Se Goethe vivesse hoje, Fausto conseguiria um contrato mais justo:
EULA, xkcd, onde esta sopa de letrinhas vai parar?
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Fausto 2.0
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sábado, 4 de dezembro de 2010
Como deixar um autor irado
Mude um título genial alegando questões de mercado. Foi o que fizeram com C.P. Smith.
Em 1938, o poeta Chard Powers Smith (1894-1977) levou um semi-acabado romance para a sua editora, a Scribner’s. O texto foi elogiado, mas pediram a Smith que o título fosse mudado, pois pensavam que ele assustaria os leitores. Smith concordou com a mudança e no ano seguinte The Artillery of Time [A Artilharia do Tempo] foi publicado.
O título original do livro de Smith? The Grapes of Wrath [As Vinhas da Ira]. A obra-prima de John Steinbeck apareceu semanas depois da publicação de Artillery of Time.
Smith deve ter ficado irado com seus editores.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Efeito Bourne
Em 14 de março de 1887, o norte-americano Ansel Bourne acordou em um quarto desconhecido. Para sua imensa surpresa (e a sua também, leitor), Bourne, que vivia em Rhode Island como pastor evangélico, descobriu que estava em Norristown, Pensilvânia. Lá, ele havia se estabelecido dois meses antes, apresentando-se como A. J. Brown, e abriu uma loja de confecção.
Mister Bourne/Brown foi encontrado por seu sobrinho, que ajudou-o a voltar para Providence, capital de Rhode Island. Psicólogos diagnosticaram nele um dos primeiros casos de fuga dissociativa, múltipla personalidade e amnésia.
Não foi a primeira vez que Bourne perdeu sua identidade (não, não foi o RG). Em 1857-58, ele, que até então era carpinteiro, tornou-se subitamente obcecado com a ideia de visitar uma capela. Depois desse episódio, ele tornou-se o pastor Bourne.
Quase um século depois, em 1980, Robert Ludlum foi inspirado pela história e deu o sobrenome do carpinteiro/pastor/comerciante ao personagem principal de sua trilogia mais bem-sucedida — A Identidade Bourne, A Supremacia Bourne (1986) e O Ultimato Bourne (1990).
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terça-feira, 2 de novembro de 2010
Em uma palavra [28]
Vaticídio
subst. masc. assassinato de profeta(s). [do latim, vates, profeta, visionário ou poeta] Vaticida, adj.
Dada a etimologia, há quem diga que vaticídio também deveria indicar o assassinato de poeta(s). Eu acho que nesse caso poderíamos usar vatecídio e vatecida. Ou usar derivados de Bardo: Bardocídio e bardocida (não confundir com "Bar do Cido" ou "Bar da Cida").
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Menos é Mais
Mark Twain recebeu certa vez um telegrama de um editor com um pedido:
PRECISO CONTO CURTO, 2 PÁGINAS, DOIS DIAS.
Twain respondeu com outro telegrama:
NÃO POSSO FAZER 2 PÁGINAS DOIS DIAS. POSSO FAZER 30 PÁG 2 DIAS. PRECISO 30 DIAS PARA FAZER 2 PÁG.
O pior é que Twain tem razão. É muito mais fácil exercer a fabulosa arte da prolixidade do que a austeridade vocabular.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Os Biscoitos de Douglas Adams
O conto a seguir, escrito por Douglas Adams, não chega a ser propriamente um conto. É mais um causo do autor. No entanto, Adams conta uma experiência ao mesmo tempo banal e surreal que teve numa estação de trem — um lugar tipicamente britânico — do mesmo modo mochilesco que narra as (des)venturas de Arthur Dent em sua obra máxima, O Guia do Mochileiro das Galáxias.
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Em uma palavra [20]
Librocubicularista
subst. [do latim, libris, livro e cubiculo, quarto] aquele que lê na cama; "book-lover"; literalmente, "alguém que faz algo com um livro em um quarto."
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Dois palitos
![]() |
| Pintura de Márcio Camargo |
Se você precisa parar de fumar ou de fazer queimadas, é melhor ler essa história. Uma bituca de cigarro ou fósforo pode fazer toda a diferença, mesmo que mentalmente:
Um dia, um mercador estava nas florestas da Califórnia, na estação seca, quando o Comércio estava em alta. Ele havia percorrido um longo caminho, estava cansado e faminto, e desmontou do seu cavalo para fumar um cachimbo. Mas quando ele procurou em seu bolso, encontrou nada além de dois fósforos. Ele riscou o primeiro, mas não acendeu.
"Que belo estado de coisas temos aqui!", disse o mercador. "Morrendo de vontade de fumar, só me resta um fósforo e ele certamente não vai pegar fogo! Poderia haver uma criatura tão desafortunada? E mesmo assim", pensou o viajante, "suponha que eu risque esse fósforo, acenda meu cachimbo e jogue o palito aqui na grama — a grama poderia pegar fogo feito um pavio. E enquanto eu controlo as chamas em frente, elas poderiam evadir-se e correr por trás, até tomar aquele arbusto de carvalho-veneno. Antes que eu o alcançasse, ele estaria em queimado. Além do arbusto, vejo um pinheiro cheio de musgos e aquilo também se incendiaria instantaneamente até o mais alto galho. E a chama daquela enorme tocha — como o vento alísio a tomaria e a brandaria através da floresta inflamável! Eu ouço o troar dessa corredeira junto com as vozes do vento e do fogo, e vejo-me a galopar pela minha alma. E a conflagração, voando, persegue-me e ultrapassa-me através das colinas. Eu vejo esta pobre floresta a queimar por dias, o gado torrado, e as nascentes ressecadas; os fazendeiros arruinados e seus filhos abandonados pelo mundo. Que mundo está em suspense nesse momento!"
Então, ele riscou o fósforo, que não se acendeu.
"Graças a Deus!", disse o mercador e guardou o cachimbo em seu bolso.
— Robert Louis Stevenson, Fables [Fábulas], Longman's Magazine (Agosto de 1895)
Moral da história: não existem queimadas controladas nem cacimbos da paz. É melhor parar de fumar já, por que o mundo já está mais quente do que no tempo do Stevenson.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Um aniversário de presente
Em 1891, Robert Louis Stevenson recebeu uma carta de uma garotinha de Vermont chamada Annie Ide. Em sua cartinha, Annie dizia que fazia aniversário no Natal e, por isso mesmo, raramente recebia presentes de aniversário. O autor de A Ilha do Tesouro respondeu com um verdadeiro decreto:
Eu, Robert Louis Stevenson,
considerando que Miss Annie H. Ide, nascida, sem qualquer razão, no dia de Natal; que portanto injustamente a ela foi negado o consolo e o bem de um aniversário apropriado; que eu, o dito Robert Louis Stevenson, alcancei uma idade na qual nunca se menciona [o aniversário], e que eu não tenho agora nenhum uso para minha data de nascimento em nenhuma descrição.
Eu TRANSFIRO A PARTIR DE AGORA, para a supracitada Annie H. Hide INTEIRAMENTE TODOS os meus direitos e privilégios sobre o dia treze de Novembro, antes minha data de nascimento, a qual aqui, a partir de agora, é a data de nascimento da dita Annie H. Ide para que ela mantenha, exerça e aproveite o mesmo na maneira de costume, a saber, a prática do bem-vestir, o comer de ricas refeições, e o receber presentes, cumprimentos, cópias de versos, de acordo com a maneira de nossos ancestrais.
Como condições, Stevenson apenas exigiu que ela adicionasse Louisa ao nome dela, "pelo menos privativamente" e que ela usasse o aniversário "com moderação e humanidade". Ele explicou que, se ela faltasse com qualquer dessas condições, o aniversário seria doado ao Presidente dos Estados Unidos. Até onde se sabe, ela não falhou.
No entanto, a menina Annie certamente já morreu; Stevenson também. E o status da doação do aniversário, como fica? O presidente dos Estados Unidos poderia reclamar a data, mas ele não precisa disso. Tampouco os herdeiros de Stevenson. Uma saída útil seria colocá-la em domínio público e, assim, resolver os problemas (e os traumas) de quem nasce em datas ingratas — como o 25 de dezembro ou o 29 de fevereiro.
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domingo, 4 de julho de 2010
Contos Traduzidos — "O Dólar de John Jones"
Já faz um bom tempo que eu falei por aqui sobre um estranho escritor chamado Harry Stephen Keeler. Na ocasião, eu havia prometido traduzir e publicar um dos contos dele. Pois bem, como o conto já estava traduzido há um bom tempo, agora é hora de publicá-lo.
Um dos primeiros trabalhos de Keeler, O dólar de John Jones foi publicado originalmente na Amazing Stories em abril de 1927, o que também o torna um dos mais antigos contos de Ficção Científica moderna. O conto começa com um simples depósito de um dólar em uma conta poupança — mas as consequências desse modesto investimento acabam mudando completamente o rumo da história humana. A seguir, o texto completo do conto, enriquecido com notas de tradução.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
Dickens ficou sem tempo
![]() |
| Charles Dickens após ser assaltado |
Para o autor de Oliver Twist, o preço da fama não foi tão ruim quanto pareceu à primeira vista:
Charles Dickens, durante uma de suas visitas a Paris, teve seu relógio roubado no teatro. Este relógio havia-lhe sido presenteado pela Rainha [Vitória] e era, portanto, muito estimado por ele. Ao voltar para o hotel, Dickens encontrou um pequeno pacote, no qual havia a seguinte nota:
"Sir, - Espero pelo vosso perdão, mas eu asseguro-vos que eu pensei estar lidando com um francês e não com um compatriota. Ao perceber meu erro, apresso-me para repará-lo tanto quanto me é possível e devolvo aqui o relógio que roubei de vós. Eu imploro-vos que aceite a reverência do meu respeito, e creia-me, meu caro compatriota. Vosso humilde e obediente servo,
UM PICKPOCKET [UM BATE-CARTEIRAS]"
— The Dickensian, setembro de 1906
Se fosse um brasileiro roubando um relógio que Pedro II tivesse dado a Machado de Assis, a joia acabaria no mercado negro mesmo. Por que um ladrão brasileiro jamais reconheceria um dos maiores nomes de nossa literatura. E, mesmo que o reconhecesse, não teria o menor pudor em ganhar uma grande quantia às custas disso.
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sábado, 19 de junho de 2010
Loucura, loucura, loucura
Na foto, dois dos maiores loucos do século XIX: Mark Twain e Nikola Tesla. Os dois eram amigos muito próximos e enquanto Twain escrevia literatura infanto-juvenil realista e cheia de sátiras sociais (loucura!), Tesla desenvolvia todo o sistema elétrico que existe até hoje. Mas a maior loucura de Tesla foi a transmissão de eletricidade sem fio, coisa que muitos ainda consideram uma loucura.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
O último dia de Saramago
| José Saramago foi o único autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Saramago no documentário "Língua - Vidas em Português" (2004) |
José Saramago deixou de viver hoje, aos 87 anos de idade em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Não é apenas a literatura portuguesa que perde um grande nome — o maior de nossa era. O mundo também perde um grande homem, um dos mais lúcidos pensadores dos séculos XX e XXI. Saramago não temia a morte; sabia que não há diferença substancial entre o nascimento e o falecimento. Antes do nascimento e depois da morte simplesmente não se existe. Certamente, ele não desejaria luto nem discursos como esse em seu funeral. Mas é impossível deixar passar a passagem de um homem tão importante, que teve uma obra que revela a humanidade em seu estado mais profundo e mais verdadeiro.
Saramago passa. Mas seus pensamentos vão ficar para sempre:
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quarta-feira, 26 de maio de 2010
Topa tudo pela fama
Prosper Mérimée tornou-se conhecido como o autor de Carmen, a novela que inspirou a famosa ópera de Bizet. Ele começou sua carreira como um escritor desconhecido na Paris da década de 20 — de 1820 —, época em que a literatura hispânica estava na moda entre os franceses. Já que ninguém ligava para ele, por que não ousar? Mérimée publicou Le Théâtre de Clara Gazul, uma falsa coletânea de peças teatrais supostamente escritas por uma atriz espanhola.
O truque funcionou muito bem: as peças foram bem recebidas e a carreira de Mérimée deslanchou. Mas algo intriga os fãs até hoje. Se Clara Gazul nunca existiu, quem é a bela espanhola retratada na folha de rosto do livro?
| É uma cilada, Bizet! |
A dama não é uma dama coisa nenhuma! É o próprio Mérimée, travestido.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010
Opinião de um cão sobre "Ratos e Homens"
Em 1936, Toby, o cãozinho de John Steinbeck transformou metade do manuscrito de Of Mice and Men [Ratos e Homens] em confete. “Eu fiquei bastante bravo mas o pequeno e pobre companheiro pode ter agido criticamente”, escreveu Steinbeck numa carta a um amigo. “Eu não quero arruinar um bom cachorro por causa de um manuscrito que nem tenho certeza se é assim tão bom.”
Em dois meses, ele refez todo o trabalho e achou que o cãozinho estava certo. “Não tenho certeza se Toby sabia o que estava fazendo quando comeu o primeiro rascunho.”, concluiu o autor de As Vinhas da Ira. “Eu promovi Toby-cão a tenente-coronel em se tratando de literatura.”
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Os gatos de Hemingway
A casa onde viveu Ernest Hemingway (à esq.), em Key West, na Flórida, tem uma colônia de gatos. Mas não são gatos comuns — são gatos com seis dedos.
Um dos maiores escritores do século XX, Hemingway herdou de marinheiros sua paixão por gatos polidáctilos. Bichanos com dedos extras eram considerados animais de boa sorte no mar, graças às suas habilidades superiores na escalada e na caça de roedores a bordo.
Quando o autor de O Velho e o Mar recebeu um gato de seis dedos de um capitão de navio, incluiu os descendentes do felino hexadáctilo em seu testamento. Hoje existem cerca de 60 gatos na casa do escritor — e quase a metade tem dedos sobrando.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Aquela peça, a “escocesa”…
| Montagem daquela peça escocesa feita em 1855 |
Num teatro, os atores não costumam se referir à Macbeth diretamente. Em vez do título, referem-se à obra de Shakespeare como "a peça escocesa". É uma tradicional superstição teatral, baseada na crença de que, se os atores disserem Macbeth nos bastidores, as bruxas amaldiçoariam as montagens da peça com acidentes fatais. A tradição da "peça escocesa" começou logo após a primeira montagem, quando um ator teria sido esfaqueado com uma adaga de verdade confundida com uma cenográfica.
Para evitar possíveis desastres, qualquer um que diga o verdadeiro nome da peça num teatro deve sair, cuspir ou rodar três vezes, gritar um palavrão e ser convidado antes de entrar novamente.
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quinta-feira, 1 de abril de 2010
Pseudo-Poe
Convencido de que o público aceitaria qualquer coisa de um autor famoso, James Whitcomb Riley (1849-1916, à esquerda) apostou com seus amigos que poderia provar sua teoria. Ele compôs um poema no estilo de Edgard Allan Poe (1809-1849) chamado "Leonanie" e publicou-o no jornal Despatch, da cidade de Kokono, Indiana, em 2 de agosto de 1877:
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domingo, 28 de março de 2010
"Dez dias que abalaram o mundo"
Pelas páginas do livro desfilam Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lênin, Leon Trotsky e, de maneira bastante discreta, Ióssif Vissariónovich Djugashvíli, o futuro Stálin. Os líderes do Governo Provisório, Alexander Kerensky, o premiê derrubado, e Levr Kornilov, um militar que tentara fortalecer o governo provisório com um golpe, são demonizados com a pecha de “anti-revolucionários”.
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