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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A carta da Martha

Em julho de 1833, George Harry Gray, sexto conde de Stamford e segundo conde de Herrington (1765-1845) recebeu uma carta que começava assim:

É com vergonha, com indescritível vergonha que eu presumo me dirigir a Vossa Senhoria com estas linhas. Mas, tendo conhecimento da pessoa de Vossa Senhoria desde minha infância e lembrando-me dos relatos do caráter empático e benevolente de Vossa Senhoria, eu estou prestes a confiar um assunto de grande infortúnio à honra e segredo de Vossa Senhoria.

Assinada por “Martha Turner”, a carta prosseguia, contando que ela havia abandonado sua mãe viúva no Natal por causa de um homem que lhe prometera se casar com ela [com “Martha”], mas que acabou abandonando-a, deixando-a “arruínada e perdida” (grifos originais). Ela, então, pedia “uma pequena assistência pecuniária”, implorando ao duplo conde para resgatá-la “da completa destruição” e de “uma morte miserável”.

Só que, da mesma maneira que o spammer nigeriano, Martha Turner simplesmente não existia. Seu apelo foi inteiramente inventado por Joseph Underwood, que era apenas mais um entre cerca de 250 missivistas impostores que enganavam as classes abastadas da Inglaterra dos anos 1830. Underwood escreveu a carta de Martha em uma letra (aparentemente) feminina. Para reforçar o golpe, ele também forjou mensagens do suposto sedutor da moça e de um clérigo que corroborava o relato trágico de Miss Turner.

Underwood chegou a ganhar quase mil libras por ano com o golpe da carta da Martha. Descoberto diversas vezes, o impostor passou por vários períodos de detenção. Em 1838, John Grant, outra vítima de Underwood, escreveu: 

Se a faculdade de criação é um dos principais atributos de [um] gênio, Underwood era um gênio de primeira magnitude. A força e a inspiração de seus fatos imaginativos eram notáveis. Tivesse ele voltado sua atenção à redação de romances, em vez da profissão de missivista impostor, não há o que dizer sobre quão alto estaria seu nome nesse momento na literatura corrente no país. 

Underwood, infelizmente, não deve ter visto esse conselho: ele faleceu na prisão de Coldbath Fields, em Clerkenwell, perto de Londres, naquele mesmo ano de 1838. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Trollagem literária

Em 1917, o escritor William George Jordan — com o perdão da expressão — ficou de saco cheio de Gustave Simonson, um colega que também era membro do Clube de Autores de Nova York. Ao que tudo indica, Simonson era arrogante e pedante e estava convencido de que sabia tudo o que era possível saber sobre literatura russa. Então, um dia, Jordan procurou Simonson para saber sua opinião sobre Vyodne, uma novela inexistente do igualmente inexistente autor russo Feodor Larrovitch (1817-1881, à dir.). Simonson, talvez desconcertado, respondeu que não conhecia nada a respeito.

Isso poderia ser o bastante para qualquer um, mas foi só o começo de uma longa vingança literária. Jordan pediu ajuda a outro membro do clube, que apresentou uma palestra sobre Larronovitch e ofereceu um jantar em sua honra. A homenagem foi completa, com louvores e declamação de pseudopoesias do pseudoautor. O evento foi divulgado pela imprensa, onde Jordan também tinha seus contatos. Ele conseguiu convencer alguns jornalistas a escrever vagos artigos louvando Larrovitch. 

No ano seguinte, a conspiração chegou a ponto de publicar um livro, Feodor Vladimir Larrovitch: An Appreciation of His Life and Works [Feodor Vladimir Larrovitch: uma apreciação de sua vida e obra], que incluía um perfil biográfico, críticas literárias, cartas, poemas e um ensaio de Titus Munson Coan relembrando suas conversas com o “grande” autor russo. O livro tem retratos dos pais de Larrovicht, dele, de sua tumba e até a reprodução de um manuscrito original! Tudo era forjado, mas foi o que bastou para que Simonson se convencesse da veracidade da vida e obra de Larronovitch e, talvez orgulhosamente, escrevesse um artigo sobre ele nos anais do clube.

Essa trollagem toda foi logo esquecida, pois os envolvidos não tardaram a morrer: Coan, em 1921; Jordan, em 1926. Tudo teria passado por verdade até hoje, não fosse — por incrível que pareça — a intervenção de um jornalista esportivo (!!) da Suécia (!!!!), em 1932. Ele percebeu inconsistências na grafia do nome de Larrovitch (que vocês já devem ter percebido) em tudo que havia sido publicado sobre o suposto autor russo e escreveu ao Clube de Autores de Nova York, que admitiu a falsidade da história.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Quando menos se espera


Após uma década de experiências jornalísticas frustradas no interior dos Estados Unidos, Lyman Frank Baum tinha 41 anos de idade quando finalmente conseguiu publicar seu primeiro livro, Mother Goose in Prose [Mamãe Ganso em Prosa], em 1897. No exemplar que deu de presente à sua irmã, ele escreveu uma confissão:
Quando eu era jovem, eu queria muito escrever uma grande novela que me trouxesse fama. Agora que estou ficando velho, meu primeiro livro foi escrito para divertir crianças. Afora minha evidente inabilidade para fazer qualquer coisa “grande”, eu aprendi a ver a fama como um fogo-fátuo que, quando pega, não vale nada. Mas agradar uma criança é uma coisa doce e amável, que aquece o coração e traz sua própria recompensa.

Três anos mais tarde, a fama iluminaria Frank Baum com uma chama bastante duradoura e com outro livro “escrito para divertir crianças”. Só que esse livro acabaria se tornando “uma grande novela” (e, eventualmente, um grande filme): O Mágico de Oz.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

“Uma vida escondida”

À primeira vista, o livro que Montgomery Carmichael publicou em 1902 parece ser uma biografia bastante séria:
O testamento do meu amigo Philip Walshe deixou-me na posse de uma larga e extraordinária coleção de valiosos manuscritos e, ao mesmo tempo, legou-me uma tarefa difícil e nada delicada. Esses manuscritos formam a volumosa obra de seu pai, o finado Mr. John William Walshe, F.S.A., que faleceu no dia 2 de junho de 1900, aos 63 anos, em Assis, Úmbria, onde ele passou a segunda metade de sua vida. Mr. Walshe era bem conhecido entre os estudiosos como talvez a maior autoridade viva em matérias Franciscanas. De outro modo, ele não tinha fama alguma. O mundo, ocupado em seus eventos, não o conheceu.
Não se engane. A introdução séria e sóbria de The Life of John William Walshe é o retrato detalhado de um homem que nunca existiu. “Levou-me algum tempo para perceber que tudo isso” — escreveu um resenhista da já extinta revista americana The Dial — “é uma elaborada peça de mistificação e para lembrar que o nome de Walshe não figura em qualquer lista verdadeira de scholars Franciscanos, vivos ou mortos”.

O bibliotecário e escritor americano Edmund Lester Pearson (1880-1937) considera a obra “um dos mais inexplicáveis exemplos de hoax literário [...] [O livro] não contém um átomo de sátira, não era uma paródia e, até onde eu, pelo menos, pude descobrir por evidência interna ele é o que aparenta ser: uma sóbria e reverente biografia de um Inglês estabelecido na Itália, membro devoto da Igreja de Roma e estudante particularmente entusiasta e pio seguidor de São Francisco de Assis.”

E quanto ao autor? Carmichael era funcionário do serviço consular britânico na Itália e, um tanto obviamente, também publicou diversos livros de viagens europeus. Mas em relação a essa obra, ele nunca deu uma explicação. Carmichael apenas a considerava “a estória de uma vida escondida”. A minha hipótese é que Mr. Walshe era, em certo sentido, o próprio Carmichael: seria um caso pioneiro de heteronímia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Soneto ao Nada

Poema de Richard Porson, publicado na edição de 4 de março de 1814 do Morning Chronicle:
Misterioso Nada! Como hei-de mostrar
Vosso infome, infundado, ilocável vazio?
Nem forma, nem cor, nem som, nem tamanho traz.
Nem palavras ou dedos podem expressar vosso vozerio.

Mas embora não possamos vos comparar a algures,
Um milhar de coisas a vós podem se assemelhar.
E embora vós não estais com ninguém em nenhures,
Ainda assim, metade da Humanidade está a vos adorar.

Quantos volumes vossa história contém!
Quantas cabeças perseguem vossos poderosos ímpetos!
Quantas mãos laboriosas apenas uma porção de vós retém!
Quantos corpos se ocupam apenas com vossos projetos!

Os grandes, os orgulhosos, os vertiginosos, nada há-de dominar
E tudo — como meu soneto — em nada vai terminar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Literatura Médica


Quando o médico escocês John Armstrong (1709-1779) disse aos amigos que tinha planos de escrever um livro sobre A Arte de Preservar a Saúde todos devem ter achado uma boa ideia. O que ninguém esperava é que ele o escrevesse em versos brancos (a divisão dos versos foi mantida tal qual o original):
O lânguido estômago amaldiçoa até mesmo
A deliciosa gordura e todas as raças de óleo
Pois quanto mais oleoso, o alimento relaxa
Seu débil tônus. E a voraz linfa
(Doida para se incorporar em tudo que encontra)
Recatadamente ele mistura. E evita com escorregadias artimanhas
O cortejado abraço. Esse insolúvel óleo
Tão gentil, lento e lisonjeiro, em fluxos
De bile rançosa se esparrama: Quanto tumulto causa,
Quantos horrores levanta são nauseante para relatar.
Escolhei mantimentos enxutos, ó vós de jovial feitio!

Publicado em 1744, o poema continua assim, nessa toada, por 128 páginas dividas em quatro livros. O resultado é floreado demais para ser útil e ao mesmo tempo nauseabundo demais para ser inspirador. O Dr. Armstrong ainda insistiu mais um pouco em sua poesia mediocremente médica, mas não teve sucesso. Mas para ganhar a vida, ele teve que voltar a escrever apenas receitas: em 1760 ele foi contratado como médico pelo exército britânico que estava na Alemanha.

domingo, 23 de outubro de 2011

Capítulos Inééééééditos

Em 1950, um estudante de graduação de Stanford, Robert E. Young, percebeu que dois capítulos do romance Os Embaixadores, de Henry James (1843-1916), haviam sido invertidos em todas as edições americanas desde seu lançamento, em 1903.

“Várias discrepâncias nos fatos e no tempo”, escreveu o estudante universitário, “aparecem em uma leitura cuidadosa dos capítulos em sua presente ordem. Por outro lado, a reversão dos dois resultaria em uma completa eliminação de tais discrepâncias.”

A confusão se deve ao fato de que antes de ser publicado em livro, The Ambassadors já havia saído como folhetim na North American Review. No entanto, a revista não pôde publicar todos os capítulos por falta de espaço. Três capítulos permanceram [galvão] inééééééditos [/galvão] até a publicação em livro.

O problema aconteceu na inserção de um destes capítulos inéditos, que deveria entrar antes do capítulo 28 e não depois. Os dois capítulos foram publicados erroneamente em edições inglesas. Muitos editores americanos, pensando que a ordem fosse aquela mesma, simplesmente seguiram-na e mantiveram-na.

No entanto, quando o próprio James fez a revisão do texto americano em 1909 (que ficou conhecido como New York Edition), ele não encontrou nenhum erro. Sendo assim, não há versão definitiva para essa obra. Novas edições que usam como base a NYE passaram a trocar a ordem dos capítulos.

Henry James
O bibliógrafo Jerome McGann reabriu a questão em 1992. McGann duvida que James tenha errado em uma obra que ele revisou tão cuidadosamente. Ele explica as discrepâncias da seguinte forma: o começo do cap. 28 descreve um diálogo que vai ocorrer no futuro (relativo ao contexto da história) e que “aquela noite” citada no começo do cap. 29 refere-se não à noite recém-descrita no capítulo 28, mas a outra, mais anterior.

“O deslize é particularmente irônico”, escreveu Young após descobri-lo, “dado o fato que James considerava The Ambassadors como seu romance mais perfeitamente construído, como sua obra-prima.”

Intencional ou não, há um quê de interatividade nesse erro lítero-tipográfico: dependendo da edição, o leitor pode decidir a ordem em que quer ler um par de capítulos.

sábado, 15 de outubro de 2011

Patentes patéticas (nº 29)

Não existe coisa mais fofa e amável do que pais que leem para as crianças. É uma demonstração de carinho que pode ser inesquecível e cria um vínculo muito forte entre pais e filhos. Diria mesmo que isso é o equivalente cultural da amamentação.

Mas há pais por aí tão preocupados com a psicologia infantil que acham que devem manter contato visual com seus pimpolhos o tempo todo. Afinal, vai que os pequenos fiquem traumatizados e resolvem te matar pela herança um dia? Patrick T. Marshall, de Tipp City, Ohio, deve ser um desses pais superprotetores. Ele é o inventor de um “Método e aparelho para observação em via dupla durante a leitura” descrito da seguinte forma:
Um dispositivo especular anexável a um livro que permite ao leitor de um documento textual ver a expressões faciais do jovem adulto, criança, infante ou bebê que está ouvindo em íntima proximidade com o leitor. O ouvinte também pode ver os movimentos mecânicos (sic) dos lábios do leitor, acelerando o processo de aprendizado da leitura.

Além de um pequeno “material reflexivo” (a.k.a. espelho) que pode ser preso nas capas de “livros ou qualquer outro documento adequado”, o invento de Mr. Marshall pode contar opcionalmente com “uma luz ajustável que pode ser pivotalmente instalada no espelho do livro”. Mr. Marshall entrou com o pedido da patente em 3 de fevereiro de 2003. Praticamente dois anos mais tarde, em 8 de fevereiro de 2005, o Escritório de Patentes dos Estados Unidos, reconheceu seu invento e emitiu a patente de nº. 6.851.825. Ainda segundo a patente:
Muitos pais que leem para seus filhos antes de dormir não percebem todas as incríveis e maravilhosas expressões que suas crianças criam enquanto se lê para elas. Esse problema é resolvido quando a criança senta-se no colo do pai e com um livro e a invenção do espelho para livros presa à capa do livro. Então o pai ou o filho pode ajustar a posição do invento e do livro até que ambos possam ver a reflexão um do outro enquanto usam o espelho. O leitor agora está pronto a ler as páginas do livro enquanto olha periodicamente para o ouvinte. Similarmente, enquanto o leitor articula as palavras das páginas do livro ou revista, o ouvinte pode usar o espelho para correlacionar os movimentos labiais do leitor com o áudio das palavras que estão sendo faladas.

Note-se onde essa patente — aparentemente bem-intencionada — se torna patética: tanto a criança quanto o adulto só vão usar o espelho para se olhar “periodicamente”. Ora, quando se lê para alguém, qualquer um faz isso diretamente, sem precisar de espelhos. Só isso já torna inútil a criação de Mr. Marshall. E embora o aprendizado através da leitura labial possa ser importante em muitos casos, isso não se faz (pelo menos até onde eu sei) com o uso de espelhos.

domingo, 9 de outubro de 2011

Contos Traduzidos: “As duas faces de Hargraves”

Todo mundo sabe que um ator pode ser alguém que tem duas caras ou até mesmo dois escrúpulos. A princípio, essa é a situação do desconhecido ator Henry Hopkings Hargraves diante de seus colegas de pensão em Washington. Quem mais desconfia dele, porém, é o Major Pendleton Talbot, a figura mais exótica da pensão de Ms. Vardeman. No entanto, Mr. Hargraves adora aquele velho senhor do Alabama, cheio de Anedotas e Reminiscências. Tanto que, no momento em que Talbot mais precisa de ajuda — embora seu orgulho sulista não o admita — é Hargraves quem lhe estende a mão. Nem que, para isso, ele tenha que mostrar sua outra face.

As duas faces de Hargraves é o retrato do confronto ente duas éticas conflitantes: a do jovem artista urbano e a do velho escravocrata rural. Este conto de O. Henry é o protótipo do estilo do autor. Trata-se de uma observação aguda da sociedade americana de sua época, com muita ironia, muito wit e, acima de tudo, cheia de reviravoltas. 

Esta tradução, enriquecida com notas e perfis biográficos do autor e deste tradutor, está disponível para leitura e download no Google Docs.

domingo, 25 de setembro de 2011

O avô das séries americanas



O que têm em comum Arthur M. Winsfield, Franklin W. Dixon, Carolyn Keene, Laura Lee Hope e Victor Appleton? Todos esses autores são criações de Edward Stratemeyer (1862-1930), um escritor de Newark, Nova Jersey que escreveu (ou teria escrito) cerca de 1.300 títulos. Entre suas principais obras, estão as séries The Hardy Boys, Nancy Drew Mystery Stories, The Bobbsey Twins, Tom Swift e Bomba, the Jungle Boy, considerados clássicos da literatura infanto-juvenil norte-americana. 

Essa literatura infanto-juvenil se tornou bem-sucedida por priorizar o entretenimento em lugar da moralização — além, é claro, da forma como foi produzida. Por sua influência, Stratemeyer pode ser considerado o avô da cultura de séries que caracteriza a TV dos Estados Unidos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Clube da Modéstia

O Clube da Modéstia é realmente modesto: 2 membros.

Em 1880, Mark Twain convidou William Dean Howells (1837-1920) para participar de um clube que acabara de fundar. Um clube no qual a “primeira & mais importante qualificação para ser filiado é a modéstia.”

“Até o momento, eu sou o único membro.” — explicou Twain em seu convite — “E como a modéstia requerida deve ser de um tipo deveras sério, o empreendimento pareceu por um tempo fadado a permanecer inoperante comigo, por falta de material adicional. Mas após refletir, eu cheguei à conclusão de que você é elegível.”

A resposta de Howells: “A única razão que me levou a não me filiar ao Modest Club é que eu sou modesto demais: ou seja, eu temo não ser modesto o bastante. [...] Se você pensa que eu não sou modesto demais, pode subscrever meu nome e eu tentarei pensar o mesmo de você.”

domingo, 21 de agosto de 2011

Láadan, a língua das mulheres


Após receber seu Ph.D. em linguística, Suzette Haden Elgin inventou a língua Láadan para um romance de ficção científica. Em termos literários, isso já não é novidade: das línguas élficas de O Senhor dos Anéis ao Klingon de Star Trek, dezenas de idiomas foram inventados na ficção moderna. Mas o que torna a Láadan única é que ela é uma linguagem feminina, por assim dizer. Foi criada especialmente para expressar as percepções das mulheres. Eis alguns vocábulos de Láadan, que, aliás, é autodefinida como a “linguagem da percepção”:

domingo, 14 de agosto de 2011

O Mistério da Cegueira Homérica


Em 1858, William Ewart Gladstone percebeu algo peculiar em Homero: as cores relatadas em suas obras parecem estranhas demais. Tanto o gado quanto o mar, por exemplo, são descritos como tendo a cor do vinho. As ovelhas são “violetas”, o mel é “verde” e, embora seja descrito como estrelado, amplo, grande, de ferro e de cobre, o céu nunca é azul. Gladstone conjecturou que “o órgão da cor e suas impressões eram apenas parcialmente desenvolvidos entre os gregos do período homérico”.

É uma hipótese bastante interessante, mas é igualmente improvável — afinal, como provar que uma população, quiçá a humanidade inteira foi daltônica em certa época? William Gladstone (1809-1898) pode ter sido facilmente enganado pela noção da Terra jovem, i.e., a teoria de que o planeta (e tudo que nele existe) tem mais ou menos seis mil anos. Mesmo que não fosse criacionista, o futuro premiê do Reino Unido por quatro vezes deve ter pensado que os homens de poucos milênios atrás eram tão primitivos que mal distinguiriam as cores.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dead-line (literalmente)


Em seus primeiros dias como repórter no Columbus Dispatch, onde trabalhou entre 1921 e 1924, o futuro escritor e cartunista americano James Thurber (1894-1961) recebeu um importante conselho de seu editor: “escreva leads dramáticos para suas matérias.”

Com o conselho em mente, Thurber escreveu a seguinte introdução para um caso de assassinato: “Morto. Assim estava o homem quando o encontraram com uma faca nas costas às 4 da tarde em frente ao Riley’s Saloon na esquina das ruas 52 e 12.”

Jornalismo literário é para os fracos.

domingo, 7 de agosto de 2011

Mini-Holmes


Com apenas 503 palavras (em inglês e 469 nesta tradução que eu fiz), o conto a seguir é a mais curta história de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyle (1859-1930). O miniconto foi feito para ser publicado em um minilivro de 1,5 polegada [3,81 cm] de altura e que seria parte da biblioteca de uma casa de bonecas da Rainha Mary (1867-1953), esposa de George V (1865-1936, regnabat 1910-1936):

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Em uma palavra [64]

ileísmo
s.m. o uso, muitas vezes impróprio ou afetado, da terceira pessoa do singular (ele) ou do próprio nome em lugar da primeira pessoa do singular (eu). “Dalí é imortal e não morrerá” (Salvador Dalí). Ileísta, adj. aquele que pratica ileísmo. [do latim ille = ele + -ismo, como em egoísmo]

Outros ileístas famosos são: Júlio César, Charles de Gaulle, Paulo Maluf, Anthony Garotinho e Bob Dole na política e Pelé e Maradona no esporte. Na ficção, o Sr. Miyagi, em Karate Kid (ocasionalmente), Elmo, em Vila Sésamo, Hulk e Dr. Doom, personagens da Marvel, Lord Voldemort, em Harry Potter e Gollum, em O Senhor dos Anéis.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

J.J. Sylvester, o matemático-poeta

James Joseph Sylvester (1814-1897) era um brilhante matemático inglês mas, de acordo com diversas fontes, também foi um poeta de pé quebrado. O Dictionary of American Biography [Dicionário de Biografia Americana] informa delicadamente que “a maioria dos versos originais de Sylvester mostravam mais ingenuidade que senso poético.”

O que lhe faltava mesmo era variedade. Um livro de poesias de Sylvester, Spring's Debut: a Town Idyll, contém 113 versos — todos eles rimando com in. Felizmente, tal livro foi impresso apenas para seu autor. Pior ainda foi considerado “Rosalind”, um poema de 400 versos no qual todos rimam com o nome da personagem-título. 

Em Teaching and History of Mathematics in the United States [Ensino e História da Matemática nos Estados Unidos], Florian Cajori conta que certa vez Sylvester foi convidado a recitar “Rosalind” no Instituto Peabody, em Baltimore, onde o matemático poeta trabalhava como professor no começo dos anos 1880.

Entretanto, J.J. começou lendo todas as notas de rodapé explicativas — para não ter que interromper o ritmo do poema — e percebeu, tarde demais, que apenas essa introdução havia lhe tomado uma hora e meia. “Depois,” conclui Cajori, “ele leu o poema em si para o que sobrara da sua audiência.”

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Manual de Redação de Hemingway

O jovem Hemingway em 1916, pouco antes de entrar
pra essa vida perdida de jornalista-escritor-lobo-do-mar.

Excertos do Star Copy Style, o manual de redação do Kansas City Star, onde Ernest Hemingway começou sua breve carreira jornalística em 1917 (evidentemente, algumas dicas fazem mais sentido em inglês):


  • Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use Inglês vigoroso. Seja positivo, não negativo.
  • Elimine toda palavra supérflua: escreva “Velório será Terça, às 2 horas” e não “O velório será realizado às 2 horas na Terça”. “Ele disse” é melhor que “No curso da conversação, ele disse”.
  • Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, etc.
  • Tenha cuidado com a palavra “also” [também; além disso]. Ela geralmente modifica a palavra mais próxima. “He, also, went” significa “He, too, went” [Ele, também, foi.] “He went also” significa que ele foi, além de tomar alguma outra atitude.
  • Tenha cuidado com a palavra “only” [só; apenas; somente]. “He only had $10” [Só ele tinha $10] significa que ele era o único dono de tal quantia; “He had only $10” significa que dez era todo o dinheiro que ele possuía.
  • Uma citação longa antes de introduzir o autor pode ser confusa e é ruim em qualquer situação. Interrompa a citação tão cedo quanto puder: “‘Eu gostaria’, disse o orador, ‘de informar o leitor que serei tão breve quanto possível.’”


“Aquelas”, lembrou Hemingway a um repórter em 1940, “foram as melhores regras que eu aprendi para o negócio de escrever. Eu nunca as esqueci. Nenhum homem com qualquer talento, que sente e escreve verdadeiramente sobre o que está tentando dizer, pode deixar de escrever bem se sergui-las.”

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Otimismo de Dickens

Em certa ocasião, Charles Dickens discutia sua teoria de que quaisquer que fossem as provas e as dificuldades da estrada da vida, sempre haveria algo pelo qual um homem deveria ser grato. “Permita-me prová-lo com uma história”, pediu Dickens, acrescentando que “Dois homens estavam para ser enforcados em Newgate após serem condenados por assassinato. A manhã chegara; a hora final se aproximava: o sino [da Igreja] do Santo Sepulcro começou a dobrar, os condenados foram enfileirados, a procissão se formou e avançava para o momento fatal. As cordas foram enlaçadas nos pescoços dos pobres homens. Havia milhares de assistentes de ambos os sexos, de todas as idades; homens, mulheres e crianças diante do patíbulo. Então, de súbito, um touro que estava sendo conduzido a Smithfield partiu sua corda, e, balançando seus chifres para lá e para cá, jogava as pessoas por todos os lados. Diante disso, um dos condendados, voltando-se para seu companheiro igualmente desafortunado, observou: ‘Viu, Jack, que bom que não estamos na multidão!’” — J. B. Mc Clure, Entertaining Anecdotes from Every Source Avaiable [Anedotas Divertidas, de todas as fontes disponíveis], 1880

sexta-feira, 10 de junho de 2011

“A mais beijada de todos os tempos”

No fim da década de 1880, o corpo de uma garota de 16 anos foi encontrado no Rio Sena, em Paris. Sem sinais de violência, o cadáver seria de uma jovem suicida. Mas ela era tão bela e tinha um sorriso tão enigmático que depois da autópsia, um legista fez uma máscara mortuária do rosto dela.

Na romântica atmosfera da Europa da belle époque, a face da anônima moça suicida — que passou a ser chamada de L'Inconnue de la Seine, a Desconhecida do Sena — se tornou um ideal de beleza feminina. Em Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge [Os Cadernos de Malte Laurids Brigge], o protagonista do único romance de Rainier Maria Rilke (1875-1926) escreve: “O mouleur [modelador], em cuja loja passo todo dia, tem um busto de gesso em cada lado de sua porta. [Um é] a face da jovem mulher afogada, da qual tiraram um molde no necrotério, pois era bela e sorria, sorria tão misteriosamente...”

Ironicamente, as feições da garota desconhecida foram usadas em 1958 para modelar a boneca usada no treinamento de primeiros-socorros, conhecida como Rescue Anne. Embora a identidade da moça e os motivos que a levaram ao suicídio ainda sejam um mistério, diz-se que ela se tornou “a mais beijada de todos os tempos” pois milhares de estudantes já treinaram a respiração boca-a-boca em seus lábios.

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