se diante da cadeira de penitências. O penitente estava olhando à sua volta quando viu o relógio de ouro do padre sobre a mesa, bem a seu alcance. Ele pegou-o e colocou-o no seu paletó. O padre aproximou-se dele e pediu-lhe para contar os crimes que cometera.

“Padre,”, disse o meliante, “eu roubei. O que devo fazer?” “Devolva”, disse o padre, “a coisa que você pegou a seu legítimo dono”. “Fique com ela”, disse o penitente. “Não, eu não vou pegá-la”, disse o padre, “Você deve deixá-la com o dono.” “Mas ele se recusa a recebê-la.” “Se esse é o caso, você pode ficar com ela.”

O padre deu ao homem total absolvição. O penitente levantou-se, beijou-lhe a mão, ouviu sua bênção, fez o sinal da cruz e partiu, com a consciência tranquila e um valioso relógio de ouro no bolso.
 
— Walter Baxendale, Dictionary of Anecdote, Incident, Illustrative Fact [Dicionário de Anedotas, Incidentes e Fatos Ilustrativos], 1888
Se o ladrão arrependido não tivesse , ele provavelmente não cometeria um novo roubo tão cedo. Já se o padre não levasse uma vida tão materialmente confortável (ou tivesse um mínimo de ceticismo), ele jamais seria assaltado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fausto 2.0

Se Goethe vivesse hoje, Fausto conseguiria um contrato mais justo:

fauto 2.0

EULA, xkcd, onde esta sopa de letrinhas vai parar?

domingo, 5 de dezembro de 2010

Conflitos Esquecidos [8] — As Batalhas de Khalkhin Gol


As Batalhas de Khalkhin Gol, também chamadas de Incidente de Nomonhan pelos japoneses, foram uma série de escaramuças entre mongóis — apoiados por forças soviéticas — e o exército de Manchukuo, um Estado-fantoche formado pelo Império do Japão na Manchúria. As batalhas ocorreram entre 11 de maio e 16 de setembro de 1939. Embora tenham ocorrido longe do teatro europeu e tenham começado bem antes da II Guerra, as escaramuças em Khalkhin Gol (Rio Khalkha) mudaram o rumo da História. Por isso mesmo, Khalkhin Gol começa a ser considerada pelos historiadores como as primeiras batalhas da II Guerra.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Como deixar um autor irado

Mude um título genial alegando questões de mercado. Foi o que fizeram com C.P. Smith.

Em 1938, o poeta Chard Powers Smith (1894-1977) levou um semi-acabado romance para a sua editora, a Scribner’s. O texto foi elogiado, mas pediram a Smith que o título fosse mudado, pois pensavam que ele assustaria os leitores. Smith concordou com a mudança e no ano seguinte The Artillery of Time [A Artilharia do Tempo] foi publicado.

O título original do livro de Smith? The Grapes of Wrath [As Vinhas da Ira]. A obra-prima de John Steinbeck apareceu semanas depois da publicação de Artillery of Time.

Smith deve ter ficado irado com seus editores.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uma bolha de otimismo

Economia é uma coisa complicada e imprevisível. Tão complicada e imprevisível que os caras da Weekly Letter [Carta Semanal], a revista da Sociedade Econômica de Harvard, demoraram a perceber a gravidade da crise de 1929. Eis alguns excertos dos números da WL publicados durante o primeiro ano da Grande Depressão:
Uma depressão severa como a de 1920-21 está totalmente fora do alcance da probabilidade. (WL, 16 de novembro, 1929)
Ninguém mais se lembra da crise “severa” de 1920-21. Já a improvável depressão de 1929 era apenas uma recessão genérica:
Com as condições apresentadas, acreditamos que a recessão nos negócios em geral será breve e melhoras devem chegar durante os meses da primavera. (WL, 18 de janeiro, 1930)
E em plena primavera a situação era essa:
Os preços, em geral, estão agora no ponto mais baixo e logo vão melhorar. (WL, 17 de maio, 1930)
No meio do ano,  os economistas de Harvard já percebiam um certo atraso na recuperação da economia. Mesmo assim, o tom de “estamos-com-toda-a-razão” não mudou:
Dado que nossas estruturas monetárias e de crédito são não apenas profundas mas incomumente fortes, há todas as razões para a recuperação que, esperamos, não deverá se atrasar mais. (WL, 30 de agosto, 1930)
Chegou uma hora em que a negação da realidade ficava óbvia. Mas o tom da Weekly Letter passou a ser lacônico e, por isso mesmo, quase autoritário:
[A] recuperação logo será evidente. (WL, 20 de setembro, 1930)
O panorama para o fim do declínio nos negócios é para a primeira parte de 1931 e [...] o renascimento, para o resto do ano. (WL, 15 de novembro, 1930)
Depois disso não houve mais previsões otimistas na Weekly Letter. Por que simplesmente não houve mais Weekly Letter. Engolida pela depressão que negava, a revista dos economistas de Harvard fechou as portas em 1931.

sábado, 27 de novembro de 2010

Espetáculo do crescimento

Suponha que em uma única noite todas as dimensões do universo tornem-se mil vezes maiores. O mundo vai continuar bastante similar a si mesmo, se nós dermos à palavra similar o sentido que ela tem no terceiro livro de Euclides. O que antes tinha um metro de comprimento, agora medirá um quilômetro, e o que tinha um milímetro terá um metro. A cama na qual eu dormi e meu próprio corpo terão crescido na mesma proporção. Quando eu acordar na manhã seguinte, qual será a minha expressão diante de tamanha transformação? Bem, eu não devo notar absolutamente nada. A mais exata medida será incapaz de revelar qualquer coisa dessa tremenda mudança, pois as fitas métricas que eu uso terão variado na mesma e exata proporção dos objetos que eu tentar medir.
— Henri Poincaré, Science and Method, 1908.
Agora imagine se isso aconteça todas as noites, ainda que a uma escala menor. De certa forma, acontece mesmo, já que o universo inteiro está se expandindo. A cada dia, crescendo à velocidade da luz, o universo se torna 25.920.000.000 de quilômetros maior. Só que como ele sempre cresce, essa diferença se torna sempre proporcionalmente menor. Assim, embora o universo cresça a cada dia, nós não percebemos nada por que, apesar de manter sempre o mesmo ritmo, ele cresce cada vez menos.

Agora o mistério é se o mesmo fenômeno ocorre em relação ao crescimento econômico. Se uma economia inteira cresce, como conseguimos avaliar tal crescimento mantendo sempre os mesmos parâmetros? Aliás, parece-me muito mais difícil medir objetivamente o crescimento econômico por que ele é sempre influenciado por vontades políticas e pela própria existência do(s) medidore(s).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Faster-than-light

A pressa é inimiga da perfeição. O entusiasmo, também. Quando a velocidade da luz começou a ser medida, no fim do século XIX, não faltavam comentários entusiásticos nas jovens revistas de divulgação científica, como a francesa La Science Populaire:
A luz cruza o espaço com a prodigiosa velocidade de 6.000 léguas por segundo. (La Science Populaire, Abril de 1881)
Seis mil léguas luminosas? Isso dá cerca de 33.336 km/s, o que é pouco mais de 10% do valor atualmente aceito para a velocidade da luz (299.792 km/s). Obviamente, o erro não estava na velha légua e foi corrigido de maneira mais ou menos poética:
Um erro tipográfico caiu em nosso último número e é importante corrigi-lo: a velocidade da luz é de 76.000 léguas por hora — não 6.000. (LSP, Maio de 1881)
Opa! 76.000 léguas dá 422.256 quilômetros. Não, esse valor 40% acima do que conhecemos hoje não é um erro, por causa da falta de precisão dos equipamentos da época. Além disso, previa-se um valor de c maior do que se foi verificado realmente. Mas há outro erro na errata acima: dessa vez o valor foi apresentado corretamente, mas em léguas por hora!

Isso não passou despercebido e três meses depois, sem muito entusiasmo, a Le Science Populaire finalmente informou o valor correto da velocidade da luz:
Uma nota corrigindo um erro apareceu em nosso número 68 indicava que a velocidade da luz é de 76.000 léguas por hora. Nossos leitores corrigiram esse novo erro: a velocidade da luz é aproximadamente 76.000 léguas por segundo. (LSP, Junho de 1881)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"O que eu digo não pode ser provado"


Suponha que esta afirmativa [acima] possa ser provada. Se pode ser provada, o que ela diz pode ser verdade. Mas ela diz que não pode ser provada. Se assumirmos que podemos provar a afirmação, nós provamos que ela não pode ser provada. Assim, nossa suposição de que ela era provável torna-se errada. Com essa alternativa fechada, vamos tentar a outra possível: vamos supor que a afirmação não pode ser provada. É exatamente isso o que ela diz e o que é verdade, afinal. E isto encerra nossa prova da afirmação acima!

– Gary Hayden and Michael Picard, This Book Does Not Exist [Este Livro Não Existe], 2009

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Em uma palavra [30]

Filosofúnculo
subst. masc. 1. um filósofo menor, insignificante ou desprezível. 2. modo depreciativo de se referir a um filósofo. [do latim philosophunculus]

sábado, 20 de novembro de 2010

Camelos no Velho-Oeste

Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. Os americanos ainda estavam reconhecendo e ocupando os territórios desérticos que haviam acabado de ganhar do México após a Guerra de 1845 quando começaram a faltar cavalos e mulas.

Para resolver o problema, Jefferson Davis, então Secretário de Guerra (e futuro Presidente Confederado),  liberou uma verba de 30.000 dólares para a importação de... camelos e dromedários! Um navio da Marinha foi enviado à África do Norte e voltou em 1856, desembarcando 33 camelos em Indianola, no Texas.

Western alternativo: 'camelboys' e seus camelos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ascensão e Queda de Baldonia

Em 1948, durante uma pescaria com seus amigos no sul da Nova Scotia, Canadá, o empresário americano Russell Arundel teve uma ideia ambiciosa: declarar a independência da pequena ilha conhecida como Outer Bald Tusket. Junto com os seus amigos, Arundel redigiu a Declaração de Independência do Principado de Outer Baldonia:
Os Pescadores são uma raça solitária. Pescadores são dotados dos seguintes direitos inalienáveis: O direito de mentir e ser acreditado. O direito de ser livre de questionamentos, perturbação, barbear-se, interrupção, mulheres, impostos, política, guerra, monólogos, tédio e inibição. O direito ao aplauso, à vanglória, ao elogio insincero, ao louvor e à auto-inflação. O direito de praguejar, mentir, beber, jogar e ficar em silêncio. O direito a ser barulhento, intempestivo, quieto, pensativo, expansivo e hilário. O direito de escolher companhia e de ficar só. O direito de dormir o dia inteiro e passar a noite em claro.
A moeda de Baldonia seria o tunar (trocadilho entre tuna, atum e dollar). Quem pescasse um atum de mais de 150 quilos seria declarado príncipe. A economia seria baseada não na pesca — o esporte nacional — mas na exportação de garrafas vazias de rum e cerveja. A entrada de mulheres em Baldonia foi proibida — exceto por uma visita da ex-secretária de Arundel, Florence McGinnis, declarada princesa.

A independência de Baldonia foi um sucesso imediato, sendo reconhecida por Washington — ou melhor, por uma lista telefônica de Washington. Mas parece que Arundel não tinha o mesmo senso de humor quando estava sóbrio: ele se cansou rapidamente da piada e vendeu a ilha à Nova Scotia Bird Society. Antes disso, porém, ele passou uma noite no "palácio real" e considerou o lugar como algo "ventoso, frio e miserável." Deve ter sido a ressaca.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Nem morta!

Devizes.market.cross

Na Praça do Mercado em Devizes, Wiltshire, Inglaterra, há a seguinte um monumento com a seguinte inscrição:
Na terça-feira, 25 de janeiro de 1753
RUTH PEARCE
de Potterne, neste Condado,
Fez um acordo com três outras mulheres para comprar um Saco de Trigo
no Mercado, cada qual pagando sua devida proporção    
pelo mesmo.
Uma dessas Mulheres, ao coletar as várias quotas    
de Dinheiro, descobriu uma deficiência e exigiu de
RUTH PEARCE a soma que faltava para 
completar o Montante.
RUTH PEARCE protestou que ela já pagara sua Parte,
e disse que gostaria de cair morta se não o
tivesse feito. — Ela imprudentemente repetiu esse terrível desejo; — quando, para a consternação e o terror da multidão
que a cercava, ela caiu instantaneamente e expirou,
com o dinheiro em questão em suas mãos.
Na época, John Clare, encarregado de investigar a morte de Ruth Pearce, acreditou na história e concluiu que ela “caiu morta pela vingança de Deus”. Não seria surpresa se, com a aproximação entre Católicos e Anglicanos, Ruth Pearce virasse a santa padroeira dos mão-de-vaca. Falando sério, Pearce pode ser apenas uma personagem folclórica, coisa que toda cidadezinha tem para atrair turistas.

Devizes é uma tradicional cidade-mercado e os mercadores sempre tiveram grande influência por lá. Assim, a história pode ter sido inventada para assustar os inadimplentes numa época em que não existiam serviços de proteção ao crédito (aka Serasa).

Mesmo que Ruth Pearce tenha sido uma personagem real, a morte dela não tem nada de sobrenatural. Ela simplesmente pode ter tido um enfarte ou uma morte súbita.

sábado, 13 de novembro de 2010

O Colombo do Sul

Em fevereiro de 1820, o caçador de focas norte-americano John Davis navegava a cerca de 50 quilômetros ao sul da Ilha Hoseason, nos Mares do Sul, quando encontrou uma península. Segundo o diário de Davis aquele dia:
Começa com tempo nublado e ventos leves. Às 10 A.M. apareceu uma grande massa de terra na direção SE, perto de nosso barco. Às 11 A.M. mandamos atracar nosso bote para buscar por focas. O bote retornou, mas não havia sinais de focas. Ao meio-dia nossa latitude era 64º01' Sul. A baía era larga e a terra era alta e inteiramente coberta de neve. (...) Eu acho que essa terra do sul deve ser um continente.
A diferença entre Davis e Colombo é que já se suspeitava há muito da existência de um grande continente austral. Quando a Austrália foi descoberta, pensava-se que ela era esse continente perdido ou parte dele.

Davis não foi o primeiro a ver a Antártica, mas foi o primeiro a pôr os pés lá e a reconhecê-la como um continente. Curiosamente, houve um outro John Davis, inglês que no século XVI também era um explorador polar, mas do Ártico.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Efeito Bourne

Em 14 de março de 1887, o norte-americano Ansel Bourne acordou em um quarto desconhecido. Para sua imensa surpresa (e a sua também, leitor), Bourne, que vivia em Rhode Island como pastor evangélico, descobriu que estava em Norristown, Pensilvânia. Lá, ele havia se estabelecido dois meses antes, apresentando-se como A. J. Brown, e abriu uma loja de confecção.

Mister Bourne/Brown foi encontrado por seu sobrinho, que ajudou-o a voltar para Providence, capital de Rhode Island. Psicólogos diagnosticaram nele um dos primeiros casos de fuga dissociativa, múltipla personalidade e amnésia.

Não foi a primeira vez que Bourne perdeu sua identidade (não, não foi o RG). Em 1857-58, ele, que até então era carpinteiro, tornou-se subitamente obcecado com a ideia de visitar uma capela. Depois desse episódio, ele tornou-se o pastor Bourne.

Quase um século depois, em 1980, Robert Ludlum foi inspirado pela história e deu o sobrenome do carpinteiro/pastor/comerciante ao personagem principal de sua trilogia mais bem-sucedida — A Identidade Bourne, A Supremacia Bourne (1986) e O Ultimato Bourne (1990).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Revisão pelos pares

horácio_FAIL
Tem algum erro tipográfico por aí. 50 libras pra quem encontrar.


Não importa o quanto você se dedique a um trabalho perfeito, sempre vai passar algum erro. Os irmãos Foulie que o digam:
Os célebres [irmãos Robert e Andrew] Foulie, [tipógrafos da Universidade] de Glasgow, tentaram publicar uma obra que deveria ser um perfeito exemplar de precisão tipográfica. Todas as precauções foram tomadas para assegurar o resultado desejado. Seis experientes revisores foram empregados e devotavam horas à leitura de cada página. Depois que se pensou que tudo estava perfeito, a obra foi exposta no hall da Universidade, com um aviso de que um prêmio de 50 libras seria pago a qualquer pessoa que descobrisse um erro. Cada página ficou exposta por duas semanas antes de ser impressa e os impressores pensaram ter atingido o objetivo pelo qual lutaram. Quando a obra foi publicada, descobriu-se que vários erros haviam sido cometidos, um dos quais já na primeira linha da primeira página.
– William Keddie, Cyclopædia of Literary and Scientific Anecdote [Enciclopédia de Anedotas Científicas e Literárias], 1854
O livro "imaculado" tão desejada pelos irmãos Foulie era a edição de 1744 das Obras de Horácio — em latim. Apesar do esforço (e de uma forma primitiva de crowdsourcing) foram encontrados pelo menos seis erros tipográficos. Hoje o Horácio dos Foulie é uma verdadeira relíquia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em uma palavra [29]

Presenteísmo
subst. masc. Qualidade ou estado de estar presente, especialmente no trabalho. Oposto de absenteísmo, a partir do qual a palavra foi formada.

Eu acho que uma outra interpretação é possível. Presenteísmo também pode ser a fusão entre presente (tempo) e teísmo, para indicar a atual deificação do tempo presente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

O Menor Parque do Mundo

Fica em Portland, no Oregon:
MEP
Mill Ends Park: mais uma criação de um jornalista entediado... Ô raça!

Com apenas 0,61 cm de diâmetro e 0,29 metro quadrado de área, o Mill Ends Park é 60 milhões de vezes menor que seu vizinho, o Forest Park. O miniparque surgiu no dia de São Patrício de 1948, quando o jornalista Dick Fagan, do Oregon Journal, notou um buraco perto de seu escritório, no meio da South West Front Street.

Fagan dizia que o parque começou depois que ele olhou pela janela de seu escritório e viu um leprechaun cavando um buraco. Ele correu até lá e pegou o leprechaun, o que lhe fez ganhar um pedido. O jornalista disse que queria um parque só para ele. Mas como não disse de que tamanho seria o parque, acabou ganhando o buraco do leprechaun, que se chamava Patrick O’Toole. Dick decidiu plantar flores no buraco e passou a escrever uma coluna semanal sobre o parquinho, que ele descrevia como a “única colônia de leprechauns a oeste da Irlanda.”

Depois da morte de Fagan, em 1969, a população adotou o jardinzinho. Em 1971, o Guiness Book o reconheceu como o menor parque do mundo e a prefeitura oficializou-o como parque municipal em 1976. Desde então, além de ser o lar dos leprechauns, o Mill Ends Park já teve uma piscina para borboletas, uma réplica do prédio do jornal e hoje sedia a corrida anual de caramujos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Conflitos Esquecidos [7] — A Guerra do Sal


Também conhecida como Guerra de Ferrara, foi um conflito iniciado em 1482, envolvendo Ercole I d'Este, duque de Ferrara e as forças pontifícias lideradas pelo arqui-inimigo de Ercole, o Papa Sisto (às vezes Sixto) IV, aliado aos venezianos. Embora não tenha chegado aos campos de batalha (e não sofresse de hipertensão), Sisto IV acabou morrendo por causa da guerra.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Hino Multiuso


Os americanos pensam que a tradicional canção My Country, 'Tis of Thee, a.k.a. America, é um hino patriótico (embora não seja o oficial). Ironicamente, diversos países pensam da mesma forma. A mesma melodia serve como hino nacional (e oficial) da Dinamarca, Suécia, Suíça, Noruega, Liechtenstein — e até para a Rússia! Todos esses países "roubaram" a melodia que os britânicos conhecem como God save the Queen. Para piorar, diversas ex-colônias britânicas mantém a melodia como hino real: Belize, Bahamas, Barbados, Canadá (onde também tem versos em francês), Nova Zelândia, Jamaica...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Menor Maior

O New York Times de 18 de setembro de 1972 informava que um homem chamado Minor W. Major havia participado de uma conferência sobre História em Tarrytown, Nova York. Perguntado sobre a origem de seu nome, Mr. Major contou sua história: 

“Antes da Guerra Civil, uma jovem moça chamada Minor se casou com um jovem moço chamado Major e se tornou Mrs. Major. Ele era um agente confederado e afundou diversas cargas da União no Mississipi. Ele teve um uniforme Ianque para usar em certas épocas e nessas circunstâncias Minor Major, agente confederado, se tornava Major Minor, oficial da União. Eu sou um bisneto do Major que se casou com Miss Minor.”

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Em uma palavra [28]

Vaticídio
subst. masc. assassinato de profeta(s). [do latim, vates, profeta, visionário ou poeta] Vaticida, adj.

Dada a etimologia, há quem diga que vaticídio também deveria indicar o assassinato de poeta(s). Eu acho que nesse caso poderíamos usar vatecídio e vatecida. Ou usar derivados de Bardo: Bardocídio e bardocida (não confundir com "Bar do Cido" ou "Bar da Cida").

domingo, 31 de outubro de 2010

A última ficha

No funeral de Frank Sinatra, seus amigos e parentes foram convidados a deixar objetos de significado especial no caixão dele. Entre esses objetos, estariam:
  • diversos caramelos Tootsie Rolls 
  • um pacote de chiclete Black Jack 
  • um anel com a palavra Dream gravada 
  • uma mini-garrafa de Jack Daniel's 
  • um maço de Camel e um isqueiro Zippo 
  • e... 10 centavos.
Só 10 centavos?? Pra quê?? 

Tina, filha de Sinatra, explicou: "Ele nunca quis ser pego sem poder fazer uma chamada de telefone." Ah, tá. Agora caiu a ficha.

sábado, 30 de outubro de 2010

Isso é escolha?

Nunca antes na história deste país tivemos uma eleição tão baixa. Ambos os lados acusam-se mutuamente, culpando um ao outro pela baixaria. Parecem incapazes de raciocinar e perceber que isso é que é baixaria. Muito se tem escrito, dentro e até fora do país, sobre o amadurecimento da democracia brasileira. Eu já disse antes do primeiro turno que discordo disso. A voracidade e a pseudo-polarização desta campanha demonstram justamente o contrário. Pois a oposição nunca soube se comportar como tal e o governo nunca deixou de ser politicamente violento, mesmo diante de uma oposição dúbia.

Quando PT e PSDB tiveram que assumir os papéis que lhes cabiam nesse pleito, ambos exageraram na dose, como um ator que não é capaz de mergulhar no personagem. Petistas e tucanos só fizeram mímicas e agiram literalmente como palhaços.

De um lado, volta o discurso da “herança maldita”, da História ignorada e reescrita a cada discurso: “Nunca antes na história deste país...”; que fala dos milhões que tirou da pobreza, mas nada diz sobre os milhões desviados para acabar com a própria pobreza e ainda comprar apoio — tudo em nome da “governabilidade”, coisa que nem os militares inventaram. De outro, uma oposição sempre indecisa e dividida, que ora tenta colar sua imagem na de Lulla, ora parte para o ataque que nunca fez à corrupção institucionalizada desde 2005; que cometeu erros políticos claros ao se fechar em si mesma e ao conduzir um duvidoso processo de escolha dos candidatos à presidência e, principalmente, à vice-presidência.

No meio de tudo isso, surge do nada a questão do aborto, tratada da mesma forma que as demais pelos dois candidatos (que de cândidos não têm nada). Em vez de assumir suas verdadeiras posturas — ambos foram, em diferentes momentos e em maior ou menor grau, favoráveis ao aborto do ponto de vista da saúde pública — e apresentar seus verdadeiros programas de governo, Serra e Dilma passaram a se acusar mutuamente e a correr atrás das bênçãos (e dos votos) de bispos evangélicos e/ou católicos. E quando até o papa se mete na marmelada, eles dizem cinicamente que cada um pensa o que quer, que os bispos não podem se meter na política por que o Brasil é um Estado laico...

Serra e Dilma são tão iguais que precisam insuflar a velha militância violenta e intolerante para se diferenciar. Felizmente, a artilharia não passou de rolos de fita adesiva e balões de água. Mas não seria difícil armar uma guerra civil num país que tem MST, tráfico-Estado e milícias para-militares. Se eles compram até parlamentares, como é que não podem comprar esses criminosos?

Novamente, a democracia brasileira não está amadurecida; está em plena adolescência traumática, ameaçada pelos hormônios do radicalismo e da ignorância política (e até religiosa). Os dois presidenciáveis querem apenas gerenciar por que acham difícil ser estadista e se colocar acima dos próprios partidos e ouvir críticas da oposição. Seja Serra ou Dilma, teremos um Lulla III. Isso é escolha?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para um sorriso radiante...

Doramad: para um sorriso radioativo.
Antigamente, até meados do século passado, acreditava-se que a exposição à radiação era benéfica à saúde. Vários produtos radioativos poderiam ser encontrados nas farmácias — até pastas de dentes. Uma das mais famosas e mais longevas foi a marca alemã Doramad, produzida até 1945. A Doramad continha pequenas quantidade de tório, na forma de hidróxido de tório. Eis uma amostra da propaganda da Doramad:
Sua radioatividade aumenta as defesas dos dentes e das gengivas. As células são carregadas com nova energia vital. As bactérias aniquiladas por seu efeito destrutivo. Isso explica a excelente profilaxia e cura de doenças gengivais. O esmalte dentário é gentilmente polido e torna-se branco e brilhante. Uma espuma maravilhosa e um novo, agradável, suave e refrescante sabor.
Além da Doramad, a mesma fabricante ainda oferecia outro "sabor" radioativo: a Radiogen continha rádio. Rezam as lendas que espiões americanos teriam descoberto a importação de tório para a Alemanha durante a ocupação da França. Ao investigar o destino da carga, eles não encontraram os laboratórios da Bomba-A alemã —  em vez disso, acharam a fábrica da Doramad.


doramad
Kit Doramad: O estado da escova — ainda de madeira, em contraste com um "moderno"
dentifrício radioativo — não é muito animador.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Em uma palavra [27]

Deponticação ou depontificação
s.f. Ato de lançar ou jogar algo ou alguém de uma ponte. "Todos viram a deponticação do suicida." "Depontificação de ônibus mata 20 crianças" [formado do latim pons, pontis, ponte por comparação com defenestração] Deponti(fi)car, verbo.

Há quem diga que a primeira forma é correta, tendo em vista que a segunda é claramente formada a partir de pontifex, pontífice (aquele que faz pontes).

domingo, 24 de outubro de 2010

Uma história natural dos 10 mandamentos

Thompson Seton queria provar que os 10 mandamentos "não são um conjunto de regras arbitrárias",
mas a "base do comportamento de todos os animais superiores." Ele não conseguiu.

Pioneiro do escotismo, o naturalista escocês naturalizado americano Ernest Thompson Seton (1860-1946) amava tanto a Deus quanto aos animais. Por isso, em 1907, ele escreveu um livro para provar que, como também são filhos de Deus, os animais também seguem os 10 mandamentos:

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Segredo de Fermat



Certa vez, Marsenne escreveu para Fermat, perguntando se 100.895.598.169 era um número primo ou não.

Fermat respondeu imediatamente, dizendo que aquele número era primo, pois é o produto de dois primos: 898.423 e 112.303.

Até hoje ninguém sabe como ele sabia disso ou como descobriu. Será que Fermat levou para o túmulo uma poderosa técnica de fatoração (ou seria fermatação?) ainda desconhecida?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Em uma palavra [26]

sialoquência ou sialoqüência
subst. fem. ato de espirrar saliva ao falar. "A sialoquência do professor afastava os alunos." [do grego sialo, saliva e do latim loquente, falante] Sialoquente (qüe) ou Sialoquaz, adj.

Isso é típico de quem não pratica a pauciloquência.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mariquinhas

macfam
O nome da menininha é Douglas MacArthur e ela será General durante a II Guerra Mundial.
 
A mãe do General Douglas MacArthur vestia-o com saias, blusas e manteve seus cabelos com cachinhos até ele completar 8 anos. E Franklin Rooselvelt, quatro vezes presidente e chefe de MacArthur, também foi criado com cachinhos até os ombros e saias curtas “pois ele adorava chutar e sentir-se livre para se mover.”

A mãe do poeta Rainier Maria Rilke havia perdido uma filha um ano antes dele nascer. Depois, ela batizou o filho de René Maria, vestia-o como uma garotinha e penteava seus cachinhos até os 5 anos.

“Eu tinha que vestir belos vestidos longos”, declarou Rilke mais tarde, “e até eu começar a ir para a escola eu era quase uma garotinha. Acho que minha mãe brincava comigo como se eu fosse uma grande boneca.”

domingo, 17 de outubro de 2010

O Paradoxo do Cara da TV a Cabo

Bem, você está cansado de ver TV aberta nos fins de semana e tem alguma grana sobrando.  (Digo você por que a parte da grana sobrando não é o meu caso. Mas dizia eu que a paradoxo...) Então você liga para alguma operadora de TV a cabo (ou por satélite, dá no mesmo) e pede a instalação de um ponto em sua casa. Ficou combinado que o Cara da TV a Cabo virá amanhã entre as 8 da manhã e as 4 da tarde. Vamos apostar se ele vem de manhã ou à tarde.

Os dois períodos têm quatro horas de duração, então parece racional tratar as possibilidades como equivalentes, isto é, 50-50%. Mas suponha que você apostou que o Cara da TV a Cabo viria de manhã. No momento em que o relógio passar das 08h00, o período da manhã começará a se esgotar, diminuindo suas chances e tornando a tarde cada vez mais preferível. Assim, o paradoxo é que o seu "eu" atual considera as duas eventualidades como igualmente possíveis, mas para o seu "eu" do futuro isso não é racional, pois as possibilidades são diferentes. Isso afeta a decisão que você toma agora?

sábado, 16 de outubro de 2010

Conflitos Esquecidos [6] — A Batalha de Talas

Representação chinesa da Batalha de Talas

Batalha de Talas (maio-setembro de 751). Apesar do nome, não foi uma batalhas entre exércitos de braços engessados. Confronto entre os árabes do Califado Abássida e os chineses da Dinastia Tang pelo controle do Rio Syr Darya, na Ásia Central. Duzentos mil muçulmanos lutaram contra 10.000 chineses e 20.000 mercenários Karluks. No desenrolar do confronto, os Karluks, mercenários que eram, mudaram de lado e os chineses foram duramente derrotados.

Essa batalha teve duas consequências importantes. A mais imediata foi a islamização da Ásia Central, inclusive da minoria Uigur, que ainda vive na China. Mas mais importante foi a contratação de Sun-Tzu para chefiar o exército chinês. a captura de diversos prisioneiros de guerra chineses pelos árabes. Segundo a historiografia árabe, foram esses chineses cativos que revelaram o processo de fabricação de papel — uma mídia que revolucionaria o mundo islâmico e, mais tarde, a Europa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Declaração de Independência FAIL



O rascunho original da Declaração de Independência dos Estados Unidos poderia ter abolido a escravidão logo após o 4 de julho. Thomas Jefferson denunciava o rei da Inglaterra pelo tráfico de escravos:
Ele [o rei George III] moveu uma guerra contra a própria natureza humana, violando-a em seus mais sagrados direitos de vida & liberdade de pessoas de um povo distante, que jamais o ofenderam, mas que são cativadas e carregadas à escravidão em outro hemisfério, ou condenadas à morte miserável em seu transporte.
Antes de aprovar a Declaração e transformar treze colônias em Estados Unidos, o Congresso Continental resolveu vetar a passagem anti-escravista. O assunto só foi resolvido setenta anos depois e da pior maneira possível: com uma Guerra Civil que quase dissolveu a União.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mais simples do que parece

Para multiplicar 1.639.344.262.295.081.967.213.114.754.098.360.655.-737.704.918.032.787 por 71, tudo o que você deve fazer é colocar outro 1 no começo e outro 7 no final.
— Samuel Isaac Jones, Mathematical Wrinkles [Estrias Matemáticas], 1929
E a lição de casa é deixar um comentário com os números envolvidos na operação escritos por extenso...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Montaigne e a força do hábito


Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.

— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
Estou lendo, ainda que lentamente, Montaigne. À parte sua inevitável linguagem quinhentista e as diversas citações latinas e até gregas, achei Montaigne muito parecido com um blogueiro. Seus escritos foram originalmente criados apenas como uma espécie de diário, de auto-retrato de seu pensamento.

Com uma ampla gama de temas — do hábito de assoar o nariz aos índios da América e à educação das crianças — exemplificados por experiências do autor ou de conhecidos seus, os Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) foram inovadores justamente por sua diversidade e sua brevidade (em relação aos outros textos filosóficos da época). 

Os ensaios começaram a ser escritos em 1572, mas foram publicados pela primeira vez em dois volumes em 1580. Na segunda edição, em 1588, foram feitos inúmeros acréscimos e saiu um terceiro volume. A terceira edição, de 1595, já póstuma foi baseada em rascunhos manuscritos feitos por Montaigne em um exemplar de 1588.

Quanto à filosofia, Montaigne não cria uma escola de pensamento pois não é um moralista ou um doutrinador. Como se nota em seus Ensaios, ele preocupa-se mais em levantar perguntas do que dar respostas ou apresentar as coisas como certas ou erradas. Embora seja cristão, mantém-se cético diante de relatos de milagres, de misticismos e crendices. Igualmente, mostra-se bastante indiferente às divisões religiosas de sua época. Assim, ele pode ser considerado o pai do livre-pensamento moderno.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pergunta Eternamente Inquietante

Em que unidade se mede o fluxo do tempo? Segundos por — o quê??
Isso explica por que o capacitor de fluxo (e a viagem no tempo) ainda não foi inventado. Não sabemos nem como medir a passagem do tempo...

domingo, 10 de outubro de 2010

Sopa de Letrinhas

Qual é uma palavra de quatro letras para outra palavra de quatro letras que tem três letras e ainda tem cinco, enquanto tem oito letras e mais raramente tem nove, mas nunca se escreve com cinco letras?
Vamos ver se vocês advinham. Só vou publicar a solução depois que aparecerem respostas.

sábado, 9 de outubro de 2010

Blasfêmias?

Convenção do PCC e Concílio Católico (abaixo):
semelhanças vão além dos cerimoniais...
...Ambas as instituições se consideram
poderosas, mas adoram se vitimizar ao menor sinal de oposição.

Esta semana foi marcada por assim chamadas "blasfêmias" cometidas pela Comissão do Prêmio Nobel. Na segunda, a Igreja Católica — que tanto diz defender a vida — protestou contra a indicação de Robert Edwards, criador do método de fertilização in-vitro para o Nobel de Medicina/Fisiologia. Em seguida, foi o governo chinês, outra organização obscura, retrógrada (e revelando seu lado religioso) protestou — dessa vez contra a premiação do dissidente pró-democracia, Liu Xiaobo com o Nobel da Paz.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A quem interessar possa...


Ao visitar a França como embaixador das Treze Colônias em 1777, Benjamin Franklin recebia centenas de pedidos de franceses entusiasmados com a Revolução Americana e loucos para lutar pelo exército de Washington. Para não perder tempo respondendo todas as cartas, Franklin fez o que muitas empresas fazem hoje: uma resposta-padrão cheia de enrolação. Mais do que isso, era uma "carta de recomendação de uma pessoa que você não conhece."
Sir — O portador desta, que está indo para a América, pressiona-me por uma carta de recomendação, mesmo que eu não saiba nada sobre ele, nem mesmo seu nome. Isso pode parecer extraordinário, mas eu garanto-lhe que isto não é incomum por aqui. Aliás, às vezes uma pessoa desconhecida traz outra pessoa igualmente desconhecida para recomendar e há vezes em que se recomendam mutuamente! Quanto a este cavalheiro, devo recomendá-lo pelo seu caráter e mérito, os quais ele certamente conhece mais do que eu posso. Eu recomendo-o, entretanto, para aquelas civilidades que todo estrangeiro, do qual não se conhece dano, tem direito a, e peço-lhe que você dê a ele todos os bons ofícios e mostre a ele todo o favor que, ao conhecê-lo, você verá que ele merece. Com a honra de ser, &c.
Evidentemente, é possível que muito francesinho tenha recebido isso achando que fosse um documento legítimo e sério. Como muito cliente que faz alguma reclamação hoje em dia.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Paradoxo da Etiqueta

Este paradoxo foi o @MolaMolera que me apresentou, logo após uma experiência que ele teve na cantina da Faculdade. A situação pela qual ele passou demonstra perfeitamente como as regras de etiqueta não respeitam nenhuma lógica e não são nem mesmo auto-consistentes. O problema é o seguinte: Se você está comendo enquanto o seu suco é servido, você deve agradecer?

Suponha que exatamente no momento em que seu suco é servido, você já está mastigando seu salgado. Nesse caso, como você pode manter a etiqueta? Se você quiser ser gentil, vai ter que dizer "Obrigado" de boca cheia; se quiser ser educado, vai passar por mal-educado, pois não vai abrir a boca para agradecer.

Ok, é uma situação um tanto improvável, já que na maioria dos casos ou o suco e a refeição chegam juntos ou o suco é servido primeiro. Mas ainda assim, é uma situação perfeitamente possível. O salgado já estava pronto e você pediu um suco natural, não um daqueles de garrafinha. A saída mais correta, do ponto de vista social, parece ser falar de boca cheia mesmo. De que adianta manter a pose se isso pode te fazer parecer o oposto do que você deseja?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Em uma palavra [25]

horríssono
adj. relativo a um som assustador e de grande intensidade. "Um grito horríssono vindo do porão chamou a atenção dos vizinhos para o crime."

Crazy Frog

sapoajuda

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eletroterapia intensiva

Mr. Samuel Leffers, do condado de Carteret, na Carolina do Norte, sofria com uma paralisia na face, especialmente nos olhos. Enquanto ele estava andando para sua casa um raio derrubou-o, deixando-o desacordado. Vinte minutos mais tarde, ele voltou a si, mas só conseguiu recobrar seus movimentos à noite. No dia seguinte, ele se encontrava perfeitamente curado e agora era capaz de escrever sem o uso de espetáculos [óculos].
The Cabinet of Curiosities [O Gabinete de Curiosidades], 1824.

Mr. Leffers não sobreviveu: ele pegou no tranco. E cirurgia oftalmológica a laser é para os fracos.

domingo, 3 de outubro de 2010

William Cavendish, o Duque Tímido

Como diz a sabedoria popular, "Apenas os pobres são loucos; os ricos são 'excêntricos'." E o nobre inglês William John Cavendish-Scott-Bentinck (1800-1879) certamente é um desses casos de "excentricidade".

Quando herdou o ducado de Portland, em 1854, Bentinck retirou-se para sua propriedade em Nothinghamshire, onde enfurnou-se na ala oeste e mandou pintar todas as outras salas de pink.

Mas isso era só o começo. Aparentemente, o duque foi dominado por um caso extremo de timidez patológica. William mandou instalar caixas de correio em todas as portas e jamais permitia a entrada de pessoas, muito menos de médicos. Seus empregados nunca deviam perceber sua presença e apenas um mordomo poderia vê-lo em pessoa. Um de seus empregados o reconheceu e o cumprimentou uma vez, mas como havia percebido a presença do patrão, foi imediatamente demitido.

O Duque não saía de casa; ele descia. Cavendish usou centenas de operários para criar um vasto conjunto subterrâneo, também todo pintado de pink, com uma biblioteca, um salão de jogos cheio de mesas de bilhar, um observatório e 15 milhas (24 km) de túneis — um dos quais era largo o bastante para acomodar duas carruagens.

Ninguém sabe o que ele fazia lá embaixo. O salão de dança tinha um elevador hidráulico capaz de carregar até 20 pessoas, mas Mr. Cavendish-Scott-Bentick nunca convidava ninguém para dançar.

Nas raras vezes em que saía, Cavendish o fazia à noite, sempre precedido por um servo que carregava uma lanterna, mas que deveria manter-se 40 jardas à frente de seu senhor. Se fosse necessário sair de dia, o 5º. Duque de Portland escondia-se sobre dois pesados casacos com capuz, uma cartola altíssima, um grande colarinho sempre levantado e um enorme guarda-chuva, atrás do qual ele se abrigava sempre que alguém lhe dirigia a palavra.

sábado, 2 de outubro de 2010

Trava-dedos

Se você não pode falar, nunca vai precisar enrolar a língua com palavras complicadas, como os trava-línguas. Certo? Errado! Como qualquer língua, a linguagem de sinais também tem suas expressões problemáticas.

Um exemplo vem da Linguagem de Sinais Americana, a ASL: dizer "Good blood, bad blood" é tão difícil com as mãos quanto é com a língua.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Prevenção de Suicídios FAIL!

Poderia haver melhor conselho para demover alguém do auto-assassinato?
Se você está pensando em cometer suicídio, assegure-se de tomar o seguinte cuidado: use balas novas. Balas velhas são infestadas com germes que podem infeccionar a ferida e te matar. Se você usar balas novas, pode se recuperar de uma tentativa de suicídio. — Modern Mechanix, Set. 1931
Ah, e se o revólver falhar, lembre-se de esterilizar a faca ou limpar o forno...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em uma palavra [24]

antivitrúvio
[derivado de Vitrúvio, grande arquiteto romano da Antiguidade] subst. 1. aquele que se opõe às ideias de Vitrúvio. 2. aquele que tem prazer em destruir obras e monumentos arquitetônicos. antivitruviano, adj.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Menos é Mais

Mark Twain recebeu certa vez um telegrama de um editor com um pedido:
PRECISO CONTO CURTO, 2 PÁGINAS, DOIS DIAS.
Twain respondeu com outro telegrama:
NÃO POSSO FAZER 2 PÁGINAS DOIS DIAS. POSSO FAZER 30 PÁG 2 DIAS. PRECISO 30 DIAS PARA FAZER 2 PÁG.
O pior é que Twain tem razão. É muito mais fácil exercer a fabulosa arte da prolixidade do que a austeridade vocabular.

domingo, 26 de setembro de 2010

Duas vidas em uma

Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d'Éon de Beaumont, Cavalheiro d'Eon (1728-1810) viveu a primeira metade de sua vida como homem e a segunda como mulher. Até os 49 anos de idade, d'Eon foi soldado e diplomata da França de Luís XV. Ele foi espião du Roi em Londres e em São Petersburgo e lutou durante a Guerra dos Sete Anos — onde foi ferido e condecorado por bravura com a Ordem de São Luís. Depois, disso a coisa foi mais complicada do que pode parecer.
Chevalier_d'Éon
Chevalier d'Éon (1728-1774)

Ele
Logo após a guerra, em 1763, Charles de Beaumont foi ministro plenipotenciário — embaixador temporário — em Londres. Quando o  novo embaixador oficial, o Conde de Guerchy, chegou d'Éon foi rebaixado a secretário. Irritado com o tratamento recebido, Charles escreveu um livro divulgando algumas correspondências diplomáticas. O serviço secreto francês esteve à beira de um escândalo: d´Éon tinha recebido cartas do Rei Luís XV com planos para invadir a Inglaterra que ninguém, nem mesmo o Exército Francês tinha conhecimento. Com os papéis da invasão nas mãos, Beaumont literalmente manteve o rei em xeque e passou a ser bem tratado — ganhando uma vultosa pensão —, mas não pôde voltar para a França.

Ela
Com a morte do rei em 1774, ele tentou voltar para o Continente. Para isso, aproveitou-se de boatos que corriam em Londres a seu respeito e afirmou ser fisicamente uma mulher, pedindo para ser reconhecido(a) como tal. Na época, havia mulheres que buscavam trabalhar sob disfarce para fugir da vida doméstica. A maioria era facilmente descoberta e acabava morta. Surpreendentemente, Luís XVI não só concordou com a nova condição, como ainda financiou um guarda-roupa novinho. E o ex-cavalheiro passou seus últimos anos como uma dama. Genoveva, nome feminino que Beaumont adotou, até se ofereceu para liderar uma divisão de soldadas na Guerra de Independência dos Estados Unidos, mas em vez disso, foi presa por 19 dias.

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Mademoiselle d'Éon (1774-1810)
Mademoiselle d'Éon voltou para a Inglaterra após a Revolução Francesa. Com a pensão cancelada pelo novo governo, vendeu sua biblioteca e passou a  participar de torneios de esgrima para sobreviver. Ela também chegou a assinar um contrato com uma editora para escrever sua autobiografia, mas o livro nunca foi publicado. Ela passou os últimos anos vivendo em companhia de uma viúva, uma certa Mrs. Cole.

Era ou não era?
Pode parecer um interessante caso de hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo. Mas, na autópsia, os médicos descobriram que ela, afinal, era ele mesmo: o corpo de d'Éon era anatomicamente masculino. Estudos mais recentes indicam tratar-se de um caso de síndrome de Kallmann, uma doença hormonal em que o indivíduo cresce, mas não passa pela puberdade.

Hoje também há um revisionismo histórico sobre a figura do Cavalheiro-Mademoiselle. Historiadores LGBT afirmam que d'Éon teria sido um transgênero (travesti) e o favorito do Rei Luís XV. O rei teria sido forçado a exilá-lo em Londres sob o disfarce de ministro diplomático para não se complicar.

sábado, 25 de setembro de 2010

Fulanos

Diversas línguas usam nomes inventados (ou muito comuns) para se referir a alguém cujo nome ou é desconhecido ou não pode ser citado. Eis os parentes estrangeiros de Fulano de Tal:
  • África do Sul: Koos van der Merwe
  • Austrália: Fred Nurk
  • Áustria: Hans Meier
  • Bélgica: Jan Janssen
  • Croácia: Ivan Horvat
  • Estados Unidos: John Doe
  • Eslovênia: Janez Novak
  • Estônia: Jaan Tamm
  • Filipinas: Juan dela Cruz
  • França: Jean Dupont
  • Guatemala: Juan Perez
  • Itália: Mario Rossi
  • Lituânia: Vardenis Pavardenis
  • Malta: Joe Borg
  • Nova Zelândia: Joe Bloggs
  • Rep. Checa: Josef Novák
  • Polônia: Jan Kowalski
  • Romênia: Ion Popescu
Notem que com exceção da África do Sul, da Austrália e da Itália, todos os pseudônimos populares usam equivalentes locais (ou apelidos) de João ou José. O mesmo se dá em português: além de Fulano, nós também usamos Zé-Ninguém.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Multifuncional para a cozinha (1952)

Anúncio encontrado na edição de setembro de 1952 da Collier’s Magazine (via Modern Mechanix):

general_fridge

Naquela época, os anúncios de eletrodomésticos se limitavam apenas a descrever o produto e nem de longe ofendiam sua inteligência com frases de efeito apelativas.
COZINHE e LAVE em seu REFRIGERADOR!
Cozinha completa em 5 pés quadrados [meio metro quadrado??]. Combina refrigerador, pia, três bocas de gás, e gaveta para panelas. Disponível com queimadores elétricos, 220 ou 110V. Também sem pia. 5 anos de garantia.
General Air Conditioning Corp.
Vendas e serviços para todo o país
Para detalhes, onde comprar, escreva: 4530 E. Dunham St. • Los Angeles 23, Calif. Escritório em Chicago: Dept. 6, 323 W. Polk Street
Estranho como algo tão genial simplesmente não pegou. O fato é que as cozinhas americanas sempre tiveram espaço de sobra e pouco depois o microondas e os restaurantes fast-food praticamente matariam o fogão em muitos lares — mas ainda não criaram um combo micro/pia/geladeira que sirva de brinde no McDonald’s...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Em uma palavra [23]

Decemnoverizar
[neolog., do latim, Decem, dez e Novem, nove]  v. 1.  vestir-se como uma pessoa do século XIX ou portar-se de forma vitoriana. 2. fazer cosplay (q.v.) de personagens de romances do século XIX ou de obras steampunk. Decemnoverizado, adj.

domingo, 19 de setembro de 2010

A Incrível Memória do Pinóquio Mecânico

Em 1928, o Instituto Franklin, na Filadélfia, recebeu uma curiosa doação. Era um autômato muito engenhoso, mas de origem e autoria desconhecidas. Movido por molas e guiado por uma série de engrenagens, o homenzinho mecânico era capaz de desenhar sete figuras diferentes e escrever versinhos em inglês e francês. Mas o pequeno menino de lata estava severamente danificado, pois fora encontrado entre os escombros de uma casa incendiada —  e impropriamente vestido como uma boneca.

sábado, 18 de setembro de 2010

Arte Crítica e os Críticos de Arte

Será que um artista pode fundar uma escola de arte mesmo sem querer? Em 1924, irritado com a falta de discernimento dos críticos de arte diante de todo aquele hype modernista, o escritor e jornalista norte-americano Paul Jordan-Smith (1885-1971) convenceu-se de que "os críticos louvariam qualquer coisa ininteligível."

Para provar que estava certo, ele criou o que poderia ser chamado de uma meta-obra-de-arte-crítica. Paul, que jamais havia pintado na vida, pegou umas tintas velhas, uma brocha, uma tela com defeito e, "em poucos minutos espalhei os traços crus de uma selvagem assimétrica segurando o que deveria ser uma estrela-do-mar, mas que saiu como uma casca de banana." Depois, ele mudou seu penteado, apresentou-se como Pavel Jerdanowitch e mostrou a obra "Exaltation" a um grupo de artistas de Nova York. Pavel dizia fazer parte de uma nova escola, chamada Dessombracionismo.

"Exaltation" (1924): Estrela-do-mar FAIL é hype WIN.

Os críticos adoraram o estilo de Jerdanowitch e acabaram fazendo o que Jordan-Smith menos queria: criaram um hype em cima dele.  O pintor polonês (ou checo? ninguém nem se importou em saber quem era o cara) foi considerado um visionário e o dessombracionismo era uma revolução.

"Jerdanowitch", ou melhor, Jordan-Smith, expôs a pintura na galeria do Waldorf Astoria. Durante os dois anos seguintes, ele apareceu com pinturas cada vez mais fora do comum, exibidas em Chicago, Boston e Buffalo (a cidade, não o animal), comentadas e elogiadas até nos jornais de arte de Paris:
Um explorador de espírito inquieto, ele [Jerdanowitch] não se contenta com os caminhos pisados. Ele fez alguns belos retratos, depois alguns trabalhos muito estranhos, simbólicos e originais: Exaltation, Illumination, Admiration. Suas composições bastante pessoais, onde o artista representa coisas pela simbolização de sentimentos de seu próprio ponto de vista, o que o põe entre os melhores artistas do avant-garde com uma fórmula que exclui qualquer banalidade.

— L'Art Contemporain: Livre d'Or [A Arte Contemporânea: O Livro de Ouro] (Éditions De La Revue du Vrai et du Beau, Paris, 1927), pp 85-86

Ele acabou confessando a verdade em uma entrevista para o Los Angeles Times em 1927. E parece que o autor estava certo em sua crítica aos críticos. Mesmo depois de revelar a identidade de Jerdanowtch, Paul Jordan-Smith disse que "a maioria dos críticos da América insistia que, como eu já era um escritor e tinha noção de organização, eu tinha uma habilidade artística, mas era ou ignorante ou arrogante demais para admitir". Depois de enganados, os críticos é que foram ignorantes e arrogantes demais para admitir.
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Em tempo: desde 2006, o Dessombracionismo (ou seria neodissombracionismo?) voltou às telas de pintura em um concurso anual que leva o nome de Pavel Jerdanowitch, mas homenageia Paul Jordan-Smith. Ele deve estar se revirando no túmulo com uma homenagem tão hype.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os Biscoitos de Douglas Adams

O conto a seguir, escrito por Douglas Adams, não chega a ser propriamente um conto. É mais um causo do autor. No entanto, Adams conta uma experiência ao mesmo tempo banal e surreal que teve numa estação de trem — um lugar tipicamente britânico — do mesmo modo mochilesco que narra as (des)venturas de Arthur Dent em sua obra máxima, O Guia do Mochileiro das Galáxias.  

The Salmon of Doubt, a obra de onde foi extraído o já famoso conto/causo, é um livro póstumo que reúne relatos pessoais — como Biscoitos, que inspirou um episódio semelhante em Até Mais e Obrigado Pelos Peixes —, ensaios sobre tecnologia e rascunhos para a continuação de The Long Dark Tea-Time of the Soul [lit., A Longa e Escura Hora do Chá da Alma]. Como muitos fãs, Adams também não se sentia confortável com Praticamente Inofensiva, o quinto e último livro da série Hitchhiker's Guide. Ele achava que a continuação de Dark Tea-Time poderia ser transformada em um sexto e definitivo final para o Guia. Infelizmente, Douglas Adams morreu de ataque cardíaco em 2001, deixando essa história toda com um final totalmente sem graça.
 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O bichano dos anéis

E não, ele não curte O Senhor dos Anéis. Só fez isso por que prefere Crepúsculo.

Em uma palavra [22]

Galericulado
adj. coberto com um chapéu; achapelado. "No século XIX todos os cavalheiros eram elegantemente galericulados."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Paletó Mágico de Oz

Enquanto procurava um figurino para o Professor Marvel d'O Mágico de Oz, o pessoal da MGM encontrou um paletó Prince Albert num brechó de Los Angeles.
oz
Frank Morgan com o paletó mágico de
Frank Baum

Numa tarde, durante as gravações, o ator Frank Morgan virou o bolso do paletó do avesso e descobriu um nome: "L. Frank Baum." Por uma coincidência bizarra, a produção do filme comprara o casaco do próprio autor do Maravilhoso Mágico de Oz, livro que deu origem ao filme.

O cinegrafista Hal Rosson, sua sobrinha Helene Bowman e a publicitária Mary Mayer trabalharam na produção do filme e foram testemunhas dessa história.

No livro The Making of The Wizard of Oz, a Sra. Mayer disse que após a descoberta, “nós telegrafamos e mandamos fotos para o alfaiate, em Chicago. E ele nos mandou de volta uma nota fiscal dizendo que o paletó havia sido feito para Frank Baum. A viúva de Baum também reconheceu o paletó e, após o fim das filmagens, nós o demos de presente a ela. Mas eu nunca consegui fazer ninguém acreditar nessa história.”

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