Mais um fim-do-mundo passou. No último dia 10 de setembro, quarta-feira, o LHC foi ligado e, apesar dos temores de muitos analfabetos científicos e misticóides o mundo não acabou [1] - de novo. É sempre a mesma velha história: algum movimento místico/religioso "escolhe" uma data para a chegada do tão aguardado fim-do-mundo. Criam-se expectativas. Parte da mídia, a inútil e semi-analfabeta imprensa marrom faz a festa, por assim dizer, e se aproveita dos mais crédulos. Isso, é claro, quando não criam uma imensa tempestade em copo d'água com algum experimento científico que a maioria simplesmente não compreende. Foi o que aconteceu com o Grande Colisor de Hádrons.
Agora as expectativas se voltam para 2012. Sim, eis o próximo fim-do-mundo! Por quê 2012? Por que foi escolhido pelos místicos, oras! Desta vez é o famoso movimento New Age que profetiza o fim dos tempos. Eles se baseiam agora no calendário de Contagem Longa dos maias. Ou melhor, se baseiam num suposto fim do calendário maia.
Os maias, na verdade, usavam três calendários, todos organizados como hierarquias de ciclos de dias com várias durações. A Contagem Longa era o principal calendário para fins históricos. O Haab era o calendário civil, e o Tzolkin, o religioso. Todos os calendários maias são baseados apenas na contagem serial de dias, ou seja, não são calendários sincronizados ao Sol ou à Lua. Apesar disso, tanto a Longa Contagem quanto o Haab contém ciclos de 360 e 365, respectivamente, valores muito próximos número de dias do ano solar. Por basear-se apenas na contagem dos dias, a Longa Contagem é muito parecida com o sistema de dias julianos e outras representações modernas de datas e tempo. Também é interessante notar que tal calendário conta a partir do zero. Os maias foram o primeiro povo a usar o zero.
Tabela 1 – hierarquias da Longa Contagem Maia
Ciclo
Equivale a
Total de Dias
Anos
(aproximação)
kin
-
1
-
uinal
20 kin
20
-
tun
18 uinal
360
0,986
katun
20 tun
7200
19,7
baktun
20 katun
144.000
394,3
pictun
20 baktun
2.880.000
7.885
calabtun
20 piktun
57.600.000
157.704
kinchiltun
20 calabtun
1.152.000.000
3.154.071
alautun
20 kinchiltun
23.040.000.000
63.081.429
A Longa Contagem é organizada de acordo com a hierarquia de ciclos mostrada na Tabela 1 (acima). Cada ciclo é composto de 20 unidades do ciclo anterior, com exceção do tun, que é composto de 18 uinal de 20 dias cada. Isso resulta num tun de 360 dias, o que é uma boa aproximação com o ano solar, tendo em vista que outros povos antigos, como os romanos, usavam um calendário exclusivamente baseado no ciclo solar, com 360 dias.
Na verdade, os maias acreditavam que ao fim de cada ciclo pictun, equivalente a 7.885 anos, o universo seria destruído e recriado. Esta é a verdadeira profecia maia. Para os que ainda acreditam nisso, tal ciclo só acabará em 12 de outubro de 4772 no calendário gregoriano utilizado atualmente – bastante distante de 2012, não é mesmo? Os místicos da New Age não iriam ganhar dinheiro se escrevessem livros sobre a verdadeira profecia maia – que, muito provavelmente não vai se realizar, assim com também já falharam as diversas previsões sobre os anos 202 (feita pelos cristãos), 500 (cristãos), 1000 (católicos), 1844 (adventistas), 1914 (testemunhas de Jeová), 1925 (testemunhas de Jeová), 1975 (testemunhas de Jeová), 1999 (Nostradamus) e 2000 (quase todo mundo).
Tabela 2 – hierarquias do Calendário Gregoriano
Ciclo
Equivale a
Total de Dias
Anos
dia
1 dia
1
0,0027
mês
28, 29, 30 ou 31 dias
de 28 a 31
0,0833
ano
12 meses
365,25
1
década
10 anos
3652,5
10
século
100 anos
36525
100
milênio
1000 anos
365250
1000
Por outro lado, 2012 vai ser mesmo um ano de mudança no calendário maia e é nisso que se baseiam as presentes previsões místicas. Para os místicos o fim do mundo chegará em 21 de dezembro de 2012. Mas na verdade, se convertermos esta data para o calendário maia de Longa Contagem, obteremos o seguinte resultado: 13.0.0.0.0. Isso significa que esse será apenas o início do 13º ciclo baktun. Se compararmos a hierarquia maia à nossa hierarquia gregoriana (Tabela 2), veremos que um baktun com 394,3 anos, é mais ou menos equivalente ao nosso século. Será apenas o início do século 13 para os maias, enquanto nós já estamos, de acordo com nossa contagem, no século 21. Isso tudo acontece apenas por que são meios diferentes de contar o tempo, que além disso começaram a ser contados em épocas distintas.
Mas, então, por quê 21 de dezembro de 2012 foi escolhido pelos místicos? A resposta é simples e óbvia: superstição. Como vimos, essa data corresponde a 13.0.0.0.0. O que está acontecendo com o pessoal da New Age é o velho medo do número 13. Só isso. E, pior, tem muito charlatão ganhando bastante dinheiro em cima disso[2], vendendo livros que são verdadeiros best-sellers e que nem mesmo se referem à verdadeira profecia maia! Não seja enganado! 2012 vai ser um ano como outro qualquer! Até lá!
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Notas: [1] Na verdade o LHC só foi "testado". Como é uma máquina nova ainda vai ser "amaciado" com novos testes em outubro e novembro. Só vai funcionar em potência máxima em meados de 2009. E já tem gente remarcando o fim do mundo para o ano que vem...
[2] Isso por que esse pessoal da New Age é completamente desapegado aos bem materiais... Imaginem se fossem materialistas...
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Leituras Recomendadas: 1) Sobre o LHC - Eu ia dedicar um post só para o LHC, mas já há um rico material sobre o assunto na internet (que foi criada no CERN):
Sobre os custos: o glúon apresenta uma comparação dos custos do LHC com as despesas de outras megaestruturas.
O quê, como, onde e por quê do LHC está no excelente 100 nexos.
E para aqueles que ainda acreditam que o LHC é a máquina do fim-do-mundo, é melhor passar a ter uma dúvida razoável.
Eis o pior pesadelo dos peões de obra: robôs na construção civil!!!
Basicamente, é um sistema robotizado de injeção e modelagem (extrusão) de concreto. Tal máquina tem sua ideia baseada no mesmo princípio da impressora de jato de tinta - só que em três dimensões. O processo é chamado de "modelagem de contorno" e é capaz de criar um edifício em questão de horas.
Tal invenção ainda está sendo projetada e testada em escala por Behrokh Koshnevis e equipe, na University of Southern California (Universidade do Sul da Califórnia). Os equipamentos já existentes são capazes de criar, automaticamente, paredes de até 1,82 m. de altura. O projeto conta com apoio e finaciamento da gigante Carterpillar, que atua no ramo de máquinas pesadas.
Nas palavras do próprio Koshnevis:
"O grande desafio em nosso centro tecnológico é construir uma casa com projeto customizado em um dia, reduzindo drasticamente os custos, os ferimentos, o desperdício e o impacto ambiental associados à construção tradicional. Poderíamos prover moradias mais acessíveis e até mesmo construir edificações extraterrenas com materiais disponíveis no local..."
Não é de se surpreender que até a Nasa esteja interessada no projeto. Com ele seria possível construir bases na Lua sem a necessidade de levar astronautas até lá. Uma possível missão tripulada do futuro poderia encontrar abrigos prontos. Obviamente, os custos também seriam mais baixos.
O vídeo a seguir apresenta o trabalho das máquinas em escala e em seguida, animações de computação gráfica mostram como seria o trabalho de verdade, usando dois sistemas diferentes: um fixo (grande e sobre trilhos) e outro móvel (pequeno e sobre rodas).
Eis algumas das minhas conclusões (ou dúvidas) pessoais:
Será que tal equipamento seria economicamente viável, com produção em larga escala?
Se uma impressora comum pode travar, quem garante que isso não pode acontecer com esse sistema? Imaginem se um troço desses "pega" um vírus? Teria de ser um vírus especializado, porém. Coisa feita especialmente para sabotar. Algo com espírito ludista.
Consequências sócio-econômicas: A construção civil é um ramo da indústria que emprega muito. Se sistemas robotizados, como esse, chegarem ao setor, o que será dos peões-de-obra?
Tal sistema, por outro lado, parece ser ideal para a construção de casas populares - projetos que exigem simplicidade e rapidez na execução.
As animações não mostram, mas tais edificações devem ser dotadas de fundações se quiserem ser tecnicamente viáveis. As fundações também seriam feitas de modo automático?
Os terrenos teriam que ser necessáriamente planos? Robôs com rodas não lidam muito bem com terrenos irregulares - os trilhos do sistema "fixo" também não.
E quanto às paredes? Seriam inteiriças, certo? Como se comportariam tais paredes durante longos períodos de tensão causada pelo peso e variações térmicas, além da trepidação causada pelo tráfego? Uma parede comum, de tijolos, é relativamente flexível e, por isso, me parece mais durável.
Para quem não sabe, a "salvação" do último quadrinho é o Monstro do Espaguete Voador, uma paródia de deus criada para combater o avanço do criacionismo nos EUA.
Reiki é uma terapia pseudocientífica de origem tibetana baseada na manipulação da energia vital ou espiritual (ki) através da imposição de mãos com o objetivo de restabelecer o equilíbrio vital e, assim eliminar doenças e promover a saúde. Apesar de determinados relatos, não é reconhecida pela medicina pela ausência de evidências científicas de sua eficácia.
A maioria das escolas ensina que a energia Reiki é uma energia "inteligente" [1], que "sabe o que fazer", ou "onde é precisa". Também afirmam que, por outro lado, se quem recebe não estiver aberto ao tratamento, modificando suas emoções, pensamentos e atos nocivos, a energia não terá efeito duradouro no organismo, persistindo a enfermidade.
Quando a cura está condicionada à crença ou fé isso se chama efeito placebo.
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[1] Energia inteligente? Isso é besteira! Como algo que não é material pode ter consciência e "saber o que faz"? Isso é só mais um nome pomposo e dissimulado para deus.