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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Meio Bastardo

De acordo com o matemático Eugene Northrop, entre 1907 e 1921, na Inglaterra, um homem poderia legalmente casar-se com a irmã de sua falecida esposa, mas era ilegal o casamento entre uma mulher e o irmão do falecido marido.

Agora suponha que dois irmãos gêmeos se casem com duas gêmeas. Um marido e uma esposa morrem e, após um intervalo decente, o homem e a mulher que sobreviveram se casam. Para o homem, tal casamento é legal; para a mulher é ilegal. Assim, se eles tiverem um filho, ele será legítimo para o pai e ilegítimo para a mãe.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O mais triste filme d'O Gordo e o Magro

O vídeo a seguir, feito em 1956, mostra as últimas imagens de Stan Laurel, o "Magro" e Oliver Hardy, o "Gordo" - a famosa dupla que fazia os personagens dos clássicos esquetes cômicos.


Mesmo se tratando de um filme caseiro, eu ainda pensei que seria cômico. Mas a idade chegou para os dois - e as cores também. Parece-me que quem fez comédias mudas e em preto-e-branco perde toda a graça em filmes coloridos e com som.

É preciso ter em mente que o que vemos aqui não são “O Gordo e o Magro" e sim os melhores amigos em momentos agradáveis - os homens simples por trás dos personagens geniais.

Ver o "Gordo" assim tão magro e aparentemente saudável numa época em que não havia tanta preocupação com a saúde e também não existiam nem dietas milagrosas vendidas pela TV nem lipoaspiração é bastante irônico. Mais irônico ainda é saber que mesmo assim ele morreu de derrame um ano depois. Outra ironia é que o "Magro", embora tenha vivido mais, morreu de infarto, coisa mais comum entre os gordos.

O mais imperdoável para mim é que, apesar da fama e do sucesso, eles jamais foram devidamente recompensados em vida - eles não se tornaram milionários pois, curiosamente, não detinham os direitos sobre os curtas que fizeram.

Se bem que, pelo visto, eles foram capazes de manter-se felizes e unidos até o fim, mesmo sem as glórias e as riquezas de Hollywood. Uma verdadeira lição nestes tempos de hoje, em que todos querem ser celebridades sem muito esforço e esbanjar riquezas que se evaporam rapidamente.

Vi vídeo no Saber é bom demais, que o achou no Metamorfose Digital.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Brasileiros descobrem o elemento químico mais pesado

Os Institutos de Química e Física da Universidade de Brasília (UnB) acabam de anunciar a sua mais importante descoberta. Os cientistas brasilienses descobriram no Distrito Federal o elemento químico mais pesado que se conhece.
O novo elemento, chamado Governônio (Gv), tem uma complexa e inédita estrutura nuclear: um nêutron-alcóolatra, 38 nêutrons-ministros, 81 nêutrons-senadores e 513 nêutrons-deputados, somando uma incrível massa atômica 634 unidades atômicas.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Precisa-se de Cidadãos-Torcedores

Até agora, em 14 rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol, 11 técnicos — um time inteiro de treinadores — foram demitidos; quase 1 a cada rodada. Os motivos são quase sempre os mesmos: uma série de derrotas, a “pressão” dos torcedores, além de diversas razões de ordem “política”: incompatibilidade de egos, exigências de salários elevados e caros reforços por parte dos treinadores; divergências  entre cartolas e técnicos sobre a escalação do time e o tratamento diferenciado  — protecionismo mesmo — recebido por certos jogadores, principalmente os grandes astros ou as revelações do clube. Daí para um quadro de desunião do time e tensões entre os futebolistas, o técnico e a diretoria é um pulo.

Tudo isso independe do clube; é parte de uma “cultura” existente na gestão do velho esporte bretão. O técnico é sempre o único culpado de tudo e sua cabeça é pedida pelos torcedores mais fanáticos e impacientes que se esquecem logo dos bons trabalhos e resultados alcançados pelo time sob o comando do técnico — mesmo que o treinador esteja entre os melhores do país ou até do mundo.

O que mais surpreende, porém, é ver muita gente se engajando e pressionando os seus clubes quando estes apresentam maus resultados. Muitas vezes, é verdade, as ações de protesto beiram a violência. Mas é essa agressividade toda — e não necessariamente o número de torcedores protestantes — que leva os cartolas dos clubes a degolar o cabeça da equipe de futebol. Toda essa mobilização rápida e (quase) espontânea dos torcedores contrasta fortemente com a apatia e a indiferença do cidadão comum em relação aos sucessivos (e aparentemente infindáveis) escândalos políticos em todas as esferas da administração pública.

vasco2(1)Ao menor sinal de crise num clube, os torcedores protestam, chamam a atenção da imprensa e conseguem o que querem: um novo técnico ou mais reforços. Por que não fazemos o mesmo em relação ao governo, que pode nos prejudicar muito mais do que um time de futebol perdedor?

É patente a falta de indignação da sociedade brasileira diante de suas mazelas e dos desmandos de seus líderes. Em caso de escândalo, os políticos parecem seguir uma cartilha básica diante do público: (1) declaram apenas que não sabem de nada ou que não se deve fazer acusações precipitadas, mesmo diante de provas contundentes e amplamente divulgadas pela imprensa. Eles — que foram eleitos pelo povo para trabalhar para o povo — chegam  (2)até ao disparate de declarar que estão se lixando para a opinião pública. Depois, buscam (3) pôr a culpa pelos próprios crimes na imprensa — que apenas cumpre seu papel indispensável ao sistema democrático —, e, por fim, (4) criam fantasiosos cenários de perseguição política, como se não pudesse haver debate político ou ações de oposição ao governo. É a clássica técnica de dizer que “é tudo intriga da oposição”, uma frase tão batida que já saiu do jargão político e virou até bordão popular.

A inércia política do brasileiro também é creditada à nossa formação cultural e política. Sempre houve pouca ou nenhuma participação popular nos momentos decisivos da nossa História. A Independência foi proclamada por um Príncipe-regente que tratou logo de clamar para si o trono de um Império inventado por ele mesmo. Em seguida, a República foi proclamada pelos um general monarquista que recebeu apoio dos grandes latifundiários insatisfeitos com a Abolição. O movimento abolicionista, aliás, foi um dos poucos exemplos de mobilização política da população brasileira. Outras exceções notáveis são as várias correntes de oposição ao Regime Militar instalado em 1964. Fomos das pequenas guerrilhas infrutíferas no meio da Floresta Amazônica para um movimento mais unificado, urbano e pacífico, intenso e nem um pouco desprezível: as greves industriais do fim dos anos ’70 e as Diretas Já! do começo da década seguinte mobilizaram milhões de brasileiros por todo o país. Pouco depois, parecia que nós tínhamos aprendido a lição quando pintamos a cara para pedir a saída do presidente Collor – exatamente como se ele fosse o técnico de um país que vivia perdendo para os times da inflação e da corrupção.

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Onde foi parar a geração Cara-Pintada? Porque nos calamos depois de duras lutas para conquistar a liberdade de expressão?

 

 

Parecia, porque, dois anos depois do Movimento Cara-Pintada, não houve qualquer reação popular ao escândalo dos “Anões do Orçamento” (alguém se lembra disso?). A mesma falta de ação popular caracterizou todos os escândalos que se seguiram: a nebulosa aprovação da reeleição, a violação do painel do Senado, as diversas CPIs, entre as quais até mesmo uma que apurou a corrupção no futebol (mas, como a maioria das outras Comissões, não resolveu nada e não puniu ninguém).

Houve muita esperança quando da eleição de Luís Inácio Lula da Silva, mas nada além disso. Os escândalos não acabaram com a chegada ao poder de um partido que sempre fez forte defesa da ética na política quando era líder de uma oposição mais atuante, embora mais radical. Quem antes estava no poder e passou a ser oposição ou calou-se ou vendeu-se.

E aí veio o mais grave escândalo político desde do governo Collor: o mensalão. Mobilização popular? Nenhuma! Punição aos envolvidos? Nenhuma também. Apesar de tudo isso, um presidente que se opunha à reeleição foi alegremente reeleito. E os escândalos continuam, com as velhas raposas de sempre, por que renovação política também não existe. Nem dentro dos partidos nem entre os eleitores, que acabam sempre com as mesmas escolhas e com a mesma justificativa: “os políticos são todos iguais e nós não podemos mudar nada.”

Uma observação interessante que podemos fazer é que, nos períodos em que o nosso futebol está em alta, a mobilização popular desaparece completamente. Os indignados protestantes políticos convertem-se, como que por mágica, em torcedores ufanistas (“Eu sou brasileirooo, com muito orgulhoooo, com muito amooor!…”). Foi assim em 1970, para a alegria dos militares, que fizeram de tudo para exaltar a Seleção tricampeã e ressaltar a ideia de que a vitória era de todos os brasileiros (“90 milhões em ação….”).

Pouco tempo depois, as greves no ABC paulista e o movimento das Diretas Já! ocorreram num período bastante difícil e conturbado para o futebol nacional. Os torcedores de outrora – infelizes, porém mais atentos à realidade nacional – voltaram a ser cidadãos e tomaram as ruas para fazer protestos e não para festejar vitórias que, no mínimo, eram ilusórias e passageiras. Nossos jovens pintaram a cara contra Collor um ano após o fiasco da Copa de 1990.

Mais tarde, Fernando Henrique Cardoso foi reeleito sem muito questionamento popular – mesmo depois da trágica Copa da França. O choque parece ter sido tão grande que não fomos capazes de reagir em pouco tempo. Em 2002, ganhamos mais uma Copa do Mundo às vésperas da eleição de Lula — eis mais um motivo para a onda de otimismo e esperança que varreu o país. A onda passou, e a maré baixa foi atenuada com uma felicidade vendida (a.k.a. Bolsa-Família) pelo então novo governo, sob o pretexto de redistribuir renda. Agora, quem fica insatisfeito com um governo que, mesmo com impostos maiores e com os buracos-negros da corrupção ainda dá dinheiro pro “povão”? O resultado: um ano após comprar até parlamentares, o governo Lula foi reeleito mesmo após uma derrota retumbante na Copa do Mundo de 2006.

Os protestos de hoje, quando acontecem, são muito esporádicos e fracos, para se dizer o mínimo. No fim do ano passado, por exemplo, foi organizado um protesto no Rio de Janeiro no dia nacional de combate à corrupção. Segundo o blog do roqueiro Tico Santa Cruz, que participou do ato, dos

quinze mil usuários de Orkut presentes na comunidade do Movimento Pró-Democracia, apenas cinqüenta apareceram para o protesto no dia nacional de combate a corrupção.”

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É lamentável ver que nem mesmo a internet consegue mobilizar nossa população, ou pelo menos, nossa juventude. Quando muito, faz-se um confortável protesto dentro de casa, através do Twitter, com a tag #forasarney. A iniciativa seria louvável se, além de discutir a corrupção e criticar os políticos, incentivasse as mobilizações nas ruas, que teriam muito mais visibilidade e seriam mais efetivas. Foi isso o que os iranianos, mesmo sob uma ditadura fechada — que tem até controle sobre a internet do país —, foram capazes de fazer. E ainda usaram a internet para mostrar os protestos ao mundo quando os jornalistas estrangeiros foram expulsos do país. Até os argentinos protestam quando se sentem ofendidos pelo governo — e fazem muito barulho.

iran_protest Enquanto poucos brasileiros protestam mesmo vivendo num sistema livre e democrático, os iranianos, que vivem sob uma ditadura teocrática, usam a internet para coordenar um grande movimento e exibir ao mundo a indignação de milhares de pessoas com uma eleição fraudulenta.

Mas há um ditado no Brasil que diz que “política, futebol e religião não se discutem”. Essa opinião popular é muito útil a quem está no poder, seja ele político, esportivo ou religioso. Se somos capazes de nos indignar e questionar futebol de nossos clubes e seus dirigentes, de não seguir e não apoiar o retrógrado posicionamento da Igreja (como nos casos de divórcio, uso de camisinha ou até mesmo aborto), então por que ainda não reagimos diante dos desvios de verbas que matam crianças de fome no Nordeste e dificultam a preservação da Amazônia? Por que ficamos de braços cruzados diante de nomeações de parentes e apadrinhados políticos para cargos que deveriam recompensar os melhores brasileiros num concurso público? Por que ainda torcemos para um governo que nos enganou, que prometeu um futuro brilhante mas só nos trouxe decepções? Por que não pedimos a cabeça de um técnico que sempre usa metáforas ligadas ao futebol, mas que admite que “não sabe de nada” quando o time joga mal e em momentos de crise corre para socorrer ex-adversários e desafetos políticos, como Sarney e Collor?

Precisamos de cidadãos que tenham a mesma atitude crítica e a postura ativa dos torcedores. Se todos os cidadãos de todas as nossas torcidas se unissem e se organizassem em torno da melhoria política e social do nosso país (será assim tão utópico?), poderíamos — de forma pacífica, é claro — mostrar aos nossos líderes quem é que manda no sistema democrático. Temos que nos unir porque, independentemente do clube para o qual torcemos, todos nós temos sido desprezados por nossos líderes e oprimidos por impostos injustos e pelo desemprego. Não há por que temer o governo, assim como não temos medo dos poderosos cartolas. Se somos capazes de mudar o técnico de nosso clube sem ter representação na diretoria, imaginem o que poderíamos fazer em relação ao governo, com o apoio dos parlamentares que realmente nos representam – sim, existem políticos honestos por aí!. Se tomássemos mais atitudes políticas quando necessário, aí sim nós poderíamos cantar para dizer ao mundo que somos verdadei-ramente “brasileiros, com muito orgulho e com muito amor”.

domingo, 26 de julho de 2009

2009 – Ano da França no Brasil

Depois do Ano do Brasil na França, em 2008, chegou a nossa vez de homenagear os franceses. Mas parece que a primeira impressão do Presidente gaulês, Nikolas Sarkozy, não foi muito agradável: ano da frança no brasil

Após a visita, Sarkozy informou o presidente Lula que não voltará mais ao país durante os próximos eventos comemorativos do Ano da França no Brasil por que estará muito ocupado com uma agenda de intensas relações com a sua primeira-dama, a cantora italiana Carla Bruni – o que é perfeitamente invejável compreensível.

O Itamaraty divulgou nota sobre o fato dizendo “que nunca antes na história deste país nós tivemos dois canhões dentro do Palácio do Planalto: Dona Marisa, a primeira-dama, e Dilma Rousseff, o primeiro-ministro”.

Diante do caso, o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores estudam cancelar o Ano da França no Brasil por falta de interesse dos francos. O evento seria substituído pelo Ano do Irã no Brasil, pois o presidente Ahmadinejad estaria muito interessado em visitar o país e comprar material bélico nacional. O projeto conta com apoio do Ministério da Defesa e de todos os setores das Forças Armadas, que querem a modernização de nossos arsenais. Ainda não se sabe qual seria o impacto da venda dos canhões à ditadura teocrática democracia de Teerã na imagem do Brasil junto à comunidade internacional. O presidente Lula apoia a ideia e acredita que a medida vai melhorar ainda mais a imagem que os estrangeiros têm do Brasil – principalmente aqueles que visitam Brasília.

domingo, 19 de julho de 2009

Digressões

Atenção!

O texto a seguir é gentilmente dedicado aos leitores, não apenas àqueles que leem este blog, mas a todos  os que fizeram da leitura mais que um hábito e acabaram viciados. Nos momentos de fissura ou tédio (ou em nossos tronos particulares), nós procuramos alívio, informação  e diversão em dicionários e enciclopédias; livros, jornais e revistas; HQs e animes; rótulos de alimentos, cosméticos e shampoos; bulas de remédio e manuais de instrução; sites e blogs ou qualquer outra coisa que contenha letras que formam sílabas, as quais formam palavras, que juntas se tornam parágrafos, que, em sequência, viram texto e por aí vai. Talvez o texto que começa logo a seguir seja divertido ou maçante, ofensivo ou elogioso, nonsense ou genial. Tudo dependerá do leitor que vai ler. Obrigado a todos e boa leitura!

Cara(o) Leitor(a),

O texto que estou começando a escrever, que, aliás, já comecei a escrever; este texto vai apresentar digressões, como o próprio título já indica. Agora o leitor já deve estar impaciente pelo meu suspense ou talvez sinta que sua inteligência foi ferida pela obviedade do primeiro período. Acalmem-se, leitores. Acomodem-se, por favor. Sintam-se à vontade, pois o texto já começou a progredir, ou melhor, digredir (pelo menos é o que me parece). A leitura de textos digressivos não é tarefa fácil e exige tanto do leitor que deveria ser considerada um esporte radical, tamanhos são os saltos e as mudanças bruscas de assunto. Leitores sedentários, não se desanimem, pois não exigirei uma leitura dinâmica. Mas o leitor que tiver medo de entrar nessa montanha-russa textual pode se retirar. Os cardíacos e psicóticos também, pois não quero ser responsabilizado por eventuais danos físicos ou psicológicos que este texto pode causar aos mais frágeis ou a terceiros. Embora seja contra o uso de drogas, estendo meu convite aos leitores bêbados, noiados ou que estejam numa trip alucinógena. Faço isso não apenas em consideração a esses leitores marginalizados, mas acho que talvez apenas eles venham a entender esse texto. Ou talvez nem eles, sei lá. Afinal, não posso fazer ideia de quem é ou de quem são os meus leitores. Pode até mesmo haver leitores com múltiplas personalidades e aí a coisa fica mais imprevisível ainda. Os leitores mais conservadores ou pudicos (eu acho que deveríamos dizer “púdicos” em vez de “pudícos”; a pronúncia correta é muito ridícula) ou aqueles que temem encontrar leitores estranhos ou potencialmente perigosos neste texto podem interromper a leitura agora. Antes disso, porém, eu gostaria de recomendar a este grupo de leitores que se dirijam rapidamente – corram, se quiserem ser mais ágeis – à caixa de comentários lá embaixo para me detratar e me criticar antes mesmo de conhecer minha obra. Eu os desprezarei por isso. E, por favor, sejam maduros. Nada de “first!” ou “primeiro!” nos comentários. Os leitores mais atentos já devem ter notado que me alonguei demais nesse parágrafo e alguns certamente estão sem fôlego a esta altura. Desculpem-me, não consegui conter minha empolgação.


Respirem agora, se ainda estão aí. Como podem ver, esta verborragia toda do parágrafo anterior é uma característica dos textos digressivos. Opa, acho que fui muito didático no período anterior. Afinal, isso aqui não é uma aula de gramática ou redação. Eis por que os leitores mais cultos já vêm me acusar de falta de criatividade, dizendo que eu começo um texto à moda de Clarice Lispector para criar, em seguida, um diálogo com o leitor típico de Machado de Assis. Entendam, porém, que este texto não tem tamanha pretensão literária. Afinal, ele nasceu num sobressalto que tirou o Autor da cama durante uma noite vaga e incerta de inverno e está publicado no blog obscuro do desconhecido Autor. Não, senhoras e senhores, meninas e meninos, gurias e guris, moças e rapazes, minas e manos, não, eu não quero a fama instantânea e artificial de um Dan Brown, de uma J.K. Rowling, de uma Stephenie Meyer ou de um Paulo Coelho. Talvez meu discurso tenha sido um tanto político, o que deve ter afastado alguns leitores. Outros já devem estar cansados novamente com outro parágrafo longo. Senhores leitores, tenham a gentileza de me acompanhar no próximo parágrafo.

Pronto, aqui estamos nós em um novo parágrafo. Foi só pular uma linha. Mas o problema de vocês, leitores, é que se cansam muito rápido e me obrigam a cortar meu raciocínio só para criar outro parágrafo. Talvez vocês já estejam muito (mal-)acostumados com aqueles míseros 140 caracteres do Twitter ou com as poucas palavras de uma mensagem de texto de telefone celular. Enganam-se, porém, se acham que esse negócio de escrever com poucas palavras é mais uma moda moderna (juro que a aliteração foi acidental). É que vocês nunca receberam um telegrama e jamais tentaram mandar um. Ah, é, vocês sequer sabem o que é um telégrafo, não é mesmo? Se quiserem saber o que são essas coisas antigas e desconhecidas, podem ir pesquisar no Google ou na Wikipédia. Eu só não vou usar links neste texto por que não quero perder leitores num clique. Abram uma nova aba e pesquisem, mas voltem para cá, por favor. Ainda tenho mais a dizer escrever.

Notaram como, apesar de parecer um pouco rabugento, eu fiquei menos formal no último parágrafo, trocando “senhores leitores” por um simples “vocês”? Eu achei que os leitores que o alcançaram e tiveram paciência de terminar de lê-lo já me eram íntimos só por dedicarem tamanha atenção e interesse ao meu texto, ocupando um bom tempo de suas vidas lendo isto. Talvez apenas os jovens mais audazes, os leitores mais curiosos e insaciáveis tenham se atrevido a chegar até aqui. Eu os agradeço profundamente e os parabenizo. Sei que certamente querem continuar, e, assim, vou ser gentil e descer mais um parágrafo só pra vocês.

Já devem ter percebido que eu falei muito de leitores até agora. É melhor me voltar um pouco para o texto, antes que ele fique repetitivo demais. Mas eis que, num sobressalto, surge um leitor japonês só para me lembrar que aquele negócio de escrever com poucas palavras é anterior ao próprio telégrafo. E ele tem razão mesmo, pois muito antes do telégrafo os japoneses já faziam poesias curtíssimas chamadas hai-kais. Os leitores-pesquisadores que foram atrás do telégrafo no Google e acabam de voltar poderiam - se quiserem, é claro - fazer outra pesquisa agora mesmo sobre os hai-kais e a cultura japonesa. Leitura é para isso mesmo, para ampliar nossos conhecimentos e nossa bagagem cultural. Agora eu acho que posso tentar começar a falar do texto, mas acho melhor fazer isso em outro parágrafo. Como vocês viram, este foi subitamente invadido por um ninja que acabou sequestrando todo o parágrafo, apesar de todos os meus esforços para ser mais sucinto.

Pois bem, agora vamos, finalmente, falar, ou, de certo modo, ler sobre este texto. Meu deus, que feio! Quantas pausas e vírgulas num só período. Foi sem querer. Mas como eu já disse, esse texto não tem qualquer pretensão literária a não ser demonstrar – de forma tanto prática quanto lúdica – o estilo digressivo de escrever. Os seguidores do modernismo vão dizer que este texto não passa de um fluxo de pensamentos. Para os psicanalistas, é uma livre associação de ideias. Mas há um consenso entre os bibliófilos, os filólogos, os gramáticos, os professores de letras, os de redação e os de literatura: todos eles dizem que este é apenas um texto metalinguístico. Os alunos e leitores com inclinação para a área de humanidades concordam. Os que gostam de exatas já pararam de ler há muito tempo para continuar com seus cálculos. Os que apresentam uma forte queda para as ciências biológicas já devem ter saído e foram organizar um protesto para salvar as baleias. O cara fodão fortão que senta lá no fundão já deve ter dormido antes mesmo do fim do primeiro parágrafo. Após levar todas essas “pauladas” dos mais diversos leitores – embora algumas tenham sido pertinentes – eu me limito a citar aquele velho e conhecido ditado: “Em todos esses anos nesta indústria vital, essa é a primeira vez que se aproveitam da minha nobreza”. Talvez essa resposta tenha sido cômica ou até mesmo cínica. Não era a minha intenção. Sério. Desculpem-me novamente.

Já devem ter reparado que pedi desculpas reiteradamente. Acontece que este texto ainda não me parece suficientemente bom e, para mim, não passa de uma tentativa amadora de digredir um pouco. Caro leitor, me entenda: eu sou um pobre Autor que aspira os aromas ásperos dos jornais velhos e os doces odores das revistas com folhas amareladas pelo tempo… Acho que agora eu me desviei completamente de meu rumo e quase comecei uma prosa poética com aquela breve sinestesia do período anterior. Nossa, eu não consigo mais parar de digredir! Será um novo vício? Ah, é que eu tropecei e caí na polissemia do verbo “aspirar” e acabei digredindo de novo quando já começava a encerrar este texto. O que eu queria dizer é que eu sou um pobre Autor que aspira a ser cronista. O Capitão Nascimento já perdeu a paciência pois acha que eu sou um “aspira de merda” e já me pediu pra sair. Vou tentar ser o mais breve possível, Capitão. Juro. Aliás, acho até que já me alonguei demais para uma crônica. Será que isso já não é um conto, caro leitor? Mas já não há nenhum outro personagem. Somos só nós dois nos comunicando silenciosamente. Não há nada de especial ou fantástico nisso. Por isso mesmo – e também por que a madrugada avança e me cansa – eu vou acabar este texto por aqui mesmo. Ponto Final. Ou melhor:.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Entre a Eternidade e a Infinidade

Qual seria a sua escolha entre viver uma “vida longa e próspera”, com uma carreira brilhante numa organização política importantíssima e alcançar grande poder sobre a Humanidade ou viver o grande e único amor de sua vida?

Este é o dilema vivido por Andrew Harlan, personagem principal de O Fim da Eternidade (e-book disponível em pdf ou doc), obra clássica do mais prolífico autor do século 20, Isaac Asimov. Como a vasta maioria das obras de Asimov, O Fim da Eternidade é ficção científica, mas também é uma verdadeira novela, cheia de suspense, mistério, intrigas, inveja e muitas reviravoltas, capaz de fazer inveja a muitos romancistas “de verdade”.

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Capa da 1ª. Edição, lançada nos Estados Unidos em 1955.

Essa obra é única na bibliografia asimoviana, pois, em outros livros, os personagens femininos são secundários ou mesmo inexistentes. Aliás, esse padrão de ausência feminina se mantém durante boa parte do Fim da Eternidade. Considerada uma das melhores obras do autor, o Fim da Eternidade é uma ficção científica de boa qualidade e o assunto principal são as sempre fascinantes viagens no tempo – e os estranhos e surpreendentes paradoxos que elas podem criar.

Segundo notícias de abril deste ano, a obra estaria sendo adaptada para o cinema pelo diretor Kevin Macdonald.

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As edições mais recentes do livro: em inglês (esq.) e português (dir.). Preços variam de 29 a 38 reais na Internet.

A Eternidade

A Eternidade é uma espécie de organização política e comercial, um misto de império  e empresa transtemporal, situada fora dos limites  do tempo. Dentro da Eternidade vivem e trabalham os Eternos, que se consideram verdadeiros guardiões da raça humana. Os Eternos trabalham de acordo com uma rígida hierarquia, muito semelhante a um sistema de castas. Esses guardiões formados por homens jovens (de até 16 anos) recrutados através das mais diversas eras. Eles são treinados para viver de forma extremamente racional e não podem demonstrar emoções.

Os seres humanos comuns, que vivem fora da Eternidade, na Terra, dentro dos limites do Tempo são chamados de Tempistas e não têm ideia do que é a verdadeira Eternidade. Os Tempistas acreditam que os Eternos são apenas seres humanos superiores, quase divinos, capazes de viver eternamente – o que não é verdade. Os Eternos vivem mais, mas também acabam morrendo porque o tempo biológico, medido em fisioanos, continua a passar dentro da Eternidade.

As raízes da Eternidade estão no início do século 23 [1] (2201-2300), quando um cientista  que vive nas montanhas da Califórnia –  e que aparentemente é sueco; Asimov sempre se esforça para criar nomes que pareçam neutros ou exóticos, mas isso nem sempre acontece –, Vikkor Malansohn descobre os mecanismos para enviar objetos para o futuro. A primeira experiência parece simples: enviar a cabeça de um palito de fósforo para dois segundos no futuro. Parece pouco, mas demandou 24h de toda a produção energética de uma usina nuclear. Durante os três séculos seguintes, a invenção de Malansohn é aperfeiçoada e surgem fórmulas matemáticas que explicam seu funcionamento. Durante o século 27 (2601-2700), é inventada  a Caldeira[2], capaz de enviar homens e grandes objetos através do tempo. É o início da Eternidade.

Em seus primeiros anos de existência, ainda na História Primitiva [3], a Eternidade apenas tratou de se expandir rapidamente em direção ao futuro e de começar a realizar comércio entre os séculos. A Eternidade estabeleceu entrepostos chamados setores ao longo dos séculos. Isso mesmo, comércio intertemporal. Se há excedentes de madeira (ou vacinas para o câncer) num determinado século e falta em outro, a Eternidade funcionava mais ou menos como uma transportadora, muitas vezes buscando matérias-primas no futuro e vendendo no passado – ou vice-versa.

Entretanto, os Eternos logo perceberam que, pelo bem da Humanidade – que, afinal, era seu mercado consumidor – era preciso retardar, evitar ou mesmo destruir novas tecnologias, especialmente as armas atômicas e os mais diversos sistemas que permitiriam as viagens espaciais. Para isso, a Eternidade passa a usar de seus poderes de viajar através do tempo para criar as Mínimas Mudanças Necessárias (MMN’s) para os Máximos Resultados Desejáveis (MRD’s). Essas mudanças são verdadeiros trabalhos de Engenharia Social e são feitas com o objetivo de manter as sociedades humanas sob uma relativa estabilidade social e política (ou para minimizar o sofrimento humano e garantir felicidade a toda a Humanidade, segundo a Eternidade).

As Mudanças de Realidade começam com observações feitas num determinado Tempo [4] pelos Observadores. Em seguida, Sociólogos  e Esboçadores de Vidas [5] planejam as Mudanças de Realidade necessárias de acordo com as observações feitas. Após isso, as Mudanças de Realidades são implementadas por Técnicos. Técnicos muito experientes podem ascender à posição de Computador Júnior. Os Computadores Sêniores são os Eternos mais experientes e são os detentores do poder político, pois formam um Conselho. Entretanto, alguns membros da Eternidade também podem ser rebaixados para funções de Manutenção: Recepcionistas, Secretários, Mecânicos de Caldeiras, etc.

Resumo da Ópera

Andrew Harlan é um homem de cerca de trinta anos nativo do século 95 (9401-9500). Sua nacionalidade e seu passado em seu século natal são totalmente desconhecidos. Durante seu treinamento, os Eternos perdem quase todas as suas memórias pessoais e jamais podem retornar ao século de que vieram – não podem nem mesmo passar muito tempo num século com características similares às de sua época na Terra.

Harlan começa sua carreira na Eternidade como Observador do setor da Eternidade no século 575 (57.401-57.500), mas acaba se revelando tão hábil que logo chama a atenção do poderoso Computador Sênior Twissel - um homem idoso, de aparência gnômica, quase mágica – e acaba sendo promovido ao posto de Técnico. Harlan passa a ser protegido por Twissel e dele recebe a importante missão de ensinar História Primitiva a um jovem recém-recrutado do século 78 (7701-7800), Brinsley Sheridan Cooper.

A promoção desperta a ira do Computador Júnior que era o chefe de Harlan no século 575  e rival político de Twissel dentro da Eternidade. O Computador Júnior sabe que Harlan tem uma fraqueza: ele é emotivo demais para os padrões da Eternidade. Uma armadilha é armada para o Técnico Harlan durante uma missão para implementar uma Mudança de Realidade no século 482 (48.101-48.200). Esse século apresenta características curiosas: sua sociedade é martriacal, sua cultura é muito similar ao Barroco, mas os costumes são bastante liberais.

É durante essa missão como Técnico que Andrew Harlan conhece a bela, rica e misteriosa Noys Lambert. Ao conhecer Noys no século 482, ele se apaoixona intensamente por ela e comete vários “crimes”: ele se relaciona intimamente com ela, e depois tenta evitar a que ela seja afetada pela Mudança de Realidade que vai implementar. Após consultar, secretamente, um Esboçador de Vida, Harlan descobre que Noys simplesmente não vai existir na Nova Realidade. Ele corre para salvá-la e a esconde  numa seção vazia do século 111.273 (11.127.201-11.127.300)  – um dos quase inacessíveis Séculos Obscuros, situados num futuro (muito) distante, além dos séculos 70.000.

Após seus crimes, Harlan passa a considerar a Eternidade nociva à Humanidade e vai tentar destruí-la. Antes disso, porém, ele precisa resgatar Noys Lambert  do futuro longínquo que ainda é desconhecido pela própria Eternidade.

Twissell sabia desde o começo que a Eternidade corria risco e por isso tenta enviar  Sheridan Cooper para o primitivo século 23.

Mas então tudo dá errado e somente Andrew Harlan tem em suas mãos o destino da Eternidade e de sua própria vida. É preciso escolher entre um dos dois: eis o dilema entre a Eternidade e a Infinidade.

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NOTAS:

[1] Para dar uma noção dos largos intervalos de tempo do livro e para situar o leitor, vamos indicar todos os séculos entre parênteses. Para determinar qualquer século, basta fazer alguns truques simples com uma calculadora (ou mesmo usar a cabeça): multiplique o número do século por 100. Por exemplo: 15x100 = 1500. Esse será o último ano do século 15. O primeiro ano será formado por dígitos que somam 15: 1401, pois 14 + 01 = 15. Em séculos mais distantes, é melhor usar uma calculadora mesmo, pois as coisas se complicam.

[2] Uma Caldeira (Kettle, no original em inglês) se parece muito com uma bolha, de acordo com a descrição do livro. Pode ser uma espécie de campo energético capaz de subir e descer pela escala temporal como um elevador. No livro, os séculos são comparáveis aos andares de um imenso prédio.

[3] História Primitiva é todo o período anteríor ao século 27, época da descoberta da energia nuclear e do surgimento da Eternidade. A realidade da História Primitiva é estática e só muda com a ocorrência de grandes fatos com profundas repercurssões, como guerras e revoluções. Após o surgimento da Eternidade a realidade e a própria História se tornam muito instáveis e maleáveis devido às Mudanças de Realidade implantadas pelos Eternos.

[4] As escalas de tempo da trama são tão longas que só se fala em séculos. Quando é necessário determinar um ano, fala-se em centiséculo. Assim, 2009 seria o centiséculo 20,09, situado dentro do século 21 (2001-2100).

[5] Sociólogos e Esboçadores de Vida são técnicos da hierarquia da Eternidade que estudam as sociedades e os indivíduos de forma racional e sistemática. A Sociologia da Eternidade é praticamente uma ciência exata, pois lida com equações aparentemente complexas para prever ou explicar o comportamento de determinada sociedade (ou de um indivíduo) numa dada época.

domingo, 8 de março de 2009

Sem camisinha, sem pecado

no confessionário

Tirinha adaptada de atheistcartoons.com.

Por que, para a Igreja Católica, estuprar e engravidar uma criança de nove anos sem camisinha PODE! Se os padres podem fazer o mesmo com meninos, por que um “bom cristão” não poderia fazer com uma menina, desde que fosse sem camisinha? O arcebispo de Olinda e Recife – um título tão pomposo quanto inútil –  só excomungou aqueles que salvaram a vida da pobre menina grávida por que ele não gosta de meninas e o que mais queria era um par de gêmeos bem novinhos e inocentes. Essa era a única fantasia pedófila que dom José Cardoso Sobrinho ainda não realizou. A posição oficial do Vaticano é a seguinte:

motivacionalvaticano

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Depois da Farra…

JC precisou ser carregado… Também, durante a farra ele começou a transformar garrafinhas de água mineral em vinho, cerveja e Red Bull.

jesusressaca

Espera-se que ele saiba transformar pão em aspirina para lidar com a enorme dor de cabeça que ganhou. Além disso, a Madalena não gostou nem um pouco do Jesus que encontrou hoje. Parece que o sofá já está reservado pra ele esta noite.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Jesus, o fanfarrão

“E o Filho do Homem conheceu o Carnaval e viu que era bom…”

dia do julgamento

JC, esse fanfarrão! Aposto que a Maria Madalena não tá sabendo disso!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama Day

a porta da rua completo

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nem tão solitário planeta

Atendendo a pedidos do ilustre Kentaro Mori, autor dos blogs 100 nexos, Ceticismo Aberto e  da coluna Dúvida Razoável, traduzi integralmente o ensaio "Not-So-Lonely Planet", publicado pelo Oliver Morton, editor-chefe da revista Nature na edição de 24 de dezembro último do New York Times. O ensaio baseia-se na famosa foto do "nascer da Terra" sobre a Lua, feita em 1968 pelo astronauta Bill Ander, durante a missão Apollo 8. Eis a minha versão para o português:  


 "O Nascer da Terra"



Nem tão solitário planeta

Oliver Morton


Eles foram à Lua e, durante as primeiras três órbitas em torno dela, foi para a Lua que a sua atenção esteve voltada. Somente na quarta volta eles levantaram seus olhos para ver seu lar planetário, levantando-se silenciosamente sobre as planícies desérticas da Lua, em maravilhosos tons de azul e branco. Quando, mais tarde, na véspera do Natal de 1968 eles leram as primeiras linhas do Gênesis ao vivo na televisão, eles deram sentido aos céus e à Terra, à forma e ao vazio, com aquela maravilha que eles tinham visto nascer sobre o céu negro da Lua.
A fotografia do “Nascer da Terra” feita pelo astronauta Bill Anders é parte do legado duradouro do Programa Apolo – que eclipsa, em muitas memórias, quaisquer novas descobertas sobre a Lua ou um sentido renovado de orgulho nacionalista. Esta e outras fotografias que retratam a Terra trouxeram uma nova perspectiva a tudo aquilo que os humanos compartilham. Como Robert Poole apontou em “Earthrise: How Man First Saw the Earth” (“Nascer da Terra: Como a humanidade viu a Terra pela primeira vez”), essa perspectiva tem profundos efeitos culturais, notáveis na ressonância emocional adquirida através do nascente movimento ambientalista. Vista da Lua, a Terra parecia tão minúscula, tão isolada, terrivelmente frágil.
A imagem não perde beleza nem poder se nos lembrarmos, porém, que era o fotógrafo, muito mais que o planeta, quem estava isolado e que a fragilidade é uma ilusão. O planeta Terra é excepcionalmente robusto e sua força provém de suas antigas e íntimas conexões com o Cosmos ao fundo. Ver a foto dessa maneira não destrói a sua relevância ambiental – antes reforça-a.
É inegável que a Terra seja pequena. Se o sistema solar interno fosse do tamanho dos Estados Unidos, a Terra teria o tamanho de um campo de futebol; se a distância até o centro da galáxia fosse de uma milha, a Terra seria menor que um átomo. Mas se a foto do Nascer da Terra tivesse capturado a Terra na dimensão do tempo em vez do espaço, as coisas seriam diferentes. Em sua duração, ao contrário de seu diâmetro, a Terra precisa ser medida em uma escala cósmica. Em mais de quatro bilhões de anos, ela se estende por um terço da história do universo, ocupa um terço do caminho de volta ao próprio Big Bang. Muitas das estrelas que você pode ver numa noite clara de inverno são mais jovens que o planeta debaixo dos seus pés.
Mera persistência não é, por si só, um grande feito. As rochas estéreis da Lua têm persistido por quase tanto tempo quanto as da Terra. Mas a Terra não tem sido apenas duradoura; tem sido viva. Por quase 90 por cento de sua história, o planeta tem sido habitado e moldado pela vida. Os mecanismos biológicos que operaram na aurora da vida animam as criaturas da Terra até hoje, formando uma corrente contínua durante pelo menos 3,8 bilhões de anos.


Esta vida infalível e ininterrupta demonstra que o planeta está muito longe da fragilidade. A Terra viva é imbatível em escalas difíceis de acreditar. A vida assistiu aos continentes que se chocaram e se despedaçaram, céus brilhando feito carvão em brasa, mares tropicais congelados e imobilizados: ela sobreviveu. Atingida pela radiação de uma supernova próxima, por asteróides, ela pode ter balançado, mas nunca caiu.  Nossa civilização pode estar – ou está – fora de equilíbrio com seu ambiente, os modos de vida humanos atuais podem ser assustadoramente precários. Mas aplicar a fragilidade de nosso modo de vida à própria vida é tolice.
Humanos podem extinguir espécies e diminuir ecossistemas. Tal vandalismo traz riscos reais aos seus perpetradores, uma vez que a civilização humana depende dos serviços prestados por alguns desses ecossistemas. Mas quando se leva em conta a escala planetária da vida, nossa situação é trivial. Humanos não trazem nenhum risco existencial à vida na Terra e nada a ameaçará por centenas de milhões de anos. Rica, variada, sempre mudando – a Terra é tudo isso. Frágil é que não é.
Por que tão robusta? A razão está no segundo grande erro conceitual: que a Terra é isolada. Isso apenas é verdade se o seu sentido de contato depende de matéria física passando de um lugar para outro. A poeira e as rochas que caem do céu vindas do espaço são como pedrinhas lançadas num oceano, ainda que algumas rochas maiores causem um pequeno desconforto ao matar dinossauros. Os traços de gás varridos da alta atmosfera são verdadeiramente desprezíveis. A matéria é depositada a conta-gotas e é levada por um suspiro. Mas a matéria não é tudo.
Uma enxurrada de pura energia luminosa sai do Sol em todas as direções. Oito minutos depois, numa viagem à velocidade da luz, parte desse extraordinário fluxo de energia cai sobre a Terra, inundando-a com uma torrente de 170 mil trilhões de watts. Parte disso é refletida de volta ao espaço; o “Nascer da Terra” do Major Anders capturou aquela luz refletida pelo branco das nuvens e do gelo polar. A maior parte, porém, é absorvida; esta é a energia que move os ventos, faz as ondas e as correntes marinhas fluírem, esquenta as rochas e aquece o céu. O fluxo de energia solar flui para o sistema terrestre e reflui para fora, para o espaço frio e escuro como uma onda de radiação infravermelha.
Uma minúscula fração dessa energia é captada, não pelas rochas, pelos ventos ou pelas águas, mas pela vida. Aquela fração de um por cento da energia capturada pelas plantas e por outros organismos fotossintéticos é distribuída através das cadeias alimentares do mundo. É esta luz solar, infinitamente fresca, que faz a grama crescer, o pássaro cantar – e você, viver. A energia do Sol flui, através do seu cereal matinal no seu café da manhã, para as suas veias e para seu cérebro. Ela te anima como tem animado quase toda a vida da Terra durante bilhões de anos. 
A ciência da termodinâmica nos diz que um sistema fechado tende ao equilíbrio, à indiferença, ao aumento da entropia. Se a Terra fosse um sistema isolado como parece, a tendência inevitável seria a perda, o fim da vida. Mas a Terra é tão aberta quanto o céu. Energia de toda a parte passa por ela, criando infindáveis chances para a complexidade e a improbabilidade, levando a entropia do mundo de volta ao espaço. O fluxo de energia que une quase todos os seres vivos do planeta é o mesmo que liga nosso ambiente ao universo lá fora.
Para que esse fluxo funcione de forma adequada, a energia deve sair da mesma forma que entra. Se o Major Anders estivesse equipado com uma câmera de infravermelho, a energia que sai teria nos mostrado um brilho aquecido no lado noturno do planeta. Quarenta anos depois, aquele brilho pareceria um pouco enfraquecido por que menos energia está saindo daqui. Ao cobrirmos os céus com dióxido de carbono, nós estamos bloqueando esse fluxo energético, aumentando o calor aqui na superfície da Terra. Este aquecimento global por efeito estufa é “café pequeno” em qualquer sentido cósmico. Ele não traz nenhuma ameaça à continuidade da vida na Terra, mas é uma ameaça a dezenas de milhões de pessoas e continuará a ser por gerações.
Felizmente, ver o problema do aquecimento global em termos de fluxo de energia é enxergar sua solução. Ao colocar um pouco da energia cósmica em uso – ao desenvolvermos a energia eólica em verdadeiras fazendas energéticas, a hidroeletricidade, e, a mais promissora de todas, a energia solar – nós poderíamos acabar com a necessidade daquele gás carbônico que está sobrando nos céus. Outros fluxos de energia poderiam ajudar também. Fluxos de calor das profundezas da Terra ou da radiação que herdamos com o urânio das estrelas mortas. Mas é a energia solar que, direta ou indiretamente, irá dominar esse panorama, simplesmente por que é abundante. O Sol entrega mais energia à Terra em uma hora do que a humanidade consome em um ano.
Substituir os combustíveis fósseis, despoluir o nosso planeta e ainda evitar a nossa ruína – o pior de dois mundos – é um desafio épico. Mas a mensagem que emoldura todas as mensagens do “Nascer da Terra” é que nós somos capazes de desafios épicos. Veja só onde a foto foi tirada. Mas “Se nós colocamos um homem na Lua então por que não acabar com a pobreza?...” Isso pode nos mostrar as falhas da sociedade em alcançar metas que eram muito mais simples. Mas lembre-se: nós colocamos um homem na Lua e isso não foi pouca coisa. Esforços numa escala similar no sentido de colher esse fluxo de energia que passa por nós seriam inteiramente apropriados e tornariam as coisas mais fáceis.  Nós não poderemos resolver todos os problemas; algumas mudanças climáticas serão inevitáveis. Mas não a catástrofe.
O “Nascer da Terra” nos mostrou onde estamos, o que podemos fazer e o que temos em comum. Mostrou-nos quem somos nós, em conjunto: o povo de um mundo forte, durável, tocado pela luz da criação contínua.
Oliver Morton é autor de “Mapping Mars: Science, Imagination and the Birth of a World”(“Mapeando Marte: Ciência, Imaginação e o Nascimento de um Mundo”) e, mais recentemente, escreveu “Eating the Sun: How Plants Power the Planet” (“Comendo o Sol: Como as Plantas Alimentam o Planeta”); é editor-chefe da revista Nature.


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Veja também:
Pálido ponto azul, em vídeo, pelo grande Carl Sagan
Salvem o planeta, em vídeo, pelo impagável e inesquecível George Carlin
Not-so-lonely planet, versão original no site do New York Times

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