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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Nomeados mais dois elementos químicos

A IUPAC anunciou ontem que os elementos 114 (Ununquadium) e 116 (Ununhexium) podem ganhar nomes definitivos até o fim do ano. Resultado da colaboração entre o Laboratório Flerov de Reações Nucleares, na Rússia e o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, os novos elementos — descobertos no fim dos anos 1990 e confirmados na década seguinte — deverão ser batizados segundo um acordo de cavalheiros: os russos devem dar nome ao 114 e os americanos vão nomear o 116.

Segundo a série Periodic Videos (em inglês), o elemento 114 deverá homenagear Georgy Nikolayevich Flyorov (em russo: Гео́ргий Никола́евич Флёров, 1913-1990), físico nuclear soviético e fundador do Laboratório que leva seu nome, onde o Ununquadium foi descoberto em 1999. No entanto, dada a dificuldade de transcrição de nomes próprios do russo para línguas ocidentais, ainda não se sabe ao certo como será formado o nome. O mais provável é que seja Flerovium [símbolo: Fl] (Fleróvio, em português) derivado de Flerov, uma forma latinizada de Flyorov.

Embora também tenha sido descoberto no laboratório russo, o elemento 116 deve homenagear o laboratório norte-americano. Seria chamado Livermorium [símbolo: Lv] (ou Livermório). Há controvérsias, porém. Embora o recém-divulgado comunicado da IUPAC afaste essa possibilidade, em março deste ano fontes da imprensa russa disseram que o elemento 116 também seria batizado pelos russos e ganharia o nome de Moscovium [Mo?] (já que o Laboratório Flerov fica no oblast — ou distrito — de Moscou).

Pessoalmente, porém, os dois nomes, se confirmados, me decepcionam. Parecem grandes novidades, mas na verdade são repetitivos. Bastante repetitivos.

O Fleróvio é mais uma homenagem a um laboratório que vem monopolizando a descoberta de elementos nas últimas décadas. Foram descobertos no Laboratório Flerov: o Rutherfórdio (1964), o Nobélio (1966), o Dúbnio (1968), o Seabórgio (1976 e sem dúvida um dos piores nomes da tabela); o Bóhrio (1976; não confundir com Boro) e os caçulas 114/Fleróvio(?) (1999), 116/Livermório/Moscóvio(?) (2001), 113 (2004), 115 (2004), 118 (2006) e 117 (2010). Mas com todo respeito ao cientista nuclear soviético, Moscóvio me soa muito melhor que Fleróvio (ou seria Flyoróvio?). A situação do Livermório também não é muito melhor: o laboratório nacional americano já foi homenageado com um elemento, o Laurêncio

Na verdade, eu bem que gostaria de ver escritores de ficção científica e/ou cientistas populares sendo homenageados. Se os russos quisessem, poderiam batizar o 114 de Asimovium, Asimóvio [As], em homenagem a Isaac Asimov, que embora tenha sido criado nos Estados Unidos era de origem russa (e foi bioquímico no início da carreira). Os americanos, por sua vez, poderiam por o nome de Carl Sagan no elemento 116: Saganium, Sagânio [Sa]. Seria bem geek, pelo menos.

sábado, 26 de novembro de 2011

“Alimentos no Ano 2000”

Em 1894, o Professor (e Químico-Orgânico) francês Marcelin Berthelot publicou um artigo com o título acima na McClure’s Magazine. Seriamente entusiasmado, ele previa um mundo no qual a Química substituiria integralmente a Agricultura como fonte de sustento alimentar dos seres humanos:
Campos de trigo e de milho estão para desaparecer da face da terra porque farinha e carne não serão mais criadas, mas fabricadas. Rebanhos de gado, de ovelhas e de suínos deixarão de ser criados poque o bife, a carne de carneiro e a de porco serão manufaturadas diretamente de seus elementos. Não há dúvidas de que frutas e flores continuarão a ser cultivadas, mas apenas como pequenas luxúrias decorativas e não mais como fontes necessárias de alimento e ornamentação. Não haverá, nos grandes trens aéreos do futuro, vagões de grãos ou gado, pois os elementos fundamentais dos alimentos existirão por toda parte, sem precisar de transporte. O carvão não será mais extraído do solo — com exceção, talvez de transformá-lo em pão ou carne. Os motores das grandes indústrias alimentícias serão movidos não por combustão artificial, mas pelo calor subjacente ao globo.

Em resumo, o que o Prof. Berthelot (1827-1907) previa era que hoje estaríamos nos alimentando de pílulas concentradas com proteínas, gorduras e carboidratos sintetizados em fábricas movidas a energia geotérmica!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os EUA derrotariam Roma?




Essa boa pergunta começou como uma experiência de pensamento no Reddit.com quando um usuário chamado The_Quiet_Earth postou a seguinte questão: “Eu poderia destruir o Império Romano inteiro durante o reinado de Augusto [circa 23 A.E.C.] se eu viajasse no tempo com um moderno batalhão de infantaria da Marinha dos Estados Unidos ou uma MEU?” Pouco depois, o usuário fez alguns esclarecimentos e apresentou um cenário mais preciso:

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Arte Ucrônica

Precisamos admitir: o estudo da História seria muito mais interessante se tivéssemos a participação de mais robôs, aliens e monstros em eventos históricos. Infelizmente, eles não estavam presentes em momentos que mudaram o curso da História, como a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos ou em tragédias como o Grande Incêndio de Chicago.

Mas — e se eles estivessem lá? É essa a pergunta que o artista Matthew Buchholz, de Pittsburg, busca responder. Munido de imagens históricas, vinhetas antigas e Photoshop, ele reimagina eventos históricos com uma pitada de ficção científica. Obviamente, seu foco é a História Americana, mas a ideia não deixa de ser divertida.

Entre outras obras, há Metallo, o Homem Mecânico em um retrato dos presidentes norte-americanos; Metallo participando da assinatura da Declaração de Independência (acima); a derrota do General Frankenstein em Bunker Hill [B. H. foi a primeira derrota na Guerra de Independência dos Estados Unidos]; a posse presidencial de Vilnar, o Destruidor e o dia em que aliens “tomaram os céus em suas Embarcações Voadoras e usaram seu Destructo-Raio”, incendiando Chicago em 1871 (abaixo).

O próprio Buchholz adimite que alguns de seus photoshops são mais bem-feitos que outros. Mas o que vale é a intenção. E se você quiser, pode adquirir algumas dessas obras por meros 20 dólares na loja virtual Alternate Histories, um lugar “onde o passado ganha vida monstruosamente.”

[via: Retro Thing]

domingo, 21 de agosto de 2011

Láadan, a língua das mulheres


Após receber seu Ph.D. em linguística, Suzette Haden Elgin inventou a língua Láadan para um romance de ficção científica. Em termos literários, isso já não é novidade: das línguas élficas de O Senhor dos Anéis ao Klingon de Star Trek, dezenas de idiomas foram inventados na ficção moderna. Mas o que torna a Láadan única é que ela é uma linguagem feminina, por assim dizer. Foi criada especialmente para expressar as percepções das mulheres. Eis alguns vocábulos de Láadan, que, aliás, é autodefinida como a “linguagem da percepção”:

domingo, 17 de julho de 2011

A última canção

Enquanto está sendo desativado (ou morto) em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o computador HAL começa a cantar “Daisy Bell”. É uma cena clássica:


A letra da música é singela:
Daisy, Daisy, give me your answer do,
I’m half crazy, all for the love of you.
It won’t be a stylish marriage–
I can’t afford a carriage–
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle built for two.

De certo modo, isso é uma ironia poética. Durante uma visita ao Bell Labs em 1961, o autor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) havia testemunhado uma apresentação do primeiro computador a cantar. O físico John Kelly (1923-1965) havia programado um IBM 704 para cantar através de um sintetizador de voz. O nome da canção era “Daisy Bell”.

domingo, 20 de março de 2011

“Uma Noite em Atlanta”

Em pleno século XXI, há gente que ainda não leva a Ficção Científica a sério. Em 2004, a pequena editora PublishAmerica desdenhou abertamente da FC, afirmando que jamais publicaria uma obra do gênero por ser uma “editora tradicional” e de alto padrão (o site informava que eram recebidos mais 70 originais por dia, a maioria dos quais era rejeitada). 

Irritada e imbuída do mais puro espírito de trollagem, a “família sci-fi” decidiu dar uma lição na PublishAmerica. Dezenas de autores do gênero colaboraram para criar o pior romance possível apenas para testar o suposto alto padrão editorial da empresa. O resultado foi Atlanta Nights:

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Em uma palavra [23]

Decemnoverizar
[neolog., do latim, Decem, dez e Novem, nove]  v. 1.  vestir-se como uma pessoa do século XIX ou portar-se de forma vitoriana. 2. fazer cosplay (q.v.) de personagens de romances do século XIX ou de obras steampunk. Decemnoverizado, adj.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A história mais incrível da ‘Amazing Stories’

Amazing0647
"O Mistério Shaver: a mais
sensacional história real já
contada."
A pioneira revista de ficção científica Amazing Stories vivia, evidentemente, cheia de estórias incríveis. Mas o escritor Richard Sharpe Shaver insistia em afirmar que tudo o que escrevia era baseado em fatos reais. Entre 1943 e 1948, Shaver e Raymond A. Palmer, editor da revista, publicaram uma série de histórias — os Mistérios de Shaver. Eram contos ambientados em cidades construídas em cavernas, cheias de robôs malignos que seqüestravam seres humanos inocentes. O próprio Shaver afirmava ter sido prisioneiro durante vários anos.

Estranhamente, o resultado foi uma avalanche de cartas com relatos de experiências similares às de Shaver. Uma mulher, por exemplo, dizia ter sido abduzida de um porão em Paris para ser torturada e estuprada antes que bons robôs a salvassem. O "Shaver Mystery Club" [Clube de Mistério Shaver] começou a se espalhar por diversas cidades e a Amazing ganhou cerca de 50.000 novos assinantes.

Não muito tempo depois, as histórias incríveis da vida real e toda a sensação em torno delas foram sendo esquecidas — a nova sensação eram os igualmente misteriosos discos voadores —, mas os clubes de mistério resistiram até o fim dos anos 1950. Shaver dizia que os discos voadores que começavam a ser vistos eram prova da realidade de suas histórias. Apesar do incrível número de novos assinantes, muitos fãs da hard sci-fi da Amazing não gostaram nem um pouco da série, que estaria se afastando demais da realidade plausível.
richard_shaver
Richard Sharpe Shaver (1907-1975):
para muitos, ele é o criador
da mitologia ufológica do pós-guerra.

Tudo parece um grande golpe publicitário à la Guerra dos Mundos de Orson Welles. Mas a realidade pode ser mais estranha que a ficção. Na década de 1970, Shaver foi encontrado internado num hospício, pois sofria de esquizofrenia paranóide e era incapaz de discernir realidade de ficção. As cartas que relatava histórias parecidas eram ou de pessoas muito criativas, que levavam tudo na brincadeira ou, o que é mais provável, de pessoas como Shaver que se sentiram seguras o bastante para relatar seus inimigos imaginários. Mesmo internado, ele continuava afirmando a veracidade de suas histórias e dizia mais: certas rochas seriam livros escritos e ilustrados pelos Atlantes com métodos similares ao laser.

Shaver poderia ter sido um grande autor de Ficção Científica, mas sua imaginação foi longe demais.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dove nessun uomo è mai giunto prima

Io sono un soldato, non un diplomatico. Capiche?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mundo sem Estrelas

Você já precisou usar um GPS ou o Google Maps? Se sim, é bem provável que apesar — ou até por causa — disso, tenha se perdido. Uma falha nas coordenadas do GPS pode parecer um grande problema e pode até causar grandes acidentes. Agora imagine o erro de localização num sistema de teletransporte interestelar... E esse é só o primeiro dos problemas enfrentados pelos personagens em um Mundo sem Estrelas, de Poul Anderson.

Num futuro muito distante, devidamente não especificado pelo autor, a humanidade já se tornou imortal através de uma "vacina antitanática" e estabeleceu contatos com todas as inteligências da Via Láctea. A Terra não tem mais nações; no máximo há uniões continentais. Nosso planeta acaba por se tornar apenas a "Pátria do Homem".

domingo, 1 de agosto de 2010

Contos Traduzidos — Ou o seu dinheiro de volta

Jason Howley e sua caixa-talismã em ação (ou não)

Todo mundo que já fez uma "fezinha" na Mega Sena tem algum tipo de ritual ou talismã — um número favorito, um gesto sempre repetido ou até mesmo as infames cuecas da sorte. Mas e se os talismãs usados por jogadores em cassinos não apenas funcionassem, mas também fossem  gadgets industrializados? Eles deveriam ser proibidos? Ou será que talismãs nunca funcionam realmente e tudo não passaria de um efeito placebo? 

São essas as situações exploradas por David Gordon (1927-1987) no conto "Ou o seu dinheiro de volta", uma mistura interessante de ficção científica e história de tribunal. Tão interessante que chega a surpreender como Hollywood ainda não descobriu esse conto e levou-o às telonas, o que é uma pena. Ou não, já que muitas adaptações cinematográficas de FC são bastante grosseiras.

A seguir, a íntegra do texto de "Ou o seu dinheiro de volta", traduzido e comentado por este que vos escreve.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um ‘Contato’ menos Imediato

Como será o momento mais importante da História da Humanidade — O Contato? Muitos contos e romances de ficção científica já tentaram imaginar. Vez por outra, como agora, em Contatos Imediatos de 4º. Grau, Hollywood retoma o tema. Mas, geralmente, os filmes centram-se mais nos extraterrestres, nos efeitos especiais e em estereótipos: um disco voador, uma abdução, um “leve-me ao seu líder” ou uma invasão-e-destruição da raça humana ou até do planeta Terra.

contact_1Baseado no romance homônimo de Carl Sagan, Contato (Contact, EUA, 1997), apresenta um ponto de vista mais polêmico, mais científico e mais humano. Mesmo ofuscado pelo lançamento de MIB – Homens de Preto, Contato foi considerado um dos melhores filmes de FC de todos os tempos. O filme, dirigido por Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro e Forrest Gump), inovou também no tratamento digital de imagens, na intertextualidade com a TV e com a “atuação” do presidente Bill Clinton. Ok, é claro que o presidente não atuou. Suas aparições são imagens digitalmente manipuladas.

No elenco pra valer, uma convincente Jodie Foster é Ellie Arroway, a cientista que faz o contato e Matthew McConaughey é Palmer Joss, um líder religioso descolado e um tanto irônico, que acaba virando conselheiro espiritual do presidente. A versão cinematográfica é bastante fiel ao livro, exceto talvez pelo final.

Ao longo do filme, que tem quase duas horas e meia de duração, algo pode frustrar os fãs de abduções e discos voadores: nada disso acontece, pelo menos a princípio. Contato começa com a infância de Arroway, volta para o presente, mostra o trabalho de uma radioastrônoma, ensaia um romance entre Ellie e Palmer Joss. O contato que dá título ao filme é feito e confirmado através de radiotelescópios e seguem-se todas as consequências e reações ao contato. Há intenso debate entre os descobridores, os céticos e os líderes religiosos, políticos e militares. Por fim, descobre-se que a mensagem recebida (com surpreendentes imagens de Hitler discursando) traz muitas informações ocultas, inclusive instruções para construir uma espécie de portal interplanetário.

saganNo final do filme, porém, uma suposta viagem interplanetária termina com elementos bastante comuns aos já tradicionais contatos ufológicos: uma experiência intensa, quase espiritual — e difícil de comprovar. Como um bom filme, Contato é menos imediato e mais instigante. O espectador  ganha o benefício da dúvida na escolha do final: houve ou não contato? Se sim, até que ponto o contato foi objetivo? Se não, o que aconteceu realmente? Uma fraude em escala planetária ou uma falha técnica causada por uma tecnologia alienígena e desconhecida?

O final é ambíguo e provocador graças ao autor. Carl Sagan, que ganhou fama mundial à frente dos Programas Viking e Voyager na NASA, era sobretudo um cientista cético, mas que não deixava de admitir possibilidades. Foi ele um dos primeiros a levar a sério o estudo dos fenômenos ufológicos. O filme não chega a ter bordões, mas uma frase recorrente sempre foi atribuída a Sagan: “Se não há vida lá fora, então o Universo é um tremendo desperdício de espaço.” 

Há também uma história por trás do filme, que custou a sair. Na verdade, como havia feito na série de documentários Cosmos (PBS TV, 1980), Sagan pretendia fazer um filme e depois um livro. A ideia de Contato surgiu no começo dos anos 80, mas após comprar o roteiro a Warner fez muitas exigências: incluir o Papa como personagem, dar um filho a Ellie Arroway, inserir mais cenas de efeitos especiais. Sagan, porém, bateu o pé. Ele não queria um blockbuster. Com o roteiro que tinha, lançou Contato, o livro, em 1985. Quatro anos mais tarde, ele começou a trabalhar novamente na versão cinematográfica. Mas a Warner, que só retomou o projeto em 1993, teve dificuldades em arranjar diretores e elenco e o filme só saiu em 1997, seis meses após a morte de Sagan.

Trailer (em inglês):

domingo, 4 de julho de 2010

Contos Traduzidos — "O Dólar de John Jones"


Já faz um bom tempo que eu falei por aqui sobre um estranho escritor chamado Harry Stephen Keeler. Na ocasião, eu havia prometido traduzir e publicar um dos contos dele. Pois bem, como o conto já estava traduzido há um bom tempo, agora é hora de publicá-lo.

Um dos primeiros trabalhos de Keeler, O dólar de John Jones foi publicado originalmente na Amazing Stories em abril de 1927, o que também o torna um dos mais antigos contos de Ficção Científica moderna. O conto começa com um simples depósito de um dólar em uma conta poupança — mas as consequências desse modesto investimento acabam mudando completamente o rumo da história humana. A seguir, o texto completo do conto, enriquecido com notas de tradução.

domingo, 11 de abril de 2010

A cegueira lúcida de Saramago

Em seu Ensaio sobre a Cegueira (Companhia das Letras, 1995), José Saramago  vai fundo na análise do que está por trás dessas coisas que chamamos de “civilização” e “humanidade”. Cegueira nos mostra o  mundo cruel e violento que não vemos — e, pior, que nos negamos a ver. Essa é apenas uma das múltiplas faces da cegueira que o livro nos mostra.

Apesar do título, Ensaio sobre a Cegueira não é uma obra filosófica, embora também possa ser lida dessa forma. A obra trata das consequências de uma inédita epidemia de cegueira. Mas não é uma cegueira comum, ela é “branca”. Os cegos não ficam no escuro; têm a vista constantemente ofuscada, imersa num “mar leitoso”. Por isso, Ensaio também tem um quê de ficção científica, embora não haja  nenhuma explicação para a cegueira repentina e sem qualquer sinal de lesão. Pelo desenrolar da trama, Sobre a Cegueira é uma distopia sobre a condição humana.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tacada Certeira

Em 1892, J. McCullough escreveu um pequeno livro chamado Golf in the Year 2000 [Golfe no Ano 2000]. No livro — que tem um quê de ficção científica da Era Vitoriana — um homem adormece profundamente e acorda num futuro tecnologicamente avançado. A obra de McCullough foi largamente ignorada em sua época e só foi redescoberta às vésperas da virada do Milênio, quando aquele mundo do futuro havia chegado.

Em relação ao próprio golfe, McCollough errou bem feio — ele pensava que teríamos clubes de golfe com placares automáticos, carrinhos sem motorista e jaquetas que gritam "Fore!". Mas o mundo extra-golfe teve uma previsão surpreendentemente precisa:

  • Liberação feminina;
  • Conversão do sistema monetário britânico para a base decimal;
  • Relógios digitais;
  • Trens-bala;
  • Televisão.

Essas previsões não foram feitas literalmente; não havia palavra para “televisão” ou “relógios digitais” numa época em que nem o rádio existia. E a liberação feminina, longe de ser sinal de tendências liberais, é motivada por machismo: só é permitida para que as mulheres trabalhem enquanto os homens jogam (cada vez mais) golfe.

Mais irônico ainda é que ele só tenha “acertado” previsões secundárias. Isso nos faz pensar: Quantos livros ignorados pela crítica e pelo público e despretensiosos em relação ao futuro não estarão certos?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mercados de Futuro

Nos idos de 1986, o Journal of Portfolio Management, jornal americano especializado em economia, publicou um artigo que à primeira vista parecia estranho para um periódico financeiro. O título era "Viagem no tempo é impossível? Uma prova financeira".

No artigo, o economista californiano Marc Reinganum observa que se alguém tivesse uma máquina do tempo, poderia ter uma grande capacidade de manipulação sobre investimentos e mercados de futuro. Tal pessoa poderia usar seu conhecimento dos fatos futuros para acumular lucros imensos.

Reinganum argumenta que se tal coisa acontecesse em larga escala, as taxas de juro acabariam chegando a zero (e isso seria juro real, e não aquele "juro zero" dessas promoções de fim-de-semana). Portanto, o fato de que ainda temos taxas de juro maiores que zero é uma prova de que viajantes do tempo não existem.

Porém, não se pode confiar muito nas previsões de um economista. Mesmo que a economia seja uma ciência exata, isso não garante mais exatidão em previsões futuristas. São famosos os casos de economistas que previam crescimento estável ou mesmo ilimitado às vésperas de uma crise financeira. Foi assim tanto em 1929 quanto em 2008.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Harry Stephen Keeler

Harry Stephen Keeler (1890-1967) foi um contista americano que ganhou notoriedade por suas obras de mistério que geralmente eram consideradas mal-estruturadas e confusas. Por exemplo, em The Ace Spades Murder [O assassinato do ás de espada], ele só apresenta o personagem culpado na antepenúltima página. Em X. Jones of Scotland Yard, ele explica na última página que Napoleão Bonaparte é o acusado.

E seus dons vão além das tramas. Seus personagens tem nomes como Criorcan Mulqueeny, Screamo, the Clown; Scientifico Greenlimb e Foxhart Cubycheck. Ele também criou títulos como Finger, Finger! [Dedo, dedo!], The Yellow Zuri [O Zuri Amarelo], I Killed Lincoln at 10:13! [Eu matei Lincoln às 10h13!] e The Face of The Man from Saturn [A Face do Homem de Sarurno, à dir.]. Mesmo em termos de prosa pura e simples ele parece inteiramente perdido. Eis a tradução de um excerto de The Case of 16 Beans [O caso dos 16 feijões]:
A porta agora se abriu revelando, como deveria, uma estranha figura — um meio-homem, nada menos, sentado numa carroça com rodinhas! — enquadrada contra um pedaço do outro lado do corredor. Mas não era um meio-homem ordinário este, pois ele era um chinês. Aliás, um tanto perneta, até a presença do toco de perna superior. Mas era amplamente dotado de locomoção, do tipo deslizante, de alguma forma, na forma de incomumente generosas rodas emborrachadas sob a plataforma da carroça.
Hoje há até mesmo uma sociedade de apreciadores de sua obra, o que é uma sorte pois a maioria das obras de Keeler estão esgotadas. Em 1942 o New York Times escreveu sobre ele: "Somos levados à inescapável conclusão de que Mr. Keeler escreve suas novelas peculiares meramente para satisfazer sua própria urgência indisciplinada e alegria criativa."

PS: estou traduzindo um interessante conto de Keeler, chamado John Jones' Dollar. Assim que eu terminar, vou publicá-lo, só que em PDF para download (o original tem umas dez páginas e a tradução é sempre um pouco mais longa).

UPDATE (04/07): acabei de publicar o Dólar de John Jones aqui.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Próximas Atrações

O século 21 será bastante agitado e de grande importância histórica se os autores de ficcção científica se mostrarem corretos. Eis algumas previsões:

2015 - Marty McFly e Doc Brown chegam de uma viagem no tempo após terem partido de 1985. (De Volta para o Futuro II).

2022 - Nova York torna-se hiperpovoada, com 40 milhões de habitantes (Soylent Green)

2035 - A Humanidade vive em grandes cidades subterrâneas (Shape of Things to Come, de H. G. Wells)

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