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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Em uma palavra [80]


écdise (éc.di.se)
s.f. a troca de pele pela qual passam alguns insetos, crustáceos ou cobras. [do grego ekdusis, através do inglês ecdysis]

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Apetite Paleontológico

“William Buckland segurando o crânio de uma hiena das cavernas” (1833)


Pioneiro da ciência paleontológica, William Buckland (1784-1856) era um cara no mínimo estranho. Entre outras esquisitices, Mr. Buckland fez a primeira descrição completa de um fóssil de dinossauro, cunhou o termo que designa as fezes fósseis [coprólito, lit. “cocô empedrado”], e não raro fazia seu trabalho de campo usando uma beca — aquela roupa ridícula que só se usa na formatura.

Além de paleontólogo, geologista e doido varrido professor universitário — de Oxford —, o Dr. Buckland também era um exímio caçador. Durante uma de suas caçadas, ele teve a brilhante ideia de comer todos os animais que que conhecia (ou que viesse a conhecer). Quando recebia visitas, o paleontólogo servia panteras, crocodilos, hienas (o que daria outro sentido ao retrato acima) ou até mesmo ratos em seu jantar. Ele dizia que os piores pratos que havia provado foram os feitos com toupeira e mosca-azul (Calliphoria vomitoria). Com esse nome científico, a mosca deve ter sido bem indigesta mesmo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Contra a parede

Isso é o que se pode chamar de uma trollagem romântica:
Uma lady, que ficou lisonjeada após ter seu nome usado para a denominação de uma rosa, mudou de ideia ao ver a descrição da rosa em um catálogo botânico. Contra seu nome, dizia-se: “tímida em uma cama, mas bastante vigorosa contra uma parede.” — Leslie Dunkling, The Guiness Book of Names, 1993

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Tretretretre

Em 1658, o almirante francês Etienne de Flacourt (1607-1660) relatou uma curiosa lenda que descobrira entre os nativos de Madagascar. Eles contavam histórias sobre uma criatura estranha, do tamanho de um bezerro de dois anos, com uma cabeça redonda, pés de macaco, uma cauda curta, muito peluda e orelhas e face que pareciam humanas. Os madagascarenhos malgaxes a chamavam tretretretre.

Como o animal descrito nos contos dos nativos não se parecia com nada existente na fauna de Madagascar, os europeus consideraram o tretretretre como mais uma exótica crendice local. Porém, muito tempo depois, foram descobertos diversos fósseis do que seria uma explicação para o mito. 

Megaladapis m., em uma reconstituição de 1902:
um lêmure de 1,5m e 50kg
Palaeopropithecus ingens: menor, mas com uma face
 mais “humana”
Com um nome científico bem mais fácil de pronunciar, o Megaladapis madagascariensis foi descoberto em 1894. Era uma espécie de lêmure gigante que estaria extinto há milhares de anos. Mas agora os zoologistas pensam que o megalêmure teria vivido pelo menos até meados do século VI, quando os humanos ocuparam a ilha e extinguiram sua megafauna.

Outros, porém, afirmam que o Palaeopropithecus ingens, descoberto em 1899, seria a inspiração por trás da lenda. O Palaeopropithecus era um lêmure um pouco menor que o Megaladapis e com uma face mais “humana”.

Seja como for, tanto o Megaladapis quanto o Palaeopropithecus ainda existiam quando um deles ou ambos passaram ao folclore malgaxe como tretretretre. Há até quem diga que alguns poucos desses animais teriam sobrevivido até meados do século XVI ou XVII, o que faria de Flacourt testemunha (involuntária) do fim de uma espécie e do início de uma lenda.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Peixes-siameses


A ilustração em anexo representa um par de peixes-gato (da espécie Silurus? L.) que foi encontrado vivo em uma rede de camarões na boca do rio Cape Fear, perto de Fort Johnson, Carolina do Norte, em agosto de 1833. Um deles tem três polegadas e meia [8,9 cm] e o outro, duas e meia [6,35 cm] de comprimento, incluindo a cauda. O menor tem uma aparência frágil e doentia. Eles estão ligados pela pele do peito, à maneira dos gêmeos siameses. Essa pele é marcada por uma escura raia na linha de união. Exceto por isso, a pele é igual à da barriga em cor e textura. A boca, as vísceras, &c. estavam perfeitas e intactas em cada peixe [...] Quando esses peixes ganharam vida, é provável que fossem quase do mesmo tamanho e força, mas um, o que “nasceu virado para a Lua” — ou o mais engenhoso — tornou-se o dominante, o que ampliou a disparidade. [Assim, o maior] pôde extender sua boca antes do outro, alcançando e capturando primeiro a melhor comida. Ainda que ele provavelmente odiasse seu companheiro e desejasse o desenlace, o maior acabou protegendo sua “metade mais frágil” e não poderia comê-lo sem engolir a si próprio. — American Journal of Science and Arts [Jornal Americano de Artes e Ciências], Julho de 1834

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Mosca Supersônica de Townsend

O Cheetah (ou Guepardo) pode alcançar velocidades de mais de 70 milhas por hora [112 km/h]. Em um mergulho, o Falcão-Peregrino pode chegar a 200 mph [322 km/h]. Mas, em 1927, o entomologista Charles Townsend (1859-1944) estimou que uma espécie de mosca-varejeira que ele observou no Novo México voaria a 400 jardas [365 metros] por segundo — o que equivale a 818 mph [1316 km/h]. Seria o suficiente não apenas para ultrapassar os dois animais mais velozes mas a própria barreira do som: 1226 km/h.

Por mais incrível que pareça, o suposto recorde de velocidade animal resitiu por longos 11 anos. Só caiu em 1938, quando o químico Irving Langmuir (1881-1957) detonou a estimativa de Townsend em um minucioso artigo publicado na Science. Entre outras coisas mais óbvias, Mr. Langmuir — laureado com o Nobel de Química em 1932 — apontava os seguintes contras para o recorde da varejeira:

sexta-feira, 25 de março de 2011

Senhor Tripé

Não, não é apenas um apelido para um sujeito com algo mais entre as pernas. Francesco Lentini realmente tinha três pernas. Mais bizarro ainda, ele tinha quatro pés — um pé rudimentar saía do joelho da terceira perna  — e dois genitais.
Francesco “Frank” Lentini (1889-1966)
com cerca de 30 anos.

Os médicos afirmaram que não poderiam remover com segurança os membros que sobravam, pois eles estavam ligados à espinha.  Não eram apenas membros parasitas, mas partes de um irmão siamês que não se desenvolveu totalmente.

O menino de três pernas teve uma infância obviamente difícil: seus pais o abandonaram; uma tia tentou criá-lo, mas ele acabou abandonado de novo, desta vez em um abrigo para crianças deficientes. Mais tarde, o jovem Lentini decidiu partir para os Estados Unidos, onde fez carreira em chutando bolas de futebol em números de circo. 

Fora isso, o Homem-Tripé teve uma vida normal: casou-se e teve quatro filhos. Ao morrer, em 1966, aos 77 anos, ele marcou um recorde tão incomum quanto sua condição física. Ainda hoje Francesco Lentini mantém-se como o caso mais longevo de tripedalismo humano.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Papagaio dos Atures

Em 1800, o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) explorava o Alto Orinoco na Amazônia venezuelana. Foi quando ouviu falar de uma tribo extinta recentemente, os Atures. A língua morrera com o último falante, mas Humboldt ainda pôde ouvi-la: “Naquela parte de nossa viagem, um velho papagaio nos foi apresentado em Maypures [...] e um fato digno de nota é que ‘eles não conseguiam entender o que ele dizia, por que ele falava a língua dos Atures.’”

Maipures, Venezuela

Humboldt tentou, na medida do possível, registrar foneticamente o que pareciam ser 40 palavras faladas pelo papagaio. Quase dois séculos mais tarde, em 1997, a língua Ature teria sido ouvida novamente. A artista Rachel Berwick alega ter ensinado dois papagaios da Amazônia a falar o que Humboldt havia registrado.

Mas há vários motivos para duvidar dessa história. Quando o naturalista alemão fez seu registro, não havia um alfabeto fonético internacional. Mesmo que os papagaios tenham sido treinados de acordo com os escritos de Humboldt, o “vocabulário” que ele registrou pode não ser muito fiel à suposta língua Ature.

Digo suposta língua por que o papagaio apresentado ao cientista alemão pode ter sido simplesmente um truque, uma forma de chamar a atenção e talvez até de obter dinheiro de forasteiros. Humboldt era um grande cientista, mas como ninguém é perfeito, ele pode ter sido enganado.

Para quem quer tirar as próprias conclusões, há uma gravação dos papagaios de Rachel Berwick aqui, mas não me parece muito convincente. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os Vermes de Lawrence

Você se lembra do filme O Óleo de Lorenzo, onde os pais, desesperados, começam a estudar e a pesquisar sozinhos uma cura para o filho? O filme era baseado em fatos reais, mas às vezes até a vida gosta de fazer um remake. E assim como em um remake, o final da história pode ser ao mesmo tempo surpreendente e repetitivo.

Conforme relatam em detalhes um artigo da The Scientist e Alyson Muotri em sua coluna no G1, em 2007 os pais de Lawrence, de 13 anos, resolveram procurar um tratamento mais efetivo para o autismo do garoto nova-iorquino. Diagnosticado aos dois anos, o menino tem um quadro grave de autismo. Ele mordia os poucos colegas que tinha e demonstrava muita ansiedade e agitação. Também havia episódios de autoagressividade: ele batia a própria cabeça na parede.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Bebês em Curto

Bebês Isolados Crescem Mais Rápido
Para fazer seu bebê crescer mais rápido, isole seu berço da eletricidade do chão, das paredes e do solo. Para reduzir seu crescimento, aterre seu berço com bandas flexíveis de metal. Esta é a extraordinária conclusão encontrada por M. Vles, de Estraburgo, França, que conduziu experimentos em dois grupos de três bebês. Os que foram isolados cresceram mais rápido do que o trio aterrado, pelo que se presume que a eletrificação do solo e do ar tem uma influência real no crescimento humano.

Modern Mechanix, Abril de 1933

Isso significa que anões são resultado de curto circuito em berços? E como é que alguém pode ter levado a sério um estudo feito apenas com seis bebês em um universo de centenas de milhões???

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Em uma palavra [21]

epifleódico adj. relativo aos líquens que vivem sobre a casca das árvores. "Sua pesquisa estudava a variedade epifleódica na Amazônia." fig. inseparável, grudento, úmido como os líquens. "Agarrava-se ao namorado de forma epifleódica."

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Passa manteiga no câncer

Se você que acha que ainda não tentaram de tudo para curar o câncer:

Câncer Tratado com Manteiga Velha

Manteiga rançosa, ou melhor, a substância chamada ácido butírico formada pelas bactérias em mantega fresca é o mais novo tratamento de câncer relatado na Inglaterra por um famoso cirurgião [quem?].

O ácido da manteiga rançosa não é ingerido ou injetado, mas diretamente aplicado na massa cancerosa. Por alguma razão ainda misteriosa, o ácido butírico consome mais vorazmente os tecidos com câncer do que os tecidos saudáveis que o cercam. Uma dose moderada do ácido pode matar e dissolver todas as células doentes de câncer sem danificar as saudáveis. O rádio ataca o câncer do mesmo modo.


Modern Mechanix, Julho de 1933
Manteiga rançosa aplicada diretamente no câncer... Dá até para imaginar o médico na sala de cirurgia:

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Plantas — Nem geniais, nem vegetais

folha nervura
Nervuras em plantas: estruturas podem ter funções similares às de um sistema nervoso

Novas pesquisas mostram que plantas podem transmitir informações "de folha a folha de uma forma muito similar ao nosso sistema nervoso". Um artigo na BBC News chegou a dizer que plantas "podem pensar e lembrar." Ainda segundo o artigo, as plantas podem usar "informação contida na luz para imunizar-se contra patógenos sazonais."

Plantas não podem pensar ou lembrar. É tentador usar essa descrição para explicar como as plantas funcionam. Elas não têm um sistema nervoso central, muito menos células nervosas. No entanto, como a maioria dos organismos, os vegetais podem sentir o mundo ao seu redor e reagir de forma adequada. De fato, plantas são capazes de reações muito sofisticadas aos olhos comuns, mas que os botânicos já conhecem há séculos.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma injeção de esperança

vacina1

Novamente, surge uma esperança. Na sua edição de hoje, a revista Science publica dois artigos sobre a identificação de anticorpos que combatem o HIV. Os artigos são assinados por cientistas do Centro de Pesquisas de Vacinas (VRC) do NIH (National Institute of Health; Instituto Nacional de Saúde do Governo americano). Essas proteínas são raríssimas e complexas, mas podem ser base para a criação de uma vacina terapêutica nos próximos anos.

Há dois tipos de sistemas imunológicos no corpo humano: o inato e o adaptativo. O inato é natural da pessoa e reage de forma genérica a antígenos muito comuns, como proteínas e açúcares estranhos ao corpo. O sistema adaptativo, como o próprio nome indica, pode se adaptar para reconhecer novos agentes estranhos. Geralmente, as vacinas trabalham no sistema adaptativo, que é "treinado" com elementos atenuados.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Diluviossauros

Um grande asteróide caiu na Terra há 65 milhões de anos e extinguiu os dinossauros? Não dá pra entender por que “Deus” faria isso. Uma explicação melhor é essa:
dinoé
Afinal, esses dinossauros levavam uma vida muito desregrada: eram preguiçosos, viviam de farra, não iam ao templo, não pagavam dízimo e ainda por cima não acreditavam em Deus. Nesse caso, uma extinção até que faz sentido.

Amém!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Você quis dizer...

Ninguém sabe quem fez o índice remissivo do livro The Origin of Human Reason [A Origem da Razão Humana], de George Mivart (1827-1900). Para quem é analfabeto não sabe, um índice remissivo é um índice especial que vem no fim de um livro e apresenta todas as ocorrências (entradas) de um determinado assunto. Tipo um "Google" de papel.

Na página 136 de sua obra, Mivart descreve o que lhe parece ser uma cacatua capaz de responder a perguntas. O indexador — o responsável pelo índice — parece não ter acreditado nessa história e resolveu alertar os leitores pelo único meio que restava: o índice remissivo. 

Estas são as entradas sobre Cacatua no índice remissivo de The Origin of Human Reason:
Absurdo conto sobre uma Cacatua, 136
Anedota absurda sobre uma Cacatua, 136
Bastante absurdo conto sobre uma Cacatua, 136
Cacatua, conto absurdo sobre, 136
Cacatua, citada como Racional, 136
Conto maluco sobre uma Cacatua, 136
Diálogo com uma Cacatua, 136
Incrível conto de uma Cacatua, 136
Inválida Cacatua, conto sobre, 136
Mr. —— e o conto sobre uma Cacatua, 136
Prepóstero conto sobre uma Cacatua, 136
Questões respondidas pela Cacatua, 136
Parece que o indexador trabalhava do mesmo modo que o sistema "você quis dizer..." do Google.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Conto de fadas — A princesa e o sapo

Em dois atos:
conto de fadas
E a princesa morreu, feliz para sempre…

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Pandemia de Pânico

Tá todo mundo em pânico! E só por causa de uma gripe. Uma gripe nova, claro, mas nada além de uma gripe. A gripe comum já mata cerca de meio milhão de pessoas por ano e niguérm se desespera por isso. Talvez por que já haja vacinas prontas. Ou talvez por que a maior parte dos mortos pela “velha” gripe sejam pessoas idosas que ainda se recusam a se vacinar.

A taxa de letalidade da Gripe H1N1 é apenas um pouco maior que a comum. E ela é capaz de afetar – e matar - pessoas jovens por que ainda se trata de um vírus (quase) desconhecido, contra o qual as gerações mais jovens não têm defesa. O H1N1 é basicamente o mesmo vírus que causou a maior epidemia desde a Peste Negra: a Gripe Espanhola, que matou 50 milhões de pessoas em 1918-1919.

h1n1-1918 Gripe Espanhola: Condições precárias foram a causa de tantas mortes.

RELATO DOS FATOS ANTECEDENTES

Porém, é preciso levar em conta o contexto histórico daquela época, pois essa é a verdadeira explicação para tantos mortos. A Europa estava arrasada pelo Primeira Guerra Mundial – cada vez menos lembrada que a Segunda. Os europeus já tinham que lidar com sérios problemas, como o grande número de mortos, o declínio econômico, a agitação social e a consequente instabilidade política. Dentro desse contexto, embora já fosse possível produzir vacinas, isso era ainda mais complicado. Até porque, obviamente,  se sabia muito menos sobre gripe e outras doencças virais do que sabemos hoje. Os vírus estavam sendo descobertos e começavam a ser estudados mais ou menos nessa época. Como é que, então, iam diferenciar o vírus mais comum da nova variante letal, se nem existiam microscópios eletrônicos ou exames genéticos? O DNA só foi descoberto 44 anos depois.

Portanto, a Gripe Espanhola só foi assim tão mortífera porque aconteceu no momento errado e começou a se manifestar no lugar errado. Outras epidemias de gripe do século passado foram bem mais amenas, como a Gripe de Hong Kong em 1968 e a Gripe Russa de 1976-77. Ao contrário do que aconteceu com a economia, que sempre se esquece de suas crises, os epidemiologistas puderam evitar o pior nas epidemias mais recentes por que já sabiam o que tinha dado errado com a Gripe Espanhola. Há, ainda o fator evolutivo por trás de cada epidemia de gripe.

Embora não sejam propriamente seres vivos, os vírus estão sujeitos aos mecanismos da evolução. Afinal, são apenas fragmentos replicantes de código genético. Assim, podem passar por mutações que favoreçam ou dificultem sua reprodução. No começo desta década, tivemos o surto de Gripe Aviária, causada pelo vírus H5N1. Muitos analistas – ou seriam sensaciolistas – previram uma nova catástrofe comparável à Gripe Espanhola.

Talvez fosse até pior. A Gripe das aves surgira no continente asiático, o mais populoso do mundo. Aves migratórias poderiam levar a doença para a América e a Europa. E os novos meios de transporte poderiam atuar como eficientes vetores da nova doença para o mundo todo.

Só que se esqueceram de algo muito simples: aquela gripe tinha um ciclo de infecção sustentável e alta taxa de letalidade apenas entre as aves. Foram registrados poucos casos de contágio de pessoa para pessoa. Menos casos ainda foram registrados fora da Ásia. Pouco mais de 250 pessoas morreram. O cenário apocalíptico foi uma grande decepção para os crentes na proximidade do fim do mundo.

A Gripe Asiática foi um tremendo fiasco justamente por ser muito letal. Tão letal que o H5N1 não teve tempo de “aprender” a se espalhar de pessoa pra pessoa e acabou morrendo junto com seus infectados. É, até os vírus podem agir de forma idiota – aparentemente idiota,  pois não contam com qualquer tipo de consciência.

swineflu “Olá, eu sou o H1N1!”

APOCALIPSE NOW!

Mas tanto os “cavaleiros do apocalipse” quanto os sensacionalistas – boa parte da mídia incluída – se animam quando uma nova epidemia de uma gripe totalmente nova surge no México. Quando a doença cruza a fronteira com os EUA, parece que o fim do mundo está próximo! Os antiamericanistas se rejubilam – silenciosamente, é claro.

Cerca de 2.000 pessoas morrem, e a chamada gripe suína chega ao Brasil via Argentina. Aqui, são cerca de 1.586 infectados e apenas 192 mortes. [fonte]. Mas os constantes esclarecimentos e os dados divulgados pelo governo não podem ser verdade. Eles devem estar escondendo alguma coisa além dos atos secretos. E começam a surgir e a circular e-mails e videos conspiracionistas que prestam um verdadeiro desserviço ao divulgar infomações falsas com o simples propósito de espalhar pânico e medo. 

Com que resultado? Aulas são suspensas, festas são evitadas, viagens são canceladas. Máscaras cirúrgicas –que deveriam ser utilizadas apenas pelos portadores de casos confirmados – se tornam item obrigatório na coleção outono-inverno. Lavar as mãos se torna uma rotina paranóica. As pessoas correm às farmácias em busca de antivirais. Onde foi parar a nossa racionalidade? Por que é tão difícil parar e pensar um pouco durante uma epidemia, seja ela qual for?

A AIDS tem 25 milhões de contaminados e milhões de mortos em 25 anos e as pessoas, principalmente os homens, ainda se recusam a usar preservativo. Mas quando surge uma gripe desconhecida ninguém recusa uma máscara, né? Ano após ano a dengue , doença incurável e sem vacina, que afeta a vida de milhões de brasileiros e até mata alguns milhares, mas ninguém quer se responsabilizar por previni-la, apesar das insistentes campanhas educativas em todas as mídias e nas escolas. Mas é só aparecer uma doença nova – porém facilmente curável – que todo mundo se recobre com os maiores cuidados.

HIGIENE MA NON TROPPO

Não se pode reclamar da higiene do mundo moderno. Felizmente, até as pessoas mais humildes e menos instruídas sabem que sujeira é fonte de doenças. Mas será assim tão seguro lavar as mãos o tempo todo. Se não tivermos contato com um vírus ou um pedaço de vírus que seja, mesmo morto, como vamos desenvolver resistência a eles? Vamos esperar as vacinas ficar prontas? Vamos correr às farmácias ao menor sinal de gripe? E depois, quando surgirem vírus resistentes, o que faremos?

Nova Gripe, Gripe A(H1N1), Gripe Suína, Gripe Mexicana. Qualquer que seja o nome, ela não é nada mais que uma gripe. E como toda a gripe, não vai causar o fim do mundo, vai simplesmente passar. Mantenha as mãos limpas, mas nem tanto. Porque se sujar faz bem. Mantenha-se hidratado, mas nem tanto. Espirre à vontade (Aaaaatchooôuuumm!!!), mas nem tanto. Por que o que mata mesmo são os excessos. E vivemos num mundo cheio de excessos – a começar pelo excesso de pânico.

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