Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador ceticismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ceticismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Incidente de Kersey

Kersey em 1957. Aquarela de Jack Merriot.
Pensando bem, aquele silêncio era mesmo uma coisa muito estranha: os sinos das igrejas pararam de tocar e até os patos se calaram e ficaram quietos no pequeno riacho no começo da rua principal enquanto o trio de cadetes navais se aproximava do vilarejo. Mais tarde, segundo a recordação dos garotos, até o canto outonal de um pássaro de desvaneceu à medida que eles se aproximavam das primeiras casas. Nenhuma folha se movia nas árvores que, aliás, pareciam não ter sombras. Até mesmo o vento parecia ter deixado de existir.

A rua em si estava bem deserta. Isso não seria surpresa numa manhã de domingo de 1957, ainda mais no coração rural da Inglaterra. No entanto, mesmo os mais remotos vilarejos britânicos já mostravam então sinais de modernidade — carros estacionados nas calçadas, linhas telefônicas suspensas ao lado das ruas e antenas espalhadas pelos tetos. Mas não havia nada disso naquela vila. De fato, todas as casas daquela rua pareciam antiquíssimas: eram grosseiras, com estruturas de madeira, e “quase medievais em aparência”, pensava um dos garotos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A anomalia da foto C-S11-32W071-03


Em 1976, uma foto de satélite da NASA, de número C-S11-32W071-03, revelou algo bastante incomum na densa floresta do sudeste do Peru: objetos piramidescos, alinhados em duas fileiras quase perfeitas. Seria aquele o esconderijo de incas-venusianos?

Aquilo, fosse o que fosse, tinha que ser nomeado. Afinal, não seria muito prático ficar usando “anomalia da foto C-S11-32W071-03” nas discussões.  Os entusiastas dos mistérios sul-americanos chamaram-nas de pirâmides de Paratoari (ou pirâmides de Pantiacolla; os crentes, para variar, discordavam sobre os detalhes). Os céticos simplesmente se referiam àquilo como os “pontos”. Entretanto, como quase todas as febres dos anos 1970, esse mistério da selva peruana acabou esquecido por um bom tempo.

Foi somente em 1996 que Gregory Deyermenjian, explorador e psicólogo norte-americano decidiu montar uma expedição e descobrir de uma vez por todas o que eram (ou não eram) as “pirâmides”. Acompanhado dos peruanos Paulino Mamani, Dante Núñez del Prado, Fernando Neuenschwander, Ignacio Mamani e dois índios, Deyermenjian se embrenhou na selva peruana. Foram os primeiros a chegar naquele local. O americano já era um experiente explorador e encontrou diversas evidências de ocupação inca na área: petroglifos, estradas pavimentadas (a.k.a. peabirus) e plataformas. Mas nada das “pirâmides”.

Porém, em uma investigação mais minuciosa, Deyermenjian encontrou algo e percebeu que aquilo não poderia ter sido feito por mãos humanas (muito menos incas-venusianas). O que ele encontrou era nada menos que uma formação geológica natural, as serras de cume truncado de arenito (em inglês, sandstone truncated spur). São apenas falhas de origem glacial ou tectônica com a surpreendente e ilusória forma de uma pirâmide.

Mesmo com o mito das pirâmides de Paratoari detonado, o interesse sobre a área e uma possível cidade perdida ressurgiu em 2001. Naquele ano, o arqueólogo italiano Mario Polia alegou ter encontrado documentos nos arquivos dos jesuítas em Roma. Segundo Polia, um missionário relatava a existência de uma cidade inca conhecida como Paititi naquela área. Faltava apenas descobrir as evidências físicas. Um “forte” chegou a ser descoberto em 2007 mas, como as pirâmides, também não passava de uma extravagância geológica feita de arenito.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Mosca Supersônica de Townsend

O Cheetah (ou Guepardo) pode alcançar velocidades de mais de 70 milhas por hora [112 km/h]. Em um mergulho, o Falcão-Peregrino pode chegar a 200 mph [322 km/h]. Mas, em 1927, o entomologista Charles Townsend (1859-1944) estimou que uma espécie de mosca-varejeira que ele observou no Novo México voaria a 400 jardas [365 metros] por segundo — o que equivale a 818 mph [1316 km/h]. Seria o suficiente não apenas para ultrapassar os dois animais mais velozes mas a própria barreira do som: 1226 km/h.

Por mais incrível que pareça, o suposto recorde de velocidade animal resitiu por longos 11 anos. Só caiu em 1938, quando o químico Irving Langmuir (1881-1957) detonou a estimativa de Townsend em um minucioso artigo publicado na Science. Entre outras coisas mais óbvias, Mr. Langmuir — laureado com o Nobel de Química em 1932 — apontava os seguintes contras para o recorde da varejeira:

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Fotógrafo-fantasma

Esta é Mary Todd Lincoln, viúva de Abraham Lincoln, com o fantasma de seu marido, em uma foto do “fotógrafo de espíritos”, Willianm H. Mumler.

Diz a história que Mary sentou-se para a foto no começo dos anos 1870, quando já havia se casado novamente e adotado o sobrenome Lindall. O fotógrafo não a conhecia até que a revelação mostrou o presidente-mártir.

É o que se diz por aí. Os céticos imediatamente acusaram Mumler de falsificação e ele não ganhou muitos amigos com sua carreira de “revelador” de fantasmas dos mortos da Guerra Civil para as famílias enlutadas.

Tal prática era de um nível tão baixo que até P.T. Barnum, dono de circo famoso por sua credulidade, testemunhou contra Mumler num julgamento de fraude em 1869. Ele foi inocentado, mas morreu miserável em 1884.

Talvez Mumler tenha realmente descoberto uma incrível e inovadora técnica... mas parece que seu próprio fantasma jamais foi fotografado.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Uma dívida no bolso e uma enguia na cabeça

Em dezembro de 1964, o fotógrafo francês Robert Le Serrec, sua esposa e um amigo australiano chamado Henk de Jong estavam passeando de barco na Baía Stonehaven, na Ilha de Hook em Queensland. De repente apareceu uma criatura enguiesca (adjetivo ad hoc), que passou pelo barco deles. Mergulhados na água (onde mais?), Le Serrec e de Jong haviam acabado de começar a filmagem submarina quando a coisa abriu a boca, assustando-os. O bicho tinha mais de 20 metros de comprimento.

Essa foi a história publicada por Le Serrec na edição de março de 1965 da revista Everyone. Mas isso não é tudo. A verdade é que Le Serrec não era um simples turista sortudo. Ele estava fugindo de seus credores franceses quando teve a brilhante ideia de fotografar um monstro marinho. As dívidas seriam pagas com o dinheiro das fotos vendidas para a imprensa. A ideia, porém, morreu na praia: o francês conseguiu publicar as fotos, mas não recebeu nada depois que seus verdadeiros planos foram descobertos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Hélène Smith, a médium marciana

Hélène Smith (1861-1929), evidentemente, não era uma vidente de verdade. Mas sua farsa era notavelmente ambiciosa. Ela dizia ser uma reencarnação de uma princesa hindu e de Maria Antonieta. 

Mas Mademoiselle Hélène Smith foi também um ícaro espiritualista. Não se contentando em ser uma reencarnação única de duas princesas de épocas e lugares distintos, ela decidiu voar mais alto. Hélène afirmava ser capaz de visitar Marte:

Paisagem de Marte (pintada pela própria Hélène Smith): eram os marcianos hindus?

sábado, 26 de março de 2011

Jovens Ainda

Menos pessoas vivem até a velhice

A surpreendente ideia de que a vida humana está se tornando mais curta e não mais longa foi recentemente sugerida pelo Professor C. H. Forsyth, do Darthmouth College. A teoria recebeu uma corroboração inesperada das estatísticas sobre pessoas com mais de 100 anos que vivem nas Ilhas Britânicas — recém-compiladas pelo Dr. Maurice Ernest, do Centenarian Club de Londres. Em 1881, segundo o Dr. Ernest, a Inglaterra possuía 141 centenários, a Escócia tinha 57 e os atuais territórios do Estado Livre Irlandês relatavam 566. Em 1921, ano com o mais recente censo completo, as respectivas quantias eram de 110 na Inglaterra, 35 na Escócia e aproximadamente 120 no Estado Livre Irlandês. Ressalta o Dr. Ernest que “possivelmente o grande número de centenários relatado nos anos anteriores pode ser devido a falsas alegações de longevidade extrema, feitas pelas próprias pessoas e que não eram verificadas tão cuidadosamente quanto agora.” Mulheres que passam dos cem parecem ser o dobro dos homens. — Modern Mechanix, Janeiro de 1930

sábado, 5 de março de 2011

Hamlet: Uma comédia de erros?

ham

Em 1889, Fredericka Raymond Beardsley Gilchrist propôs a teoria de que todo o sentido de Hamlet havia sido confundido por causa de um mero erro tipográfico. Na Cena V do Ato I, a sombra revela a Hamlet o adultério de sua mãe e o assassinato de seu pai. Então, Hamlet responde:
O all you host of heaven! O earth! what else?
And shall I couple hell? O fie!
[Ó legiões do céu! Ó terra! Que mais, ainda?
Invocarei o inferno?]
Mas Mrs. Gilchrist afirmava que o segundo verso deveria ser lido assim:

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Papagaio dos Atures

Em 1800, o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) explorava o Alto Orinoco na Amazônia venezuelana. Foi quando ouviu falar de uma tribo extinta recentemente, os Atures. A língua morrera com o último falante, mas Humboldt ainda pôde ouvi-la: “Naquela parte de nossa viagem, um velho papagaio nos foi apresentado em Maypures [...] e um fato digno de nota é que ‘eles não conseguiam entender o que ele dizia, por que ele falava a língua dos Atures.’”

Maipures, Venezuela

Humboldt tentou, na medida do possível, registrar foneticamente o que pareciam ser 40 palavras faladas pelo papagaio. Quase dois séculos mais tarde, em 1997, a língua Ature teria sido ouvida novamente. A artista Rachel Berwick alega ter ensinado dois papagaios da Amazônia a falar o que Humboldt havia registrado.

Mas há vários motivos para duvidar dessa história. Quando o naturalista alemão fez seu registro, não havia um alfabeto fonético internacional. Mesmo que os papagaios tenham sido treinados de acordo com os escritos de Humboldt, o “vocabulário” que ele registrou pode não ser muito fiel à suposta língua Ature.

Digo suposta língua por que o papagaio apresentado ao cientista alemão pode ter sido simplesmente um truque, uma forma de chamar a atenção e talvez até de obter dinheiro de forasteiros. Humboldt era um grande cientista, mas como ninguém é perfeito, ele pode ter sido enganado.

Para quem quer tirar as próprias conclusões, há uma gravação dos papagaios de Rachel Berwick aqui, mas não me parece muito convincente. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imóvel Fantasma

Das séries “bizarrices do judiciário americano” e “um pouco de ceticismo não faria mal a ninguém”:
Cuidado! Esta casa é assombrada - ou pelo menos foi isso que disse a Justiça nova-iorquina.

Se você quer vender uma casa em Nova York, é melhor certificar-se de que o imóvel não é assombrado antes de fechar o negócio. Pelo menos essa foi a decisão da Suprema Corte do Estado de Nova York no caso Stambovsky v. Ackley — a.k.a. “aquele caso Ghostbusters de 1991”.

Quando Jeffrey Stambovsky fez uma oferta para comprar a casa de Helen Ackley em Nyack, NY, ele não sabia que ela (a casa, não a Sra. Ackley) era assombrada. O assustado (e crédulo) comprador tentou desfazer o negócio após assinar o contrato, mas foi judicialmente impedido de desistir da compra.

Stambovsky recorreu da decisão. Durante o novo julgamento, a corte superior notou que, uma vez que a vendedora havia relatado a presença de fantasmas em uma fonte confiável — a revista Seleções do Reader's Digest —, ela não podia negar a existência deles diante do comprador. “Em termos legais,” determinou a justiça estadual de Nova York, “a casa é assombrada.”

E, por causa disso, um comprador não deveria descobir os fantasmas após a aquisição do imóvel. Os fantasmas seriam um “defeito” da casa e Mrs. Ackley seria culpada pela venda desonesta. Para a corte nova-iorquina, mesmo “a inspeção e busca mais meticulosas não revelariam a presença de poltergeists preliminarmente nem derrubariam a reputação fantasmagórica que a propriedade tem na comunidade.” 

Resultado: Stambovsky não sofreu qualquer dano, mas conseguiu sair de um contrato sem pagar multa. Moral da história: Caveat emptor [cave no vazio compre por sua conta e risco em latim juridiquês].

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Albert Herpin, o homem que nunca dormiu

Albert Herpin, nascido na França em 1862 e há quinze anos cocheiro nesta cidade, declara que ele não pregou os olhos nos últimos dez anos. Apesar disso, ele está em perfeita saúde e não parace sofrer qualquer desconforto por sua notável condição. Ele vai para a cama regularmente, mas diz que nunca fecha seus olhos ou nem por um instante perde consciência sobre tudo o que acontece à sua volta. Ao amanhecer, ele levanta-se renovado e pronto para outro dia de trabalho entre os cavalos. Ele diz que a mudança de posição e a escuridão do quarto parecem dar-lhe todo o descanso que ele quer.
— “Hasn't Slept in Ten Years” [“Não Durmo há Dez Anos”], New York Times, 29 de fevereiro de 1904
A matéria dizia que Herpin sofria de insônia desde o nascimento de seu primeiro filho, vinte anos antes. Pouco tempo depois, Mrs. Herpin morreu e o cocheiro passou a dormir cada vez menos, até ser incapaz de “pregar os olhos” durante a noite. Ele, diz-se, não tinha sequer uma cama. O cocheiro descansava em uma cadeira de balanço onde, não raro, ele varava a noite lendo jornais.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma prova de fé no tribunal



Em 1980, o canadense Morris Davie foi acusado de incendiar florestas e acabou detido pela Royal Canadian Mounted Police e submetido a um detector de mentiras.

Ele foi deixado sozinho em uma sala, e uma câmera escondida gravou o que ele fez: deixou-se cair de joelhos e disse “Oh, Deus, me tira dessa só mais uma vez.” A polícia apresentou a gravação, e essa frase em particular, como prova não apenas da culpa de Davie, mas de sua responsabilidade em outros crimes ambientais.

No julgamento, seu advogado (o de Davie, não o seu, se é que você tem um) protestou contra essa prova. O defensor argumentou que a prova apresentada violava a lei canadense, que proibia a interceptação de comunicações privadas “feitas sob circunstâncias na qual é razoável para o originador esperar que ela não será interceptada por qualquer pessoa além daquela intencionada pelo originador para recebê-la.”

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Trollagem Oitocentista

Ah, o tempo passa, os nomes mudam, mas algumas coisas continuam sempre iguais. Como a fé, o medo do fim-do-mundo e a facécia (a.k.a trollagem):
Um terror pânico do fim do mundo assaltou o bom povo de Leeds e das vizinhanças no ano de 1806, após as seguintes circunstâncias. Uma galinha, em uma vila próxima, botou ovos nos quais estavam inscritas as palavras “Cristo está vindo.” Muitos foram os que visitaram o local e, ao examinar esses ovos maravilhosos, se convenceram de que o dia do julgamento estava ao alcance das mãos. Como marinheiros numa tempestade, à espera do naufrágio, os crentes subitamente tornaram-se religiosos, oravam violentamente, e confessavam-se arrependidos de suas maldades. Mas um mexerico jogou um balde de água fria naquela religiosidade toda. Alguns gentlemen, ao ouvirem a história, saíram numa bela manhã e pegaram a pobre galinha pondo um de seus ovos milagrosos. Eles logo perceberam que, sem sombra de dúvida, os ovos haviam sido inscritos com tinta corrosiva e cruelmente forçados de volta para dentro do corpo da galinha. Com essa explicação, aqueles que oravam agora riam e o mundo continuou balançando tão alegremente quanto nos dias de antanho.
– Edmund Fillingham King, Ten Thousand Wonderful Things [Dez mil maravilhas], 1860
UPDATE (07/02): Após mais uma dose de ceticismo e mais algumas investigações, descobri a identidade do autor dessa trollagem. Bem, na verdade é uma autora — e uma bruxa

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Nem morta!

Devizes.market.cross

Na Praça do Mercado em Devizes, Wiltshire, Inglaterra, há a seguinte um monumento com a seguinte inscrição:
Na terça-feira, 25 de janeiro de 1753
RUTH PEARCE
de Potterne, neste Condado,
Fez um acordo com três outras mulheres para comprar um Saco de Trigo
no Mercado, cada qual pagando sua devida proporção    
pelo mesmo.
Uma dessas Mulheres, ao coletar as várias quotas    
de Dinheiro, descobriu uma deficiência e exigiu de
RUTH PEARCE a soma que faltava para 
completar o Montante.
RUTH PEARCE protestou que ela já pagara sua Parte,
e disse que gostaria de cair morta se não o
tivesse feito. — Ela imprudentemente repetiu esse terrível desejo; — quando, para a consternação e o terror da multidão
que a cercava, ela caiu instantaneamente e expirou,
com o dinheiro em questão em suas mãos.
Na época, John Clare, encarregado de investigar a morte de Ruth Pearce, acreditou na história e concluiu que ela “caiu morta pela vingança de Deus”. Não seria surpresa se, com a aproximação entre Católicos e Anglicanos, Ruth Pearce virasse a santa padroeira dos mão-de-vaca. Falando sério, Pearce pode ser apenas uma personagem folclórica, coisa que toda cidadezinha tem para atrair turistas.

Devizes é uma tradicional cidade-mercado e os mercadores sempre tiveram grande influência por lá. Assim, a história pode ter sido inventada para assustar os inadimplentes numa época em que não existiam serviços de proteção ao crédito (aka Serasa).

Mesmo que Ruth Pearce tenha sido uma personagem real, a morte dela não tem nada de sobrenatural. Ela simplesmente pode ter tido um enfarte ou uma morte súbita.

domingo, 24 de outubro de 2010

Uma história natural dos 10 mandamentos

Thompson Seton queria provar que os 10 mandamentos "não são um conjunto de regras arbitrárias",
mas a "base do comportamento de todos os animais superiores." Ele não conseguiu.

Pioneiro do escotismo, o naturalista escocês naturalizado americano Ernest Thompson Seton (1860-1946) amava tanto a Deus quanto aos animais. Por isso, em 1907, ele escreveu um livro para provar que, como também são filhos de Deus, os animais também seguem os 10 mandamentos:

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Montaigne e a força do hábito


Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.

— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
Estou lendo, ainda que lentamente, Montaigne. À parte sua inevitável linguagem quinhentista e as diversas citações latinas e até gregas, achei Montaigne muito parecido com um blogueiro. Seus escritos foram originalmente criados apenas como uma espécie de diário, de auto-retrato de seu pensamento.

Com uma ampla gama de temas — do hábito de assoar o nariz aos índios da América e à educação das crianças — exemplificados por experiências do autor ou de conhecidos seus, os Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) foram inovadores justamente por sua diversidade e sua brevidade (em relação aos outros textos filosóficos da época). 

Os ensaios começaram a ser escritos em 1572, mas foram publicados pela primeira vez em dois volumes em 1580. Na segunda edição, em 1588, foram feitos inúmeros acréscimos e saiu um terceiro volume. A terceira edição, de 1595, já póstuma foi baseada em rascunhos manuscritos feitos por Montaigne em um exemplar de 1588.

Quanto à filosofia, Montaigne não cria uma escola de pensamento pois não é um moralista ou um doutrinador. Como se nota em seus Ensaios, ele preocupa-se mais em levantar perguntas do que dar respostas ou apresentar as coisas como certas ou erradas. Embora seja cristão, mantém-se cético diante de relatos de milagres, de misticismos e crendices. Igualmente, mostra-se bastante indiferente às divisões religiosas de sua época. Assim, ele pode ser considerado o pai do livre-pensamento moderno.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A história mais incrível da ‘Amazing Stories’

Amazing0647
"O Mistério Shaver: a mais
sensacional história real já
contada."
A pioneira revista de ficção científica Amazing Stories vivia, evidentemente, cheia de estórias incríveis. Mas o escritor Richard Sharpe Shaver insistia em afirmar que tudo o que escrevia era baseado em fatos reais. Entre 1943 e 1948, Shaver e Raymond A. Palmer, editor da revista, publicaram uma série de histórias — os Mistérios de Shaver. Eram contos ambientados em cidades construídas em cavernas, cheias de robôs malignos que seqüestravam seres humanos inocentes. O próprio Shaver afirmava ter sido prisioneiro durante vários anos.

Estranhamente, o resultado foi uma avalanche de cartas com relatos de experiências similares às de Shaver. Uma mulher, por exemplo, dizia ter sido abduzida de um porão em Paris para ser torturada e estuprada antes que bons robôs a salvassem. O "Shaver Mystery Club" [Clube de Mistério Shaver] começou a se espalhar por diversas cidades e a Amazing ganhou cerca de 50.000 novos assinantes.

Não muito tempo depois, as histórias incríveis da vida real e toda a sensação em torno delas foram sendo esquecidas — a nova sensação eram os igualmente misteriosos discos voadores —, mas os clubes de mistério resistiram até o fim dos anos 1950. Shaver dizia que os discos voadores que começavam a ser vistos eram prova da realidade de suas histórias. Apesar do incrível número de novos assinantes, muitos fãs da hard sci-fi da Amazing não gostaram nem um pouco da série, que estaria se afastando demais da realidade plausível.
richard_shaver
Richard Sharpe Shaver (1907-1975):
para muitos, ele é o criador
da mitologia ufológica do pós-guerra.

Tudo parece um grande golpe publicitário à la Guerra dos Mundos de Orson Welles. Mas a realidade pode ser mais estranha que a ficção. Na década de 1970, Shaver foi encontrado internado num hospício, pois sofria de esquizofrenia paranóide e era incapaz de discernir realidade de ficção. As cartas que relatava histórias parecidas eram ou de pessoas muito criativas, que levavam tudo na brincadeira ou, o que é mais provável, de pessoas como Shaver que se sentiram seguras o bastante para relatar seus inimigos imaginários. Mesmo internado, ele continuava afirmando a veracidade de suas histórias e dizia mais: certas rochas seriam livros escritos e ilustrados pelos Atlantes com métodos similares ao laser.

Shaver poderia ter sido um grande autor de Ficção Científica, mas sua imaginação foi longe demais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Critérios de Noticiabilidade na prática

Ou: como transformar uma má notícia em algo bom.

noticiabilidade

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A fé não resiste ao bolso

Não sei se essa história é verdadeira, mas ela me parece bem verossímil e é muito reveladora sobre a solidez da fé:
raio-igreja

Em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, um homem decidiu abrir um bar bem em frente a uma igreja. Incomodada, a igreja e sua congregação começou uma campanha para impedir a abertura do bar. A comunidade fez abaixo-assinados e orações diariamente contra o empreendimento etílico.

A construção foi adiante, mas a poucos dias da inauguração do bar, um fortíssimo raio caiu sobre ele, incendiando-o e destruindo-o completamente. O povo da igreja estava muito satisfeito com isso, até que o dono do bar decidiu agir. Ele entrou com um processo contra as autoridades da igreja, pedindo 2 milhões de dólares em indenizações. O argumento era de que as orações da comunidade, instigadas pelos líderes religiosos, foram a causa, direta ou indireta, da destruição do negócio.

Em resposta à corte judicial, a igreja negou veementemente toda a responsabilidade por qualquer ligação entre as orações e a destruição do bar. Em sua defesa, a igreja usou até mesmo o estudo que Benson fez em Harvard provando que orações intercessoras não têm nenhum efeito.

Durante o julgamento, o juiz deu uma olhada em toda a papelada reunida por cada parte e comentou: "Eu não sei o que vou decidir nesse caso, mas parece-me que temos um dono de bar que acredita no poder da oração e uma igreja e seus devotos que não acreditam."

Como se vê, tudo é muito genérico nessa história. Ela não cita locais, nem datas, nem nomes dos envolvidos e nem mesmo denominações religiosas. Parece até uma fábula (ou uma lenda urbana) inventada do nada por algum desocupado. Só que fábulas não dão o nome de um estudo científico que realmente existe: 

BENSON, Herbert et al. Study of the Therapeutic Effects of Intercessory Prayer (STEP) in cardiac bypass patients: A multicenter randomized trial of uncertainty and certainty of receiving intercessory prayer [Estudo dos Efeitos Terapêuticos da Prece Intercessora (EETPI) em pacientes com bypass cardíaco: um teste randomizado multicentral da incerteza e certeza do recebimento de orações intercessoras] in: American Heart Journal, vol. 151, número 4, pp. 934-941, abril de 2006. E está disponível on line aqui (em inglês).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Plantas — Nem geniais, nem vegetais

folha nervura
Nervuras em plantas: estruturas podem ter funções similares às de um sistema nervoso

Novas pesquisas mostram que plantas podem transmitir informações "de folha a folha de uma forma muito similar ao nosso sistema nervoso". Um artigo na BBC News chegou a dizer que plantas "podem pensar e lembrar." Ainda segundo o artigo, as plantas podem usar "informação contida na luz para imunizar-se contra patógenos sazonais."

Plantas não podem pensar ou lembrar. É tentador usar essa descrição para explicar como as plantas funcionam. Elas não têm um sistema nervoso central, muito menos células nervosas. No entanto, como a maioria dos organismos, os vegetais podem sentir o mundo ao seu redor e reagir de forma adequada. De fato, plantas são capazes de reações muito sofisticadas aos olhos comuns, mas que os botânicos já conhecem há séculos.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...